O que nunca escreverei

No caso da adopção  homossexual, os adversários da tendência têm de provar que casais homossexuais  são sempre um ambiente nefasto para uma criança se desenvolver. Assim mesmo, no geral,  porque as leis são gerais. Ora, postas as coisas neste pratos , a tarefa é impossível.
A impossibilidade decorre do principal, e, do meu ponto de vista,  único ,  argumento:  toda  a criança necessita de um pai e de uma mãe. Em Portugal uma pessoa solteira radical pode adoptar, o que, só por si, já parece contrariar o argumento, mas  há mais. Notem:

It is estimated that there are 500,000 children in foster care nationally, and 100,000 need to be adopted.2 But last year there were qualified adoptive parents available for only 20,000 of these children.3 Many of these children have historically been viewed as “unadoptable” because they are not healthy white infants .

Ou seja, dezenas de milhar de crianças ficam sem um pai e uma mãe. Podemos especular por que motivo tantos casais heterossexuais católicos e bem na vida não adoptam estas crianças, mas as coisas são o que são  e já dizia Ratzinger que falta muita Igreja na vida quotidiana. O importante é outra coisa.  Os adversários da adopção gay são obrigados  a dizer isto: é preferível ficar institucionalizado do que ser adoptado por duas mulheres. Dito de outra forma, têm de dizer isto: o superior interesse da criança fica sempre melhor defendido com ela  a crescer numa instituiçao do que com qualquer casal homossexual.
Pode o Estado saber se é melhor ficar institucionalizado do que ser adoptado por duas Marias?  Claro que não. O que o governo pode saber, via  comissões de peritos,  é se cada casal candidato tem,  ou não,   condições para adoptar. E pode vetar casais  gays.
Já escrevi mutas vezes e em muitos lugares ( livros, artigos e blogues) que entendo que a família tradicional é a melhor combinação para uma criança crescer. O que nunca escreverei é que para uma criança, qualquer coisa é preferível a ser criada por duas irmãs mais velhas  ou por uma tia e uma avó ( como já aconteceu tantas vezes). O “superior interesse da criança” é o laço humano, não  a irritação pela militância LGBT.

FNV

31 thoughts on “O que nunca escreverei

  1. henrique pereira dos santos diz:

    Obrigado por me arrumar as ideias.
    henrique pereira dos santos

    • fnvv diz:

      é uma forma de dizer, mas de nada.

    • leomilo diz:

      Para arrumar ideias seria preciso, antes do mais, partir de números fiáveis. Não creio que a notícia seja isenta e, a sê-lo, caberia perguntar se homossexuais não reproduziriam os padrões dos heterossexuais. De qualquer modo, a realidade portuguesa é outra e conheço casais há anos à espera de crianças para adoptar – e sem exigências.

  2. XisPto diz:

    É uma posição pragmática fácil de entender na linha de outras, seringas nas prisões, aborto legal, amanhã a eutanásia, etc. Nesta questão, confesso que o que não entendo é é a focagem de ambos os lados no número de “pais”: 2. Se isso é compreenssivel no modelo “biológico natural” não faz qualquer sentido no restante. Porque raio de razão não é possível um contrato cívil com qualquer configuração, legalmente equiparável a “casamento”?

    • fnvv diz:

      Não sou jamesiano, não sou pragmático nesse sentido. Sou pelo laço humano. Caso a caso. Nada pragmático.

      • XisPto diz:

        Sim, é isso, “pragmático” não é uma expressão feliz, talvez o conceito de “humanidade” aqui se imponha, sim esse, como na “bala de misericórdia”. Noto, contudo, com conhecimento de causa, que é questionável que isso esteja assegurado nos actuais processos administrativo/legais dos processos de adopção (assistentes sociais, psis, magistrados) e é surpreendente a ausência de normativos sobre os direitos da criança nessa fase.

      • fnvv diz:

        Tem razão.
        Já acompanhei, por motivos profissionais, processo de adopção. Guardo más recordações.
        Um caso em particular impressionou-me. Era nossa doente uma mulher depressiva,bipolar like, sem rede familiar de apoio. Permitiram-lhe adoptar duas crianças de uma vez ( gémeos)!!!Bem, engalfinhei-me com a mimha colega da comissão, foi o cabo dos trabalhos. A coisa, claro, correu muito mal.

  3. Daniel diz:

    Na mouche Filipe. Adiciono apenas que a criança tem o direito à familia, a ser amada e a ter uma infância feliz. Também eu acho que não é ficar institucionalizada que terá estes direitos.

  4. floribundus diz:

    nos dias de hoje de criança a adulto
    é bicho com duas pernas
    no socialismo não há dignidade

  5. cristiana fernandes diz:

    “Pode o Estado saber se é melhor ficar institucionalizado do que ser adoptado por duas Marias? ”
    Se calhar até pode. Sempre me questionei porque é que nunca foi feito um estudo a sério sobre os percursos de vida das crianças que “nós (estado)” institucionalizámos e aquelas que sairam das instituiçõespor terem sido adoptadas.
    Já tive à minha frente ( em processos de menores) imensas crianças e jovens institucionalizados e a minha experiência ( com todas as contigências, claro), é, neste aspecto, cruel : todas elas sonham ou sonhavam sair da instituição.

  6. nuno diz:

    Obrigado pela partilha. O argumento do laço humano é avassalador. E belo. A análise casuística destrói qualquer preconceito. Finalmente o famigerado “superior interesse da criança” consubstanciado. Vou usar. Com a devida vénia.

  7. JE diz:

    O FNV deve saber isto melhor do que eu, mas venho notar que uma das coisas que choca nisto é a sexualização do assunto, ligando a adopçâo a um qualquer modelo de sexualidade. Ora tenho a impressão de que se há coisa que uma criança não quer aprender (ou sequer admitir) nos pais, hetero ou não, é precisamente a sexualidade. Eles que providenciem o amor, a segurança, a saúde, a educação. E pára aí, na porta do quarto ed cada um. Por muitas tentativas didáticas que os bem pensantes tenham preparado para as criancinhas, se há coisa que sai precisamente do âmbito da família é essa… penso eu de que. Não acha?

    • fnvv diz:

      Sim, a Maria Teixeira Alves, por exemplo, acha que os casais de pms vão seduzir os adoptados .
      Como sabemos, isso nunca acontece nas biológicas ou com padrastos enteadas.

  8. Algum motivo para referir duas Marias e não dois Josés?

  9. Blue diz:

    Não tenho nada contra nem a favor da adopção de crianças por homossexuais. A única coisa em que penso quando oiço estas “discussões” é: porque será que se dá tanta importância a este assunto e não se “discute” e questiona o porquê dos processos de adopção por casais heterossexuais serem tão demorados e muitas vezes inefeficientes(pelas inúmeras questões que se levantam e pelas inúmeras condições que exigem a esses casais). Fico sempre com a sensação de que o essencial desta questão é a defesa dos homossexuais e não das crianças. Mas claro, é só a mihha opinião que vale o que vale.

  10. caramelo diz:

    A minha combinação ideal de familia: mãe, pai, avós carinhosos, cinco tios, vinte primos, uma cozinheira gorda com mão para os bolos, um tio-avô padre, outro coronel de infantaria, uma casa com sótão, quintal com baloiço, galinhas para a canja, um cão e um papagaio, todos geneticamente programados para saber contar histórias e morrer velhos, longe e saudáveis, como heróis de guerra. Provavelmente, nenhuma criança deveria ser dada para adoção sem que se reúna esta conjugação de amenidades.
    Os casais de homossexuais serão, quando muito, um último recurso desesperado (viste lá em cima o paralelo com a eutanásia? lá está), quando as crianças já estão na sarjeta e o estado não tenha espaço para os recolher. Não deixa de ser um perigo, a exigir vigilância permanente do estado e da boa sociedade, porque, a avaliar pelos comentários que abundam na rede, é sabido que os homossexuais são seres eminentemente sexuais. Não lhes dá uma dor de cabeça, muito menos depressões ou falta de interesse pelo sexo, como os casais normais; só pensam, bom, em foder. Grande parte da direita descobre isto quando se levanta de noite para ver pornografia na net. Uns, os mais moderados, acham que eles se controlam com os filhos, outros acham que eles são um risco. Não se dedicam ao aeromodelismo com os filhos; levam-nos para a cave e iniciam-nos no kama sutra. Como a bruxa para o hansel e a gretel. São seduzidas pelo chocolate e quando menos esperam estão a ser engordadas para serem comidas. É curioso, mas na história original dos Grimm, que aprendi, não na atual, mais adocicada, os miúdos eram abandonados pelos pais, porque não tinham comer para lhes dar.
    Passámos por um processo de adoção, com o nosso filho, e nunca me vou esquecer do olhar das crianças que ficaram na instituição, quando viram um dos seus criar um laço humano, que se dá quando se olha para o outro como se ele fosse só nosso, tão só isso. E olha que a instituição tinha todas as condições, pediatras, psis, educadoras e auxiliares excelentes.
    A propósito, era comum, nos anos 60 e 70, os filhos de emigrantes ficarem no país e serem criados por avós.

    • Sou o seu fã número um, pá.

    • carlos II diz:

      Entregaram-lhe a criança na frente das outras todas? Não acredito, o amigo está a inventar…

      • caramelo diz:

        O amigo não está a inventar, o amigo não inventa estas coisas. Foi um processo gradual, de visitas na instituição, no seu local de recreio, saidas, etc. a única coisa que tem de saber é que as crianças são muito perspicazes, nada estúpidas. Deixe-se disso.

      • Carlos II diz:

        Reli o que escreveu e reconheço que me precipei, pois tinha entendido que falava do olhar das outras crianças no momento em que foi buscar a que adoptou e achei que isso seria umas grande falta de sensibilidade, por parte dos responsáveis de instituição, entenda.
        Aproveito para lhe dar os parabéns pela decisão que tomou e para desejar muitas felicidades para toda a sua família.

  11. […] …vejo-me incapaz de discordar com o Filipe Nunes Vicente: […]

  12. leomilo diz:

    “os adversários da tendência têm de provar que casais homossexuais são sempre um ambiente nefasto para uma criança se desenvolver”
    Por uma questão de metodologia democrática: quem propõe uma alteração é que tem de demonstrar a sua bondade. O ónus é deles.
    Isto numa democracia. Em Portugal, nem vale muito a pena lembrar estas coisas óbvias. A ausência de valores e a anomia são totais – e nunca se pensou muito.

  13. Luísa Correia diz:

    Concordo inteiramente, Filipe. A análise nunca pode deixar de ser casuística. Acrescentaria apenas, como motivo de imediato indeferimento da adopção, a sua mediatização em proveito de causa que não fosse do interesse EXCLUSIVO da criança adoptada.

    • fnvv diz:

      Luísa, Nn início desta longa lista de comentários narro um episódio em que a comissão não defendeu esses interesses. Caso a caso, claro.

  14. […] comecemos a polémica por qualquer coisa em que estamos de acordo. Também acredito que “a família tradicional é a melhor combinação para uma criança crescer”. Poderísmos perguntar porquê, um ponto central na questão, mas prossigamos direitinhos para a […]

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