Portugal, colónia balnear

O processo de colonização, enquanto dispositivo mental,  interessou-me sempre muito. Há tempos escrevi isto:

“Quando Epidamos declinou, o partido democrático derrubou o partido aristocrático, que foi aliar-se  aos estrangeiros que fustigavam a cidade –  tanto por terra quanto por mar ( Tucídides 435.3). Epidamos era uma colónia de   Corcira, mas fora fundada pelos Corintos. Isto deu uma das mais famosas trapalhadas da Guerra do Peloponeso ( entre colonizadores,  fundadores e respectivos e poderosos aliados), mas podia ser ensinado nas universidades aos alunos de estudos pós-coloniais. Sempre   passariam a compreender que não foram os terríveis impérios europeus da Expansão que inventaram  o sistema.

Ainda assim, o que me interessa é o carácter mental do processo de colonização. Há muitos anos, um empresário francês instalou-se no Brejão.  Os habituais aldrabões-intermediários  locais  enriqueceram, o empresário não perdeu um tostão, enfim, o normal. O Brejão é uma terra  colonizável? Talvez. Conheço-a bem. No início da recta, um café pequeno e escuro vende conservas e um pão que dura dez dias.  Para  a esquerda, mar e casas  remediadas, miúdos  saídos de um documentário sobre uma aldeia  boliviana. Para a direita , pastagem e mais pastagem. O Brejão não tinha aliados ( nem Esparta  nem Atenas nem o Estado português) ou inimigos. Aceitou o  francês como teria aceitado um bielorusso”.

O internacionalismo socialista, seja na sua versão soviética, seja na sua versão  segundo Komintern, seja na tradução anti-imperialista, funcionou da mesma forma A cooperação obscena entre  movimentos libertadores –  como a ETA ou o IRA,  os movimentos palestinianos e as diversas  brigadas revolucionárias da ex-RFA –  e  a Stasi  e o KGB, por exemplo, foi uma demonstração  da tentação colonial.
O novecentista processo tradicional de colonização , europeu e imperialista , não esgotou, de maneira nenhuma,  a tradução mental do dispositivo.  Colonizar signfica sempre um droit de regard sobre  o destino do outro.  A história alentejana que refiro no texto,  passada em tempos de vacas gordas, ilustra isso mesmo.
Hoje, sob resgate, amarrados  a uma dívida maior do que todo os  mundos  que nos habitam, a condição colonial ressurge, estelífera, entre nós.  Podemos   romancear,  mas também devemos  identificar os colaboradores  dos  colonos.
( talvez continue)
FNV

5 thoughts on “Portugal, colónia balnear

  1. caramelo diz:

    Esse projeto do Brejão é tal e qual a fábrica de rolamentos que coloniza aqui e vai colonizar um povoado da Índia passados dois anos. É o Mercado, com mais ou menos aldrabões. Colonização em sentido próprio era o que fazia a nossa famosa Junta de Colonização Interna, nos anos 30 e 40 do século passado. Mandava-se colonos para o faroeste, para arrotear os baldios, crescer e multiplicar-se. Também se fazia em África, para povoar um continente carente de gente com personalidade jurídica.

  2. balde-de-cal diz:

    o rectângulo necessita da criação urgente duma junta de colonização interna.
    há colónias de todos os tipos. não faltam colónias penais e outras que tais.
    nunca fomos tão colonizados como o seremos seguramente nas próximas décadas.

  3. jpm diz:

    Duas notas em contramão:
    1- A ideia que o espectro da colonização está sempre presente deixa só duas alternativas: o estado colonial e o estado perfeitamente soberano. Ora, no meio há uma imensidão de hipóteses: uma identificadas no passado (protectorado, mandato, esfera de influência – com diferentes graus de desigualdade) e outras no futuro. Fechar a história a duas hipóteses que no essencial são os dois polos da relação entre entidades políticas, além de demasiado limititativo em relação à experiência histórica como parece-me, fecha hipóteses sobre o futuro. E isto parece-me o grande problema das analogias históricas que tenderam a multiplicar-se com a crise.
    2- Definir a situação colonial essencialmente como droit de regard não faz jus a todas as outras situações de exercício de controlo que não passam necessariamente pela territorialização do poder político e administrativo.

    • fnvv diz:

      Oras:
      1) Não se trata de analogia histórica nem tem nada ver com a crise, porque me interesso pelo assunto há muito ( vem do estudo da geopolítica das drogas e da memorabila colonial portuguesa que possuo).
      É claro que há uma infinitude de formas : para, sub, cripto coloniais. Quem lê Tucídides sabe isso. Édipo em Colono ( de onde vem o nome, os coloneus, às portas da cidade) é um bom ponto de partida. Por isso dei o exemplo do Brejão, não é?
      2) O droit de regard é uma fórmula que fui buscar a outras andanças e que me serviu apenas o propósito de síntese ( um blog não é uma tese). Gosto de a aplicar à Guerra do Vietname ( que começou em 1952…)como à guerra do Duque de Alba aos protestantes flamengos. Par a cima e para baixo existem, claro, muitas variantes.

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