Comunidades negativas

Deixemos  Tonnies e a sua distinção entre wensewille ( vontade natural) e kurwille ( vontade racional) , deixemos Bataille e  as suas comunidades incompletas. A comunidade portuguesa, hoje, o que é?

Começa por ser uma comunidade de extensão. Angola, Alemamanha, Suiça, onde , numa localidade próxima de Yverdon aterraram tantos portugueses no último ano que as crianças estão em casa –  as creches  não têm mais vagas – e esteticistas portuguesas ganham a vida  a embelezar mulheres portuguesas  em pequenas oficinas domésticas e longe do fisco. Estas comunidades continuam ligadas à comunidade-mãe numa  relação que a biologia ainda não reconheceu. Não é simbiose, não é comensalismo.Talvez uma relação  obstétrica, em que o cordão imaginário , que se estende por rotas de aviões e estradas, une duas entidades que nunca mais se separarão, mas que também já não se reconhecem. Um tempo anunciado de pobreza tansforma a partida  numa atimia injusta.

É também uma comunidade de separação. Em nome da lógica da salvação moral, a palavra do banqueiro, da cuidadora oficial, do empresário, sempre igual,  é tida como correcta. Podemos e devemos empobrecer para enriquecer. Esta palavra é apresentada como motivadora, como slogan para um futuro melhor. Acontece que as palavras que transportam valores são como os comboios de dorso alvo do Ruy Belo: temos de voar por cima de um para compreender. Quando voamos  sobre  esta origem do novo Portugal, sobre esta urpflanz ( para  continuar com os poetas) a partir do qual todas as metamorfoses são possíveis, descobrimos carruagens  cheias de vitualhas, champanhe caro e mulheres elegantes. Desejar ao outro  a provação  em nome da salvação só é possivel se pudermos nós próprios experimentá-la. É  o exemplo que constrói  a moral e é por isso que é   tão difícil extrair moral de exemplos.

Acaba numa  comunidade inconfessada e aqui tiro o chapéu a Blanchot: a comunidade é aquilo que expõe, expondo-se. O futuro é muito tempo, dizia o marxista acusado de assassínio. No nosso caso, o que expomos , expondo-nos, é a discussão da culpa, subitamente transformada em handicap eleitoral.Isto  é a negação histérica, quase deprimida, de qualquer projecto.  É como se um conselho de anciões macuas resolvesse , em face de uma ameaça vinda do norte, discutir quem teve mais mulheres ou quem açambarcou mais farinha de milho. Eles sabem mais do que isso.

FNV

3 thoughts on “Comunidades negativas

  1. Ana diz:

    extensão, separação, inconfessada, não tem necessariamente de ser negativa, conquanto continue a ser comunidade.

  2. plomba diz:

    interessante.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: