Da série “O som e a fúria”

Claude Raguet Hirst, Livro aberto com óculos e cachimbo

Aqueles que nos acusam de seguir as estradas do futuro e nos aconselham a habitar os bens presentes, como se tivéssemos menos poder sobre o amanhã do que sobre o ontem, enfrentam o erro mais comum dos homens, se é que ousam chamar erro ao caminho pelo qual a natureza nos leva a continuar a sua obra, imprimindo em nós, como em todos, essa imaginação mentirosa, mais senhora da nossa acção do que da nossa ciência. Nunca estamos em casa, estamos sempre além. [Nous ne sommes jamais chez nous, nous sommes toujours au-delà.] O medo, o desejo, a esperança lançam-nos no porvir e roubam-nos o gozo e o sentido do que é para nos entreter no que será, mesmo quando já não formos.

Michel de Montaigne, Essais, I, cap. III (tradução livre: agradecem-se alternativas à passagem entre parênteses rectos).

PP

12 thoughts on “Da série “O som e a fúria”

  1. Daniel diz:

    Após contextualizar, julgo que o autor se refere, quando diz chez nous, ao nosso interior (também pode ser utilizado nesse sentido). Assim arriscaria:

    “Nunca estamos em nós próprios, estamos sempre para lá.”

  2. ppicoito diz:

    Hummm, não sei: a metáfora da casa, da habitação, da instalação, contida em “chez nous”, é que dá força à frase. Mesmo que a sua tradução esteja mais perto do sentido original. De qualquer modo, obrigado.

  3. caramelo diz:

    Para o que pretende o Montaigne, julgo ser exatamente igual “em nós próprios”, e ”em casa”. Tinha dúvidas sobre a tradução de “chez nous”, no tempo histórico, mas descobri que um inglês, seu contemporãnero, John Florio, resolveu com: “We are never in our selves, but beyond”* da mesma maneira que o Daniel. Literariamente, traduzindo para uma lingua que não tenha o equivalente ao duplo sentido de lugar do “chez nous”, traduziria por “em casa”, confiando que que quem se dispôe a ler Montaigne percebe o sentido.

    *https://scholarsbank.uoregon.edu/xmlui/bitstream/handle/1794/766/montaigne;jsessionid=BAD1508E91855666E98D1448F0598A55?sequence=1

  4. ppicoito diz:

    1-0 para o Daniel, graças aos reforços. Ainda não estou convencido: vamos a prolongamento.

  5. caramelo diz:

    Vamos lá. A tradução dos clássicos, ainda por cima em francês, e então Montaigne, bon dieu, é um dos mais refinados divertimentos a que se pode dedicar um cavalheiro.

  6. manuel.m diz:

    Eu apenas tenho a tradução para o inglês de Charles Cotton, começada em 1685 e que se prolongou durante largos anos, e geralmente tida por aqui como sendo a obra de referencia.
    Nela vem :

    “We are never present with, but always beyond ourselves : fear, desire, hope, still push us on towards the future depriving us, in the meantime, of the sense and consideration of that witch is, to amuse us with the thought of what shall be, even when we shall be no more.”

    Portanto concordo com Caramelo :” -Nunca estamos com nós próprios (vivendo o presente)”

    manuel.m

    PS: Existirá alguma tradução portuguesa no Mercado ?

    • ppicoito diz:

      Que eu saiba, não. Existe uma brasileira da Martins Fontes, que nunca li, mas não conheço nenhuma em Portugal.
      Essa tradução inglesa é muito boa (We are never present with), mas não sei como dizer o mesmo em português. Não gosto muito do “Nunca estamos com nós próprios”, soa-me um bocadinho mal.
      Que tal “Nunca estamos em nós próprios”?
      Aceitam-se alternativas.

      • Daniel diz:

        Aqui diria, não usando a minha ideia original do ‘em nós próprios’, “Nunca estamos lá, estamos sempre para lá”. Caso contrário, a metáfora do “nunca estamos em casa” que o Pedro refiriu encaixaria bem com a tradução do Charles Cotton.

  7. ppicoito diz:

    Não está mal, mas “nunca estamos lá” transmite distância, ao contrário do “chez nous”. Segue jogo.

  8. […] a Montaigne, recordo que pedi aqui a ajuda do respeitável público para traduzir esta pasagem dos Ensaios: “Nous ne sommes […]

  9. António diz:

    Talvez “nunca estamos em casa, estamos sempre para além”, ou “para lá”, como sugere o Daniel. É que estamos a mover-nos, nunca podendo estabilizar no presente, em casa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: