Ventos ( 4)

Quando se dicutem modelos antigos para problemas novos, convém então fazer o exercício completo. Nos anos 50, a URSS era a grande mentira,  mas uma  mentira  piedosa. Toda a gente sabia o que se lá passava, apesar de , por exemplo, em Portugal, pessoas com Zita  Seabra só terem descoberto a verdade… nos anos 90. É evidente que a grande e  duradoura alternativa ao imperalismo-capitalismo era um sistema policial de terror, mas o caso é bom para não esquecermos outros aspectos. O método  da desqualificação pessoal,  sim ( bêbado, drogado, vendido à CIA etc), mas outros ossos.

Ao contrário do que se passou em regimes fascistas, nos regimes comunistas não houve, nem há, julgamentos. Não há Garzons que queiram levar Fidel a tribunal,  não há notícias de julgamentos políticos dos grandes carrascos da ex-RDA, da Polónia nem, claro , da ex-URSS. A superioridade moral da esquerda revolucionária faz-se destas coisas: foi só  um enganozito, o espectáculo retoma dentro de momentos.

A literatura sobre o affaire Kravchenko era razoável ( quando vivi em França recolhi alguma qu e entretanto perdi). Aqui têm um bom resumo, quando o ler darei novas:

Au regard de l’Histoire, les moyens de défense des communistes français, totalement inféodés au système soviétique et acritiques mais qui se drapent dans leur qualité d’anciens résistants et sont soutenus par de multiples intellectuels connus, sont de piètres et minables palinodies, et, Victor Kravtchenko, très isolé malgré son succès public, parvient néanmoins à faire comprendre la tragique réalité des procès de Moscou et du goulag”.

FNV

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22 thoughts on “Ventos ( 4)

  1. caramelo diz:

    Em Portugal, Espanha e Itália também foi uma tranquilidade, como no pequeno mundo do Dom Camillo e do Peppone.

  2. caramelo diz:

    calma, era só a isto: “Ao contrário do que se passou em regimes fascistas, nos regimes comunistas não houve, nem há julgamentos.”

    • fnvv diz:

      Toda a calma, tenho a certeza de que execras qualquer regime de terror.
      Exceptuando Franco ( e os khmers rouges, de cujo julgamento , muito convenientemente, não se fala muito) , foram todos executados, julgados ou humilhados.E mesmo Franco, se compararmos com a memória de Fidel ( já podemos falar assim, creio) não tem comparação.
      Mas o que se passou na ex-Europa comunista é, de facto, incrível: foi um ventinho.

  3. balde-de-cal diz:

    nos socialismos, ‘primo ictu oculi’ parece tudo certo, mas quando se desmontam é só lixo.
    creio ter sido em 51, quando aluno da fac ciências de Lxa que li a trad. port. de Kravchenko. depois foi acompanhando a sua peregrinação e a da filha de Stalin. o seu colega Pinto Bastos conhecia o caso Lisenko e nunca perdou-o a Aragon andar a mentir. era um dos 3 comunistas sérios que conheci.
    o interior dos mitos urbanos é um local desolado (páramo).
    o séc. xx e o actual são tempos de devassidão e indigência (luxuria et inopia).
    um dos poetas latinos escreveu ‘os dirigentes fazem as burrices; o povo apanha os coices’

  4. XisPto diz:

    Obrigado pelo resumo.Só conhecia referências e a wikipedia após um amigo francês, anarca, a quem tentava descrever os efeitos culturais e políticos de se ter vivido em ditadura em Portugal, sem acesso a informação dissidente sobre o leste, me perguntar: “Mas, não conheces o caso Kravchenco?”

  5. caramelo diz:

    Claro que não foram todos executados e julgados, nem lá perto. Fizeram a folha ao Mussolini, de um lado, e ao Ceausescu, do outro, bem acompanhados os dois, por sinal. No resto, foi uma transição pacífica, concertada e magnânima. Certa direita e certa esquerda (o osso é este, não é?) tiveram um critério duplo, sim senhor. Mas não toda: eu sou da esquerda boa e execro qualquer regime de terror e tu és um conservador bom e também.

  6. caramelo diz:

    Desculpa o off topic, mas deixo-te a sugestão para falares da extinção da equipa de rua de apoio aos toxicocodependentes que funcionava na Cáritas no planalto do Ingote. É uma situação que me preocupa, até porque a minha mulher trabalhou lá precisamente na Cáritas, no apoio à comunidade cigana e não só, a quem ela se apegou.

    • fnvv diz:

      Já vi por cima da burra, mas ainda não tenho elementos de que necessitava. Estive em / coordenei muitas equipas de rua, de vários géneros, e nem sempre tenho /tive a melhor opinião desse trabalho. Depende de muitos factores.

      • caramelo diz:

        Sim, eu já imaginava que as equipas serão más ou boas e que depende de muitos factores, que conheces melhor do que eu. Eu só gostava de saber qual o motivo para extinção desta, porque receio que (esta sim, honra lhes seja feita) seja uma medida autenticamente liberal. Espero que pelo menos no resto das suas actividades no Ingote a Caritas consiga sobreviver sem a boa vontade do Estado. Se tiveres mais informações, avisa sff.

      • fnvv diz:

        o problema nem é serem boa sou más, avaliaçºao por vezes subjectiva, mas eficazes ou ineficazes, necessárias ou irrelevantes.

  7. Caro Filipe,

    repare que nos chamados regimes socialistas que ainda vão subsistindo, eles foram os únicos que santificaram (e embalsamaram) os queridos líderes. O que sendo um detalhe, não deixa de revelar muita coisa.

    Do meu ponto de vista, não faz grande sentido considerar os regimes de Leste no mesmo plano da classificação teórica dos regimes fascistas. Não me refiro aqui à violência e à repressão que nesse aspecto partilharam vários “galardões”. Refiro-me a características especificamente institucionais e estruturais. Mas não posso deixar de concordar em absoluto com este seu parágrafo: «Ao contrário do que se passou em regimes fascistas, nos regimes comunistas não houve, nem há, julgamentos. Não há Garzons que queiram levar Fidel a tribunal, não há notícias de julgamentos políticos dos grandes carrascos da ex-RDA, da Polónia nem, claro, da ex-URSS. A superioridade moral da esquerda revolucionária faz-se destas coisas: foi só um enganozito, o espectáculo retoma dentro de momentos».

    Mas se, do meu ponto de vista, os regimes fascistas e socialistas tinham relevantes diferenças institucionais, políticas e ideológicas, importa não esquecer algumas conexões. E aqui podem citar-se episódios absolutamente delirantes como um ano depois de Hitler chegar ao poder, o Comintern dizer textualmente que o seu principal inimigo na Alemanha era… a social-democracia… Ou do armamento secreto da Reichswehr pelo Exército Vermelho logo a partir de início dos anos 20. Ou então verificar o campo comum nacionalista que permitiu a circulação de dezenas de milhares de militantes entre o PC alemão e as SA.

    Enfim, quando se conhecem estes (e muitos outros) “pormenores” daquele período, como ficar incólume perante tamanha barbaridade?

    Abraço

    • fnvv diz:

      Caro João,
      “Do meu ponto de vista, não faz grande sentido considerar os regimes de Leste no mesmo plano da classificação teórica dos regimes fascistas”
      Claro, vou por aí muitas vezes, embora existam pontos que desenvolvo habitualmente ( inspiração salvífica, corte radical com o passado, instauração de nova ordem, centralização em detrimento da periferia, organização política de tudo – da vida sexual aos tempos livres etc).

      abraço
      F

    • caramelo diz:

      João, regimes facistas e socialistas todos tiveram os seus grandes mausoléus. O Franco teve (tem) o Vale de Los Caídos, local de romaria de novos e velhos falangistas. Isso é a grandeza de Espanha. O nosso teve uma devoção mais espiritual, muito na nossa tradição mais rural e modesta. A única coisa que revela é que é da natureza desses regimes santificarem os seus lideres.
      Sobre os pormenores de que fala, o armamento secreto da Reichswehr pelo Exército Vermelho logo a partir de início dos anos 20, não me parece revelar uma conexão entre um regime fascista e outro socialista, a não ser que se considere fascista a Alemanha dos anos 20. Que dezenas de milhares de militantes do PC se passassem para as SA parece-me numero exagerado, atendendo a que a principal atividade das SA era precisamente combater com as tropas de choque dos comunistas. Que o Comintern dissesse que o seu principal inimigo eram os sociais democratas, um ano após a subida do Hitler ao poder, não revela obviamente que os nazistas fossem os seus melhores amigos, apenas que estes não constituíam (ainda) uma ameaça.
      Não havia conexão ideológica; houve conexões estratégicas, e com esta natureza houve muitas alianças… Nem o Lenine teria conseguido grande coisa sem o apoio do Ocidente para a sua revolução, por exemplo e para começar.

      • fnvv diz:

        “Que o Comintern dissesse que o seu principal inimigo eram os sociais democratas, um ano após a subida do Hitler ao poder, não revela obviamente que os nazistas fossem os seus melhores amigos, apenas que estes não constituíam (ainda) uma ameaça”.

        Isto é humor negro. Já eram uma ameaça há muito tempo, qualquer aprendiz da queda de Weimar e do epílogo sabe isto.

      • Caramelo,

        Vamos por partes.

        1- Reichswehr. Não se se recorda mas a Alemanha estava proibida de se rearmar. Por outro lado, foi a partir do exército alemão reconstruído na sombra por Ludendorff que as SA se puderem armar e crescer. Mais tarde, seriam suplantadas pelas SS e pelo vector racial do nazismo, mas no início o NSDAP pôde crescer precisamente porque teve uma tropa de choque com origem no exército. E já para não falar do próprio rearmamento do exército, peça sem a qual a Alemanha nazi não teria podido avançar sobre o resto da Europa como a que ocorreu.

        2- Militantes do KPD e as SA. O historiador Jean-Pierre Faye até fala em mais: «No último ano de Weimar as transferências de filiados entre o KPD e as SA chegaram a 80% do conjunto dos membros destas duas organizações». Daniel Guerin escreve algo no mesmo sentido quando lembra que os membros da Liga de Combate da Frente Vermelha, do KPD, tinham ordens para não se baterem com as SA. Hermann Weber também calculou que entre 1920 e 1933 um milhão de operários alemães foram membros do KPD com a agravante da sua grande maioria nunca ter sido militante por um período de tempo durável. Bem pelo contrário.
        Ainda sobre esta relação cabe lembrar que em 1932 houve uma greve dos transportes em que o NSDAP e o KPD estiveram juntos.
        Cabe ainda lembrar que a facção de Strasser era muito favorável a um acordo entre uma futura Alemanha nazi e a URSS. Aliás, o tema do nacional-bolchevismo permitiu estabelecer uma ponte entre o KPD e o sector SA do NSDAP.

        3- SPD como principal inimigo. Bom, não tenho aqui a fonte à mão, mas foi numa reunião do plenário da comissão executiva do Comintern que permitiu um ano depois de Hitler chegar ao poder que tal posição foi defendida. Só em 1935 é que o posicionamento em relação à social-democracia iria mudar. Mas voltando ao assunto. Se o Hitler no poder já tinha ferrado milhares e milhares de comunistas na prisão e a social-democracia é que tinha de ser o principal alvo de contestação política? Claro que não o Comintern não era propriamente “amigo” de Hitler, mas suficientemente crítico não o era, nem que para isso milhares de comunistas tivessem de estar fechados na cadeia… E assassinados…

        Em suma, não se trata de ver os dois regimes como idênticos mas de ver o que permitia conectar aspectos entre si.

      • caramelo diz:

        O João sabe claramente mais do que eu sobre isto, apenas alguns pontos
        1 – Isso eu sei, mas não me parece que quando os soviéticos estavam a apoiar o reamamento do Reichswehr nos anos 20, soubessem que o mesmo iriam futuramenet servir para as tropas de choque dos nazis. ,
        2 – Não sabia que eram esses os números, mas parece.me que isso demonstra, por um lado, que a grande maioria dos filiados no KPD não eira o modelo “ideal” de comunista, e que, por outro lado, as alianças entre os comunistas e os nazis seriam muitas vezes de caráter mais estratégico, contra um inimigo comum.
        3 – Certo, não era suficientemente critico, e abandonou muitos comunistas nas prisões alemãs.

  8. caramelo diz:

    Agora sabe-se tudo, e na altura (34, 35) muitos já avisavam, mas os altos digantários das potencias ocidentais ainda se passeavam descontraídos por Berlim. Acedito mesmo que muitos países estivessem mais preocupados com a ascensão da esquerda nos seus países do que com os nazistas. Mas a minha conclusão é a mesma: tivesse ou não motivos para se sentir ameaçada nessa altura, a internacional comunista continuava apenas a combater os seus tradicionais inimgos, os social democratas, não existia nenhuma conexão ideológica com os nazis. Talvez, erradamente, ainda vissem estes como rufias de rua. Houve muito más avaliações nessa altura.

  9. caramelo diz:

    Ainda a propósito de nada, dali de um comentário meu, tenho em casa um livro com mensagens diplomáticas do Jaime Batalha Reis, de quando era embaixador na Rússia dos Sovietes, 17, 18, muito interessante para se conhecer as movimentações entre o governo bolchevique e as potencias ocidentais. A Wikipédia dedica duas linhas e umas letras ao Jaime Batalha Reis e obviamente não se refere à sua carreira diplomática. A wiki deve ser demasiado popularucha para os nossos divulgadores de história, mas pouco mais se encontra na rede sobre ele e muito menos sobre esse livro. Temos de ser orgulhosamente ratos de biblioteca.

  10. João Pedro diz:

    A graça disto é ver um caramelo da direita a colocar-se à esquerda do direitinha joão valente aguiar. Estão bem um para o outro !

    João Pedro

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