Estratégia e redondismo.

Cumprindo a tradição revisionista — isto é, com a panache de quem nunca defendeu outra coisa — o governo descobre as virtudes do “crescimento” sustentado, amável ironia, por “dinheiros públicos”. A Caixa, a boa e velha Caixa que um dia iria ser privatizada, rendida por um “banco de fomento”, entretanto relegado para as calendas, ou fustigada pela gloriosa concorrência da banca liberal “canalizará mil milhões de euros para a pequenas e médias empresas”. Os serviçais do ministro Álvaro receberão “carta de missão” para distribuir o dinheiro que não existia por empresas que há bem pouco tempo mereciam uma imolação regeneradora.

A grandiloquência do plano atravessa décadas, talvez milénios. O ministro pretende que, “em 2020”, as exportações alcancem mais 20% do PIB. Que “o nível de emprego” passe “dos 66% para 75%”. Enfim, que os “projectos de investimento parados há mais de 12 meses” (sabe deus porquê) sejam “reanalisados” e “agilizados”. Com doçura maternal citou ainda um “programa emblemático” de “apoio à internacionalização”, que responderá pelo bonito nome de “Start Up Portugal”. Manuel Pinho ficaria contente.

Enquanto assistia à exibição das piruetas “estratégicas” que caracterizam, para deleite do turismo, a simplicidade tocante dos nossos governos meridionais, fui acometido por uma reverberação indefinível, um sentimento de déjà vu.  E compreendi, enfim, que este “plano”, esta coisa redonda, balofa, tão inchada de lugares-comuns, não era na verdade um projecto para a economia mas o início de uma  aventura política. A “estratégia” do Álvaro é a semente do novo bloco central.

Luis M. Jorge

9 thoughts on “Estratégia e redondismo.

  1. É quase, quase, um plano quinquenal.

  2. Vai terminar mal, porque à CGD falta ousadia: http://www.publico.pt/cultura/noticia/caixa-geral-de-depositos-cancela-oferta-de-livros-com-linguagem-erotica-1592255. E como te diria o Miguelito Gonçalves, não há empreendedorismo sem ousadia. (Há que levar tudo isto com algum humor — o possível.)

  3. Tó Zé diz:

    O ideia do banco de fomento não desapareceu.
    “A médio prazo, vamos criar uma instituição financeira de desenvolvimento que irá fazer a reestruturação dos instrumentos financeiros ao dispor das PME.”
    To Zé

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