O crepúsculo da imprensa.

Uma análise rudimentar confirma que a imprensa escrita paga enfrenta há anos um purgatório competitivo. Escrevo “purgatório” em vez de “inferno” porque a rivalidade entre as empresas do sector, por efeito da sua concentração, não parece muito elevada (para uma avaliação mais objectiva podem usar esta ferramenta, em vez do achómetro). A fidelidade dos leitores também evita uma guerra de preços em banca, mas as margens são afectadas pelo decréscimo das tiragens e pelos descontos aos anunciantes.

Do lado mau, para os jornais existentes, temos ainda a concentração das distribuidoras e o declínio de algumas barreiras à entrada de novos títulos (tecnologias de impressão, pressão salarial, compra de conteúdos a agências noticiosas e cadeias internacionais, etc.), mas é difícil entender a importância relativa destes elementos sem um bom conhecimento do terreno.

A verdadeira tragédia, como todos sabem, reside noutro factor: as ameaças da substituição.

A TV por cabo, a internet e os jornais gratuitos permitem aos leitores alimentar a crença de que se encontram informados sem gastarem um tostão. Essa crença é multiplicada pelas estratégias da imprensa generalista, que reduziu os custos sem aumentar os benefícios oferecidos aos leitores. Ou seja, actuou-se apenas numa parte da cadeia de valor, e aprofundou-se assim a fungibilidade da informação: sem reportagens, sem opinião especializada, sem enquadramento dos grandes temas, sem verdadeira diferenciação, os jornais concentram-se nos furos da pequena política ou nas notícias a que teríamos acesso mesmo que não existissem jornais.

Isto torna a imprensa vulnerável e enfraquece a opinião pública. O “quarto poder” é hoje, em Portugal mas não só, a sombra de outros poderes. O poder dos grandes anunciantes inibe as redacções de investigarem práticas que lesam os interesses dos consumidores, o poder dos partidos políticos (através das “agências de comunicação”) distribui manchetes a jornalistas bem comportados, e a escassez crescente de recursos dificulta o investimento em modelos de negócio alternativos que os leitores estejam dispostos a pagar.

Neste clima de descrédito absoluto já não nos supreende que dez jornalistas do Diário de Notícias tenham sido recrutados para cargos de nomeação do Governo, nem nos revolta saber que uma “grande repórter” do Diário Económico invectiva em prosa indigente “os ignóbeis socialistas e bloquistas” que querem “dar crianças aos homossexuais”.

Para esta gente vale tudo, pelo motivo simples de que nada tem ainda algum valor. Sob o manto das proclamações ideológicas ocultam-se as pequenas estratégias de uma ruína anunciada em que se salva quem puder.

Luis M. Jorge

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25 thoughts on “O crepúsculo da imprensa.

  1. Luis naves diz:

    A sua afirmação de que dez jornalistas do diário de notícias trabalham actualmente para o governo e falsa, mas nao deixe que a verdade atrapalhe o seu generoso post…

  2. Foi? Atrapalha? Nesse caso vou retirar a palavra “actualmente” e alterar o tempo verbal, porque, caramba, não quero que por causa de duas palavras andem por aí a denegrir um post que me deu tanto trabalho e que contém, modéstia à parte, alguma dose de reflexão sobre a verdadeira natureza da pressão mediática actual.

  3. Luis naves diz:

    Nao se incomodem, uma afirmação falsa numa reflexão sobre a crise da comunicação social nao e muito mais do que um tempo verbal mal colocado…

    • Tem toda a razão: afirmar que dez jornalistas do DN trabalham para este governo é muito mais grave do que escrever que dez jornalistas foram recrutados por este governo. Sinto-me desolado com tanta injustiça.

      • Não deixo também de notar que o dito recrutamento de dez jornalistas do DN, nesse passado tão remoto, não lhe sugere grandes comentários. É um assunto menor, que devemos encarar com equanimidade e bom senso, certo?

      • fnvv diz:

        A questão é outra e o Luís Naves sabe-la muito bem. Não é o recrutamento dos jornalistas, é a razão. Ou seja, foram contratados por serem bons jornalistas ou porque faziam tempo de antena para o futiro patrão nos jornais onde trabalhavam ( ou ambas)?
        Depois a realidade é tramada: do DN, dez.

  4. Luis naves diz:

    Todos os governos recrutam jornalistas. Sempre aconteceu, pois há assessorias de imprensa. Estas pessoas nao cometem nenhum crime nem isso tem a ver com a crise dos jornais, que e alimentada por posts como este, que insinua existir um problema com a credibilidade destas pessoas e do jornal onde trabalharam. Claro que o governo e de direita, isso talvez explique as criticas. Podia acrescentar alguma coisa sobre o meu caso e explicar porque razão a insinuação me parece ofensiva, mas nao o vou fazer. A vida e as escolhas são exclusivamente minhas. Chama-se liberdade individual e ninguem a deve questionar.

    • Não insinuei nada, expliquei no post como as coisas funcionavam. De resto, o Filipe já lhe respondeu.

      • Luis naves diz:

        Nao há resposta nenhuma. Só evasivas e insinuações. Tendo eu sido jornalista do internacional, aponte-me um texto meu que caiba na sua teoria. Este post visa o dn e pretende explicar um fenómeno complexo de crise na imprensa usando um exemplo absurdo. O crime, aqui, foi trabalhar para um governo que os autores detestam. Se eu estivesse a escrever textos sobre política no dn, isso sim, pior do que um crime, seria uma falta. Mas a realidade e tramada. Limito-me a escrever onde posso e segundo as minhas possibilidades.

      • É capaz de me indicar que “evasivas e insinuações” são essas? Quanto ao historial do DN, talvez entre hoje e amanhã tenha tempo para encontrar alguns links interessantes .

      • fnvv diz:

        Ópera a esta hora? Os jornalistas hoje são multimedia, ou é necessário fazer links e refrescar memórias?

  5. Luis naves diz:

    Desisto. Publiquem os mitos que quiserem. Este tipo de discussão e inútil e fiz mal em tentar repor a verdade

  6. João. diz:

    Eu apenas pergunto aos proponentes da tese de que temos uma imprensa de esquerda, quais são as boas-novas pertinentes ao governo actual que a comunicação social não está a evidenciar? Que notícias da excelência da governação, que dados da eficácia do governo para a regeneração do país, estão a ser negligenciadas pela comunicação social?

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