O que lá vou ter de escrever

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De vez em quando, mantenho uma polémica com o Filipe, ou o Luís acusa-o de ser de direita. É verdade que ele tem mais sucesso com as miúdas e percebe mais de bola, evidentes sinais de marialvismo, mas eu é que sou o conservador da junta. E ele escreve melhor. Nada de enganos, portanto, que ainda apanham o Lorca e o Kavafys esta semana.
Posto isto, comecemos a polémica por uma evidência em que estamos de acordo. Também acredito que “a família tradicional é a melhor combinação para uma criança crescer”. Poderíamos perguntar porquê, um ponto central da questão, mas sigamos direitinhos para a curiosa conclusão: a adopção gay, sendo um mal menor, ajudaria a resolver o problema das muitas crianças institucionalizadas que ninguém quer.
Vamos por partes.
Primeiro, não vejo por que razão os casais homossexuais teriam qualquer preferência por adoptar essas crianças. Serão assim tão diferentes dos casais heterossexuais, católicos e bem na vida, que se furtam vilmente, ao que parece, à responsabilidade decretada pelo Filipe com a preciosa ajuda de Ratzinger?
Segundo, o número de casais homossexuais que decidirão adoptar, com esta lei ou com a adopção plena, será insignificante. Basta lembrar o número de casamentos homossexuais em Portugal: 266 em 2010 e 324 em 2011 (não encontrei dados para 2012). Esperar que o problema se resolva alargando a adopção aos casais gays, e esperar que todos ou grande parte deles tenham essa vontade, é  esperar muito. Talvez demasiado.

Terceiro,  o argumento de que há tantas crianças para adoptar que até os gays servem (a família tradicional é a melhor combinação, etc.)  pode ser acusado de homofobia. Qualquer dia, o Filipe tem à perna a famosa “militância LGBT”, como o psicólogo que escreveu no Público contra a coadopção e já tem uma queixa na respectiva Ordem. A propósito, podem ler aqui a prova do crime, com bibliografia e tudo.

Por fim, e voltando ao princípio, o que está em causa não são os problemas das crianças. O que está em causa, para quem levou o tema ao Parlamento e para quem o debate cá fora, são os “direitos” dos homossexuais.  O casamento e a adopção são batalhas de uma guerra cultural pelo reconhecimento público da homossexualidade. Não oponho a essa causa a “família tradicional”, como sugere o Filipe, porque ignoro o que seja a “família tradicional”. A familia tradicional do século XX não é a do século XIX, que não é a do Antigo Regime, e por aí fora. Para ficarmos pelo Ocidente, claro, pois sou um cínico eurocêntrico e racista.

Sei, porém, que a “família tradicional” (a melhor para educar uma criança, recordo) nunca foi uma combinação de homossexuais – mesmo em sociedades, como a Grécia ou a Roma antigas, onde a homossexualidade tinha um reconhecimento mais tarde negado pela “família cristã”. E também sei que a “família tradicional” é um equilíbrio frágil, delicado e aberto a todos os ventos exteriores. Um equlíbrio sempre ameaçado, mais uma vez por especial culpa dos católicos, que se dividem em três hordas: os que batem nas mulheres, os que exploram as mulheres e os que para sua vergonha não vão de porta em porta anunciar o apocalipse.

Peço, no entanto, a vossa indulgência para os últimos. É que lhes prometeram a salvação do mundo com a agenda LGBT, e esta mania de salvar o mundo tem raízes profundas. “Acabemos com a homofobia e o mundo será perfeito”, dizem-nos hoje os que nos diziam ontem “acabemos com a burguesia  e o mundo será perfeito”. Mudaram pouco, os progesssistas. É por isso que sou conservador: prefiro mudar um pouco mais. Concordo que “uma posição conservadora com nexo liberal impõe que se examine as modificações culturais, resguardando as pessoas de visões salvíficas (do passado ou do futuro).” Tenho só o mau hábito de declinar utopias que me sejam metidas pelos olhos dentro –  pelas vanguardas do proletariado ou pelo lobby gay.

PP

14 thoughts on “O que lá vou ter de escrever

  1. António diz:

    Sempre em grande Pedro… 🙂

  2. fnvv diz:

    Pedro, deixa-me afixar só um aviso : o leitor carregue mesmo no link que o Pedro faz do segundo post meu . Verá que não culpo ninguém em especial. Refiro o poder da missa porque somos um país maioritariamente católico, segundo sei, e assim seria um excelente serviço à causa da família.

    • fnvv diz:

      Agora nós:
      Boa réplica, como de costume, avisada e informada ( ao contrário do pateta que não sabia da existência do conservadorismo liberal) , mas com um ou outro ponto que fica para depois .
      Queixas na Ordem por homofobia? Bem, é o meu rio, levar ( e dar) de (a) todos os lados, jogo sempre a trinco, conservando o equlíbrio da equipa nas transições.

  3. caramelo diz:

    O argumento de que os casais gays não resolvem o problema das crianças institucionalizadas, por serem poucos, é curioso, porque o mesmo poderia ser dito, até com mais razão, da população hetereossexual de Figueiró dos Vinhos ou de Alcabideche, ou… É até um bom argumento desmoralizador a apresentar a um casal que se apresente como candidato à adoção: Vocês são dois, temos x crianças institucionalizadas, pensam que resolvem alguma coisa? E não me lembro de alguém ter dito que o casamento gay e a coadopção salvariam o mundo ou tornariam o mundo perfeito. Que eu tenha notado, apenas se pretende que a vida fique um bocadinho mais perfeita para os envolvidos, sem abalar o resto da ordem estabelecida, com a consequenciazinha de que o próprio mundo se torne um mícron mais decentinho, se faz favor, coisinha de nada. As famílias tradicionais (agora em fase de angústia existencial) podem continuar a casar, a ter filhos, a conviver, andar pelas ruas, com os órgãos e funções digestivas e circulatórias a funcionar como sempre, etc. Nem sequer correm o risco de casais gays militantes lhes baterem à porta à hora de jantar para entregarem um folheto e anunciar a boa nova de um mundo novo. A essa hora, estão a jantar em restaurantes chiques ou a redecorar a casa. O máximo que acontece é aparecer algum chato na televisão, mas aí muda-se para o big brother e resolve-se o assunto.
    Como é que uma coisa que afinal é tão simples, se torna tão complicada? Aí está. É por isto que os visitantes, desde tempos imemoriais, vão dizer para as suas terras que somos um povo patusco.

    • ppicoito diz:

      Nós, os franceses, os zulus, etc. Mas acertou na mouche: o que se pretende é que a vida fique um bocadinho mais perfeita para os envolvidos. Quanto às crianças, logo se verá. E a população heterossexual de Figueiró dos Vinhos está tranquila, claro, porque não tem restaurantes chiques.

      • caramelo diz:

        Os “envolvidos” incluem as crianças. Coadopção, ou adopção. De crianças. Talvez perceba melhor se ler a crónica do João Miguel Tavares, no Público, eu não me consigo explicar melhor e tenho tentado.

  4. andpinto diz:

    Alguns dos argumentos aqui apresentados, foram expostos a fnvv, ainda que num estilo menos cuidado, em post anterior. E o senhor atirou-se ao ar; ainda estou limpando perdigotos do meu monitor. Tais como:

    1) Insinuar à Igreja que a violência doméstica, o mau trato infantil e outras sevícias, catalogadas por fnvv, são pasto frequente da “família tradicional”, só pode levar à resposta de que nada indica que não o sejam na mesma proporção nas famílias gay, ou lá o que é.

    2) De 1) sobressai o preconceito cultivado pelo lobby gay de que a homossexualidade corresponde a superior casta em piedade e humanidade. Tal como certa variante se dedica a convencer o mundo da existência de uma supremacia gay nos grandes feitos artísticos da história universal.

    Nesta história as criancinhas foram instrumentalizadas – é o óbvio ululante.

    • ppicoito diz:

      Aqui grita-se muito, mas não há perdigotos. Somos como uma família (hetero, porque nos casais gays não se grita).

      • fnvv diz:

        Bem, chegaram as claques ( que atiçaste, com essa história de eu acusar não sei quem), com a sua lendária inteligência, por isso retiro-me que tenho uma coisa ao lume.

  5. Hugo Rocha diz:

    Isto parece a anedota do Woody Allen:
    Um casal num restaurante:
    — A comida aqui é horrível, não é?
    — Sim, e as doses são tão pequenas…

    Portanto, é mau que os casais homossexuais possam adoptar, e ainda por cima são tão poucos…

  6. ppicoito diz:

    Caramelo, as crianças também são envolvidas, mas como um meio para atingir um fim. O activismo gay saudou esta decisão como uma vitória porque é exactamente isso: uma vitória para os gays. O resto são abstracções, exactamente ao contrário do que nos dizem. Por exemplo, quantas crianças reais serão beneficiadas com a nova lei? Conhece alguma? Eu não. Mas o que é isso interessa, se foi um dia histórico para os direitos humanos em Portugal, etc.?

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