A entrevista (2).

A entrevista a José Sócrates teve o efeito positivo de inaugurar a produção de fact checkings. Como a política nacional é uma extensão do futebol, não podemos esperar grande objectividade das claques.Mas apresento aqui dois, algo contraditórios. O de José Gomes Ferreira é muito crítico para o ex-governante. O do Jornal de Negócios confirma várias das suas alegações. Devem ler-se em conjunto.

A melhor interpretação global do regresso de José Sócrates foi escrita por Pacheco Pereira. O texto, que seria mortífero para o anterior primeiro-ministro se fosse menos palavroso, está neste post da Joana Lopes. É de assinalar a qualidade miserável dos artigos de Vasco Pulido Valente e José Manuel Fernandes. O primeiro não acrescenta a sombra de um argumento ao debate. O segundo é uma pequena explosão de fel muito ao gosto do autor, que alinhou com alacridade, convém não o esquecermos, na inventona de Belém. Quanto à alusão anterior de Esther Mucznik, vagamente repugnante, deve ser nomeada para sabermos com que dignidade a inspira a memória do Holocausto.

Interessante é a observação de Fernanda Câncio. Aqui fica, com o colorido local:

coisa gira d todo este afã de fact checking do sócrates: ninguém q eu tenha reparado pôs em dúvida a afirmação sobre a conspiração d cavaco
ou seja: parece q ñ há meio de comunicação q ñ reconheça q houve 1 conspiração do pr para prejudicar 1 gov legítimo. é obra

Deve ser outra vez a “pressão mediática da esquerda”.

No que respeita aos sinais exteriores de riqueza do anterior primeiro-ministro (que não me apetece confundir com comportamentos de interesse privado, porque se manifestaram após o exercício de um cargo político) avançou-se alguma coisa. O próprio Sócrates afirmou na entrevista que “só tinha uma conta bancária”  (um belo argumento à Isaltino), que “não possuia dinheiro em off-shores” e que “pedira um empréstimo” para estudar em Paris. O mérito destas tiradas não reside na dissipação das inquietações que possamos alimentar sobre o assunto, mas na negação da tese da “herança do volfrâmio” que muito excitou as groupies do menino de oiro.

Uma versão alternativa, apresentada à plebe como quem descasca batatas, é a de Ferreira Fernandes, que compara as incursões do homem com as de um estudante de belas artes numa água-furtada do Marais. O “Correio da Manhã”, que detesto citar mas é o que há, já lhe respondeu.

Seria útil que quem defende “a social-democracia de tipo nórdico” no PS conseguisse ocasionalmente pugnar também pela transparência de tipo nórdico.

Luis M. Jorge

9 thoughts on “A entrevista (2).

  1. henedina diz:

    Boa malha (a síntese), mas resolvi não comentar mais a 1ª intervenção de Sócrates.

  2. palavrossavrvs diz:

    Muito bom post, Luís. É fantástico quando surge o Franco Atirador que nunca deixaste de ser. Aprendi de ti, há sete anos, e nunca mais deixei de tentar ser um. Considero-me um bom discípulo a quem manca, talvez, ou não, aquele talento que em todo o caso nunca deixarei de perseguir.

    Ser a “qualidade” que imputas aos textos de boas-vindas do Pulido e do Fernandes “miserável”, naturalmente, só pode ser uma achega subjectiva: bílis com bílis se paga. «Essa gente» [chamo a tua atenção para o post de Francisco José Viegas] defender-se-á.

  3. Niet diz:

    Sócrates é mesmo escravo de Hegel. O universal no plano histórico realiza-se através das paixões e dos interesses dos individuos. Mas o espirito do Mundo não colhe em José Sócrates por causa da sua psicopatia e delirio sado-masoquista…Qualidades pessoais,o ex-PM, tinha e tem muito poucas e,sob o castigo da ausência de methexis, a sua relevância estratégica será curta e atrabiliária,equívoca e funesta. VP Valente já tinha escrito um artigo notável, a 23/3/, sobre o regresso de
    Sócrates como um exemplo de ” Vergonha Nacional “, a várias dimensões e
    implicações. Salut! Niet

  4. caramelo diz:

    O CM respondeu-lhe? É uma forma de ver as coisas. Eu vi o Paulo Pinto Mascarenhas, mais os seus colegas, a perguntarem onde foi o S. arranjar dinheiro para um Mercedes de 95 mil euros, porque o S. não terá esclarecido na entrevista, como devia, se o empréstimo também incluía um carro; a dizerem, definitivos e sintéticos, que “testemunhas garantiram que Sócrates exigiu 500 mil contos (2,5 milhões de euros) para viabilizar o outlet.”, sem ter tido o trabalho de consultar os arquivos do seu próprio jornal sobre as transcrições do julgamento, e ainda a perguntar-lhe directamente se é verdade que ele é corrupto e que manipulou a magistratura e a imprensa. Nem era preciso jornalismo de tipo nórdico, era só preciso jornalismo. Sim, os colunistas do CM devem ter muito orgulho no jornal que lhes paga e só por extrema modéstia, da escola inglesa, não o defendem com unhas e dentes. Também já vi recentemente perguntarem-lhe se reconhece que deixou o país de rastos. Obviamente, um homem que responde torto a isto sofre de arrogância patológica e psicopatia e demonstra vontade de invadir a Polónia logo de seguida.
    Mas a história do volfrâmio não é das groupies, é contada pelo próprio CM no longínquo ano de 2005 (abaixo). Fez então o retrato de um político cujo avô terá feito fortuna com o volfrâmio e na construção civil em Lisboa. Mas é preciso dizer as coisas certas, no momento certo.

    http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?channelid=00000009-0000-0000-0000-000000000009&contentid=00150944-3333-3333-3333-000000150944&goComments=21

  5. Jorg diz:

    A “narrativa” – a da entrevista e a derramada depois – é pífia. Como diz um pneumático da bola, em “entre ambos os dois” lados. Mas principalmente é uma dissipaçâo de energias. Porque voltar a escarrar para a ribalta das “narrativas” o personagem é ancoragem em Doca Seca, e ai clamar que se pratica navegação em Alto-Mar com as tripulações, oficiais e passageiros a movimentarem-se como se andasse a caçoar do Adamastor. Uma Palhaçada portanto.

    O problema não era, nem nunca foi o PEC IV, era a falta de reboque, e de marujos sem tomates e sem conhecimentos [ ainda hoje é penosos ver aqueles ex-secretários de Estado – os ex-ministros nem piam… – a exibir chagas da ignorância, quando não da mais despudorada má-fé intelectual a dissertar sobre ‘impostos’ e ‘receita’ e ‘calculos rigorosos de défices, dividas e quejandos, enquanto clamam moralidades, de que se isentam a si próprios, aos banqueiros que amestraram ou defenestraram, às instituições como a Justiça, a Presidência, os Tribunais de Contas, as ‘autoridades’ da Concorrência, etc ] para manobrar nos atoleiros e baixios para onde se arrastaram, ao mesmo tempo que um mitómano andava a clamar méritos de ‘skipper’ na America’s Cup, quando a nave era (e e’) um peso pesado cheio de ‘chaises longues’ e de lastro. Navegava-se de Pântano para Pântano, e eram prometidos ‘pugressos’ e ‘modernidades’ passando-nos binóculos digitalizados por prensas amestradas ou intimidadas que faziam o ‘rendering’ da imagem em vista, convertendo a choldra em Praias paradisiacas com mutas venturas e folguedos – melhor só a ilha dos Amores. Vislumbravam-se, por exemplo, ‘Geeks’ empoleirados em éolicas com os Magalhães a operar em Banda Larga que permitiam ver, na TV digital em Fibra, Comboios de Alta Velocidade desde o Poceirão e Auto-estradas desertas a passar ao largo de estádios da Bola silenciosos ou Escolas de LX com recantos ‘lounge’. É esta a “narrativa” que, ao se dar demasiada importância, causa nauseas, e que com o tempo parece, não análise, mas ‘Pulp Fiction’, com um Travolta requentado a dançar como quando era Tony Manero com Uma Thurman antes desta ter aquele ‘ictus’ remediado por barbeiros-dentistas que também era ferradores d’équideos com doses de mistelas que podem ressuscitar cavalos, mas não servem para converter jericos em gazelas.

    Não se trata de legitimar presentes “austeridades” ou “austeridadezinhas”. Não sei se as de hoje são ou serão soluções correctas, com muitas, demasiadas, imperfeições, ou com alguns méritos, mas sei que é preferível lidar com esta realidade mais agreste e procurar soluções e autonomias que prescidem de atrelagens a mamas e garantias que encontram lógicas mais ou menos sofisticadas para serem ‘constituicionais’ ou ‘orgânicas’, mas que não encontram ajuste ou ‘matching’ com a realidade de quem tem de avaliar ou contar com os recursos á mão. Nas discussões destes plenários, andar a relevar mitómanos que, mesmo dois anos depois, recitam tretas que tem mais a ver com o próprio umbigo e com os odores da própria ventilação intestinal que nos diz serem de provençal alfazema, é iluminar esforços dolorosos de um populaçâo amedrontada com palhaços de circo, ou andar a chamar o ‘The Joker’ do Batman que anda a repetir “Haven’t you ever heard of the healing power of laughter? “

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