O complexo de portuguesismo ( 1)

O objectivo é discutir e pensar a forma com reagimos  a situações  impostas pela força e como trabalhamos  a realidade que decorre dessas situações. Quem quiser  atirar tochas e fazer de macaco,  escusa de perder tempo aqui ( terá  sempre  as claques de futebol).

Juntei, no último ano, à secção Estado Novo da minha pequena biblioteca, alguns títulos.  Carlos Brito (sobre a vida na clandestinidade ) , Pedro Feytor Pinto ( memórias) , Irene Pimentel ( Cerejeira e a biografia de Fernando Gouveia, o inspector da PIDE especializado no PCP, sobre a qual  muito hei-de dizer), Henrique Galvão ( biografia).  Juntaram-se a clássicos como Salazar (por Franco Nogueira), Marcello Caetano ( correspondência  e memórias),  Cunhal ( os volumes de Pacheco Pereira) e a  avulsos  – Jorge Jardim, Spínola ( Ao Serviço de Portugal), Otelo (  biografia)  etc.
Serve isto para dizer  que quem lê , vê registos e escuta intérpretes  ( também gosto de ouvir velhos cidadãos anónimos)  sobretudo do período 1945-1974,  encontra algumas   similitudes com a situação actual. Vamos supor que a ditadura  é agora o troikismo e analisemos o seu impacto em duas categorias:
a) a possibilidade de mudança
b) a revolta

Começando pela primeira alínea, recorde-se que a uma ditadura repressiva juntou-se uma guerra colonial, que, se bem que censurada mediaticamente, não podia ser escondida. Os filhos e maridos iam e voltavam ( nem sempre).A teoria de que o 25/4 se deveu ao ponto pérola, ou seja, ao estado ideal de decadência do regime , não colhe. Os próprios protagonistas, como Otelo, dizem que  podia ter sido bem antes e, se lerem os registos dos estrategas, confirmam-no. Podia ter sido em 1970, 1971, tanto faz. Não havia nenhuma condição edafo-climática  especial em Abril de 1974. Bem antes  da guerra, em 1956, um folheto escrito por Júlio Fogaça, en nome do CC do PCP, descrevia a situação política portuguesa como sendo de  “desagregação acelerada”.
Ora, isto levanta dois pontos. Agora que já podemos dizer que  o 25/4 foi um golpe  e que o tom revolucionário só ocorreu depois, convém determo-nos. Por que motivo  não houve,  sobretudo depois da  crise  académica de 1969, vários  levantamentos populares  e inssureição geral? Otelo diz mais : entre  1964, ano da primeira  reunião conspirativa do Movimento  e 1973, o “ideal” esteve em banho-maria. O segundo ponto: a natureza da demora , até da de uma sublevação corporativa.
Vemos  assim que  a vida correu mansa  ( excepto para o PCP , a ARA e as BR) para a generalidade dos portugueses, a menos que estes, por exemplo, tenham sido escolhidos a dedo: é notável como num ambiente de anonimato não aproveitaram para vaiar massivamente  Caetano, não é?
Um ambiente político  sufocante, um partido único, uma polícia política, liberdades constitucionais suspensas, e as pessoas a tentar viver uma vida normal. Podem dizer-me que, por exemplo,  em Cuba foi e é igual, que não há nada de específicamente  português nesta história. Não me parece. O PCP e, depois, as acções  armadas, foram movimentos que não vimos, nem vemos, em ditaduras comunistas. A eficácia da repressão é muito maior, a doutrinação mais completa, o ambiente é outro.

Quando lemos os detalhes da organização clandestina do PCP , sobretudo do seu quotidiano conspirativo,  ficamos, pelos menos eu fico, com a sensação de que existiam dois países. O do PCP e o da vida  mansa. O do PCP era o da  a luta  contra o regime e o das  “de massas cada vez mais conscientes”. Conferimos  assim a possibilidade da coexistência de uma realidade com uma fantasia. A diferença para a situação actual é grande e pequena. Hoje, não existe gente disposta a subverter a ordem estabelecida, ainda que escrevam e digam todos os dias que  estamos pior do que na ditadura ( Otelo de novo). Por outro lado, talvez haja uma similitude na  fantasia da “prontidão das massas”, mas não tanta  assim, o que explicaria  a cautela com que a esquerda  deseja o fim do trokismo.

Uma excepcional capacidade de adaptação às circunstâncias talvez levante a lebre do célebre medo de existir, mas é demasiado metafísico.  A interpretação de Pessoa, a da nossa disciplina germânica, de um colectivismo  orientado  não para  a cooperação mas para  o receio do individualismo, já é mais atraente. A psicologia social  sublinha muitas vezes que  os processos inovadores  têm origem  na ruptura com o status colectivo. São, digamos, solitários. O Movimento  dos Capitães mostra  isso exactamente.

( cont.)

FNV

39 thoughts on “O complexo de portuguesismo ( 1)

  1. balde-de-cal diz:

    nasci em 31 num pobre aldeia norte alentejana. frequentei a escola. todos tinham horta e galináceos etc e quando faltava o essencial roubavam. meu avô materno dizia come-se o melhor ou roubam-no. alguns andavam descalços e faltavam à escola para ir apanhar ‘bonicos’ de burro para estrumar a horta. vieram morrer de fome e trabalho rude na periferia de Lisboa.
    sempre me preocupei com as patologias sociais. tenho que viver no seio delas.
    não tenho a mínima consideração pela esquerda revolucionária, ps incluido. trataram-me como se fosse um criminoso e na minha aldeia quiseram matar-me. tive de comprar um revolver. sempre fui democrata e pertencia ao GOL. tive 4 Amigos comunas.
    convivi na empresa com um amigo intimo do barreirinhas que viveu com ele na clandestinidade. dizia que este era um ser miserável.
    convivi com a cozinheira da empresa, alentejana muito doente, da idade de minha mâe. viveu na clandestinidade com um futuro deputado do pcp que por recordação lhe deixou uma filha de quem nunca se lembrou. contou histórias de arrepiar.
    tive de suportar na empresa um filho da puta licenciado pela universidade do Tarrafal a quem também tratei a baixo de cão.
    a ditadura desta revolução socialista de cretinos e ladrões deixam-me verificar que a anterior era bem melhor. longe de mim ser saudosista. escrevo sobre o meu testemunho do passado, mas penso num futuro sem esperança.
    ontem decidi deixar de ouvir a lenga-lenga do telejornais anti contribuintes. tenho a Net para saber tudo e o seu contrário
    preparem-se para viver muito pior numa europa falida

  2. “entre 1964, ano da primeira reunião conspirativa do Movimento e 1973, o “ideal” esteve em banho-maria” suponho ser gralha, nem o Otelo delira tanto.
    Sugiro o livro do Miguel Cardina sobre os maoístas, e para o MFA a obra do Dinis de Almeida (Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, a contrapor à versão otélica). Esse “excepto para o PCP , a ARA e as BR” já não será gralha, mas parece-me redutor.

    • fnvv diz:

      A “gralha”, ou o meu “delírio”:
      Otelo chega de Angola em 1964, reúne-se em Campolide em casa de amigos e
      ” discutimos largamente acerca da necessidade, oportunidade e condições para a realização de um golpe(…). Era necessário um maior amadurecimento. Era uma chama que se acendia e que não devia apagar-se. Bruxuleante durante uma década, reanimou-se subitamente em 1973″.
      (Otelo, Alvorada em Abril, pp 47)

      O “redutor”:
      Para além da ARA, do PCP e das BR quem mais mostrou os dentes de forma organizada e constante? Ninguém.

      Cumprimentos.

      • Li isso há muitos anos, lembro-me do delírio (lá está, a bem documentada obra do Dinis de Almeida serve de contraponto), e uma otolice tão grande já a tinha perdido de vista. As minhas desculpas por suspeitar de uma gralha num assunto que mete Saraiva de Carvalho no meio

      • fnvv diz:

        Desculpas aceites, mas sempre quero ver essa descrição de Dinis de Almeida no períod 64-73. Vou procurar.

      • Não vai tão longe, mas documenta muito bem o MFA, antes e depois de 74.
        De resto é uma obra de referência por isso mesmo: publica as fontes, é narrativo, o que independentemente da leitura que faz dos factos (claro que discutível) coloca muita coisa no seu lugar.

      • António diz:

        Só uma pequena dúvida, não considera também a LUAR?

      • fnvv diz:

        Nem tanto porque exceptuando o banco da FFoz e a cena delirante-falhada da Covilhã, o resto foi mais no estrangeiro e depois de 70, com a prisão de PInácio, acabaram.

    • balde-de-cal diz:

      deixei o GOL em 98 por roubalheira de Irmão ao meu património.
      um dos Irmãos ligados ao pcp tinha-me mostrado apontamentos e documentos que invalidam as versões otelo e lourenço. por falta de saúde não lhe escrevi o texto, como me pediu.

  3. XisPto diz:

    A ideia de (alguma) similitude entre a ditadura e o troikismo não me parece fecunda, salvo como detonador de depoimentos. Tudo separa as situações. O que os protagonistas disseram para a história, é um alçapão para outro mundo, em particular na prosa agitprop do PCP ou BE, onde já estamos sempre no fascismo mas ainda há a democracia para defender. Sobretudo, o ajustamento económico, o terceiro depois de 25/4, nem de perto nem de longe provoca o estado de exaustão final de um regime, como sucedeu, com um aparelho repressivo intacto, mas sem ninguém para se bater por ele. Foi assim tão diferente a queda do muro? ou o tipo que se colocou em frente do tanque na praça Tiananmen?

    • fnvv diz:

      Hummm… tantas certezas. Não sei, sei que se pode comparar exacatmente o que não é igual , mas o meu objectivo é analisar as reacções, não tanto os períodos, e aí creio existir mato q.b.

      • XisPto diz:

        Uma das que mais me surpreendeu foi a do Saramago, sarcástica qb, sobre aonde a revolução nos tinha trazido: ao mesmo que a Espanha, onde menos se imaginariam “transiciones pactadas”. De um golpe toda a teorização sobre o nosso lirismo, brandos costumes etc parece destituído de sentido.

  4. Jorg diz:

    Tanto, demasiado, se converte (ou se consente a conversão) em circunstâncias. Tal consente uma contemplação de “excepcionalidade”, e.g. na “capacidade de adaptação”.

    Os sicilianos dizem o mesmo – reinos de muitos reis, de cores, raças e credos distintos.
    A contemplação destes calesdocópios cega mais do que consente um “rationale” de entendimento, uma ferramenta para interrogar o mundo, e aqui ou ali transforma-lo em luz.
    E nessa cegueira, demasiadas vezes julgamos confundir-nos com Deuses, em mitologias mais ou menos adaptadas ao ‘Zeitgeist’.

    Na verdade ansiamos por circunstâncias – uma anedota conta que os navios mercantes holandeses apreciavam ter na tripulação um marujo português. Este não tinha particular atribuição ou responsabilidade nas rotas calmas, ou mesmo na gestão do negócio e aceitava – sem profunda adesão – uma certa dose de disciplina protestante na medida em que lhe dessem atenção e fizessem sentir parte da empresa e da jornada. Mas perante tempestades, escolhos e imprevistos de circunstância era imediatamente investido como Imediato do navio – era quem desenrascava, e a anedota menciona superficialmente uma estatistica notável de sucesso. Depois, de volta á vista de costa ou a águas calmas, voltava á sua condição anterior – era também humilde nessa aceitação. Ou talvez porque secretamente acreditava estar no ‘realm’ que na ditatura o PCP vislumbrava para si mesmo, acima do outro, de “vida mansa” do mercantear calvinista.

  5. fgh diz:

    Não perderia tanto tempo em comparações (comparar é uma prática cognitiva fraca). Interessaria antes saber, o porquê (então e agora) da distância tão grande entre a percepção da realidade e a dita (pelo menos, para quem acredite que esta exista e pode ser apreendida). Em Portugal a distância é enorme e nela se instalam as mais inverosímeis mitologias. A do “novo português”, de que qualquer senhora de idade com um mínimo de sensatez se ria – ao neo-nacionalismo que as esquerdas cultivam, feito de um contentamento de si mesmo tão acrítico, tão narcisístico , que mesmo alguém dado a revêries de solteirona se assustaria.
    Há um dado base que não mudou: o analfabetismo clássico não foi vencido – estamos 21 (vinte e um) lugares (correspondentes a tantos outros países) abaixo da Espanha. A iliteracia da sociedade portuguesa é enorme.

    Apenas um lembrete quanto ao salazarismo: para além de não haver memória de processos disciplinares por alguém ter contado anedotas sobre o primeiro-ministro – o que aconteceu há poucos anos – a vida de classe média desenrolava-se, como sabe, com uma interferência mínima do estado. Ou seja, era possível viver pachorrentamente.

    • fnvv diz:

      “(comparar é uma prática cognitiva fraca)”
      …que fundou a ciência clássica ( a Lógica) e moderna, a filosofia da Academia etc.
      Enfim, volto a dizer que comparo as disposições mentais em quadros com semelhanças, mas a comparação foi só neste número.

      • Fgh diz:

        Não foi a lógica que fundou a ciência clássica ( de facto, é barroca, mas adiante). O que fundou a ciência moderna foi o método experimental – que não tem uma relação necessária com a comparação. O método comparativo é um entre vários, bem sei que muito do agrado dos sociólogos, que assim evitam as agruras do single case study.

    • XisPto diz:

      Por favor, Salazar expulsou da carreira universitária opositores políticos, e não teve problemas em liquidar outros.

      • João. diz:

        Não expulsou nem liquidou nada. O salazarismo era como uma monarquia constitucional. A comédia como é dito era livre. A censura da pide ao teatro de revista não era política, era um controlo de qualidade, queriam ver se as piadas eram boas, riscavam as más e davam sugestões para melhores. Depois não só havia uma classe média vigorosa como a vigilância da Pide não era interferência do Estado – uma vez que a Pide, se pode dizer, era composta de agentes cuja situação social seria de classe média a verdade então é que era a classe média que se vigiava a si mesma – era apenas uma variação do gnōthi seauton clássico.

  6. caramelo diz:

    Numa célebre entrevista ao Alçada Batista, o Marcelo Caetano dizia, grosso modo, que o povo português não estava preparado para as liberdades e a democracia. Isto, aliás, continua a ser ainda hoje usado como mote, que abusamos da liberdade, que não a sabemos usar, etc. Adiante, aquela entrevista foi particularmente cínica, pois bem se sabia que o regime tinha como politica de estado assegurar-se de que não tinhamos maturidade para sermos livres, e isso faz-se sem grande esforço através do empobrecimento e da falta de instrução e cultura. A maior parte não sabia, por isso, que se podia estar melhor, salvo algumas bolsas da aristocracia operária, que já tinham enchido as fileiras dos republicanos e do movimento anarquista. Não eramos sobretudo livres de saber o que queriamos e nem sabiamos porque razão haveriamos de querer uma mudança de regime. Havia levantamentos populares esporádicos e localizados quando a fome apertava e se pedia pão (nas cidades e nos campos), ou quando retiravam ao povo os baldios, mas a revolta era sobretudo dirigida para a GNR, que era a única autoridade visivel. Não se reinvidicava mais liberdade para falar, porque já se falava o suficiente do que se precisava e conhecia num raio curto, ou direitos de associação politica (para que efeitos?). Quem tinha medo, aprendia a viver com ele, como do medo dos lobos na serra. Bastava não sair da aldeia.
    A situação é agora radicalmente diferente, no sentido de que vivemos livres da vigilância do Estado. O problema é que, já não vigiando, volta a ser minimo, na falta de proteção. Voltamos a andar demasiado ocupados a sobreviver. Não se justifica agora o medo do estado, mas sim das relações interpessoais e das corporações; temos medo de perder o emprego e das hipotecas, e andamos cansados.
    Sobre o comentário do fgh, pois, um dos nossos problemas é precisamente “não haver memória”, ou o excesso dela, quanto ao nosso passado. É assim que se inventa uma suposta dimensão ética do salazarismo que fazia com que não houvesse processos disciplinares por contar piadas. Não sei se havia, mas se assim é, devia apreciar o sentido de humor dos seus funcionários, o velhote, pois há pelo menos memória de que os demitia e prendia quando o criticavam de forma séria. O que se passou com a célebre piada ao sócrates foi excesso de zelo de uma dirigente, não politica de estado. Não perceber esta dimensão essencial, é não saber nada, e custa muito isto de aturar “lembretes” de quem não sabe nada disto. Vamo-nos habituando, mal, a estes rolos compressores do salazarismo.
    A vida corria calma, não pachorrenta, não eramos uma arcádia, eramos um cemitério.

    • fnvv diz:

      só um detalhe: se escreveres sobre a livraria Lello ( e irmão) também comes o segundo “L” como comeste em “Marcelo”?

      • caramelo diz:

        “só” um detalhe, dizes tu por excesso de modéstia em relação à tua perspicácia, e ainda bem que me dás oportunidade de me explicar, o que vai ser já de seguida: eu, do Lello e do irmão não como nada, até porque gosto da forma como Lello se demora no palato e é importante preservar o património lúdico-fonético; já do Marcelo deixei-lhe um L por facilidade de identificação, que se tivesse mais L, mais L comia, e não fosse por medo do colesterol comia-o todo, desde o M ao O. Pronto, isto foi engraçado.

      • fnvv diz:

        obrigado, pouco claro, mas valeu pelo esforço.

      • caramelo diz:

        De nada e obrigado. Tivemos aqui um momento surrealista interessante.

    • Fgh diz:

      O salazarismo é um regime autoritário – tradição portuguesa, onde o Marquês de Pomba, corrupto, arbitrário e cruel até para o seu tempo, é geralmente apreciado.
      O autoritarismo mantém-se e o mais desbragado estatismo idem – num regime que atira o controlo efectivo do exercício do poder para o mais longe que pode do cidadão.
      A questão é que isto foi e está e é tão mau que é preciso demonizar o salazarismo para que todos sejam investidos de uma heroicidade retrospectiva que não existiu fora das canções do Lopes-Graça.
      Há uma diferença – de vulto e que a populaça indistintamente percebe: mesmo que, como diz Vasco Pulido Valente, Salazar considerasse que a miséria era inultrapassável e não a achasse, habituado a ela, demasiado grave, havia um sentido de decoro – e vejam nisso a perversidade que quiserem – hoje desconhecida, isto é, e exemplificando, numa colisão entre o interesse público e o de um qualquer banqueiro, seria o primeiro melhor resguardado então do que hoje. Mas sem espinhas.
      Sobre o cemitério de Caramelo: era um cemitério produtivo: na década de 60 Portugal o PIB atingia valores nunca atingidos depois. Na cultura havia a Gulbenkian, havia professores do secundário que se chamavam Vergílio Ferreira, na Televisão ouvia-se Victorino Nemésio e o de Almeida falava de Viena sobre música erudita. E a censura: Aquilino Ribeiro foi acusado de escarnecer a pátria. Continuou a publicar. E o gajo que o acusou, reformou-se conselheiro do supremo lá por 1985, já com o “poder judicial” na autogestão deste regime onde Abranhos reina.

    • Fgh diz:

      P.S. Caramelo devia meditar: mesmo depois de denunciado na imprensa e na assembleia da república o caso da perseguição ao professor, a comissária manteve-se no seu lugar. Pachorrentamente. O que, assim considerado, retira o caso do reino das particularidades para o situar, necessariamente, como decorrência “normal” de um regime onde a democracia e o rule of law cedem à primeira conveniência e histórias daquelas podem acontecer e acontecem numa impunidade tão mais total quanto jse descura já. por desnecessário, o manter as aparências. .

      • caramelo diz:

        Fgh, há uma contradição que tenho dificuldade em ultrapassar. Se o Salazar era um filho da puta, como é que havia decoro? É dificil. Sempre dei como certo que de filhos da puta saia uma maior percentagem de filhadaputices, e que quanto mais poder tem um filho da puta, mais o povo se lixa. Se está difícil, vou tentar sintetizar em duas linhas, aproveitando aí o seu exemplo do interesse público e dos banqueiros: O interesse público era conceder aos banqueiros, grandes empresários e ministros a concessão da exploração das colónias e da economia do país, enquanto a população vivia mal. Haveria mais para dizer, mas não perco mais tempo e nem sei o que me deu para chegar tão longe; acho que já vai tarde para perceber porque é que a democracia é o pior de todos os sistemas com exceção de todos os outros. É como explicar a um homem adulto como se faz sexo; mais vale deixá-lo morrer virgem, para não maçar nenhuma mulher, e ir apurando a nobre arte de bater punho.

      • Fgh diz:

        Caramelo, o povo vivia mal, como mal tinha vivido durante o constitucionalismo monárquico, a 1ª república e como vive agora, na 3ª, quando acabou quem nos desse dinheiro. Por isso, como então, emigra.
        Não confundir planos gerais com questões pessoais. O que se queria dizer era, muito simplesmente, que se um banqueiro se esquecesse de declarar uns milhões no estrangeiro estaria pouco tempo mais no lugar, exactamente como hoje aconteceria nos USA. Decoro.
        De resto, a sua análise está errada.
        Nenhum país cresce sustentadamente 10% ao ano durante uma década com políticas para os amigos ou Tinha havido uma política de crescimento a que corresponderam medidas e modelos de desenvolvimento industrial ( adesão à EFTA, etc.).
        Não se fala de história com raivinhas.

      • Fgh diz:

        A contradição apenas existe porque Vc mesmo a cria, ignorando a história económica ou a social. A criação da ADSE e do regime geral de providência – que foi alargado por Marcello aos rurais – não se coaduna com a sua visão simplista.

      • João. diz:

        Milhões de pessoas sairam à rua em 74 para defender o regime salazarista contra o 25 de Abril. Isto por si só indica como o povo gostava do regime.

      • fnvv diz:

        Não gostou do link nem do facto, pois não?
        Azar, não podem ser apagados, o Declínio é do Povo, não é de Moscovo.

      • Miguel diz:

        Quanto povo cabia no Estádio de Alvalade? 60.000? Quantos bateram palmas? Quantos saíram à rua em defesa do Caetano? Na URSS, quantos bateram anonimamente palmas aos Brejnevs até vésperas de 1991?

        Com essas “contabilidades” e “evidências históricas” provas tudo e o seu contrário. Ou, por outras palavras, como com a verdade (parcial, parcialíssima e escolhida a dedo) nos tentam enganar.

      • fnvv diz:

        É isso, contabilidades. É por isso que ( ainda) escrevo estes textos.
        parabéns.

      • Miguel diz:

        Por vezes não é bem enganar; é antes e sobretudo baralhar. É que é muito desencorajador andar baralhado.

      • caramelo diz:

        Filipe, ainda hoje desfilam livremente em Moscovo, no 1º de Maio, milhares de adeptos do glorioso PCUS, se calhar os mesmos que aplaudiam voluntariamente o Brejnev, como diz o Miguel. Não precisas de te esforçar muito para provar que existe muita gente obediente e agradecida em ditadura e que o ambiente é em geral sereno. É essa calma que faz com que geralmente as ditaduras durem e que faz com que ainda desfilem muitos em romagens de saudade.
        Isso de multidões anónimas a aplaudir ditadores em estádios é banal. Esse de Alvalade até é modesto, cabe num cantinho do estádio municipal de Pequim. Ainda não percebi o que queres provar com isso.

      • fnvv diz:

        Faz parte de um texto de uma série e não pretendo provar nada, pensei o mesmo que a Joana Lopes ( é lê-la).

      • Miguel diz:

        Até se encontram cavaleiros nómadas na Ásia Central nostálgicos pela grande pátria soviética. Li aqui (nunca lá pus os pés):

        http://www.amazon.fr/La-chevauch%C3%A9e-steppes-kilom%C3%A8tres-centrale/dp/2266229729/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1368126884&sr=8-1&keywords=la+chevauchee+des+steppes

      • João. diz:

        “Não gostou do link nem do facto, pois não?
        Azar, não podem ser apagados, o Declínio é do Povo, não é de Moscovo.”

        Não sei ao certo se isto foi para mim. Se o foi, olhe,

        que se lixe o facto e o link. Nenhum deles quer dizer nada para além das posições políticas actuais que possa induzir. O que vale é como o ontem se traduz hoje e cada um que tome a sua posição.

  7. Ana diz:

    Meu deus vai perde o poder dá sinteses. Horor 🙂

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