Et maintenant pour quelque chose de complètement différent

essais_montaigne_9782011694812_72Voltando a Montaigne, recordo que pedi aqui a ajuda do respeitável público para traduzir esta pasagem dos Ensaios: “Nous ne sommes jamais chez nous, nous sommes toujours au delà“. Na caixa de comentários, há propostas do Daniel, do Caramelo, do Manuel M. e do João. O maior problema, quanto a mim, é aquele “chez nous“, que significa ao mesmo tempo “em casa”, “em paz”, “no presente” e “na presença de nós próprios”. Avanço uma nova hipótese minimalista: “Nunca estamos em nós, estamos sempre além”.

É uma frase de sabor pessoano, sugerida por um dos “Passos da cruz” do Pessoa ortónimo, o XIII, que reza assim: “Emissário de um rei desconhecido/ Eu cumpro informes instruções de além (…) Inconscientemente me divido/ Entre mim e a missão que o meu ser tem”, etc.  Parece-me uma suspensão semelhante entre o “além” que atrai o sujeito, o exterior em que se projecta, a “missão” que o impele quase contra vontade, e o seu interior, a consciência de si e do que o rodeia, o espírito reflexivo a que é arrancado pela imaginação do futuro. De resto, Pessoa aponta muitos caminhos a uma tradução de Montaigne em português (de Portugal) que, tanto quanto sei, ainda não existe. Fica a deixa.

Ah, e mais uma vez conto com o estimável público para melhorar, aperfeiçoar ou pagar em almoços no Gambrinus a hipótese sugerida. Merci.

PP

26 thoughts on “Et maintenant pour quelque chose de complètement différent

  1. caramelo diz:

    Correndo o risco de me contrariar, que já não me recordo do que disse, mas a bem do saudável engalfinhamento, é muito duvidoso que se possa traduzir Montaigne com o português e a cabeça do Pessoa. Há algum filólogo na assistência que possa vir aqui em socorro? Essa tradução do Pedro parece-me excessivamente modernista.

  2. Ana Cristina Leonardo diz:

    Não estar em nós, pode conduzir ao sentido de “perder as estribeiras, “não estava em mim quando chamei palhaço ao Cavaco Silva”, por exemplo. Alternativa “Nunca estamos connosco, estamos sempre para além de nós”. Mas o contexto, às vezes, é tudo. Não precisa de agradecer. 🙂

    • ppicoito diz:

      Soa bem, sim senhor (embora aquele “connosco” estrague um pouco o conjunto: detesto consoantes dobradas). E é mais fiel ao original e menos modernista que a minha hipótese.

  3. ppicoito diz:

    Não estou assim tão certo. Montaigne tem realmente uma cabeça moderna, e isto não é apenas um lugar-comum. Mas admito que a tradução esteja longe de fazer justiça ao seu francês clássico, elegante e denso. Suponho, portanto, que os almoços no Gambrinus estejam fora de questão…

  4. mdsol diz:

    Vinha sugerir o connosco. “Nunca estamos connosco”.

    • ppicoito diz:

      Adensa-se a fatal corrente favorável ao “connosco”. Talvez eu tenha mesmo que engolir as consoantes dobradas, arghhh…

  5. miguel serras pereira diz:

    Caro Pedro,

    a sugestão da Ana, bem de seu timbre, parece-me certeira. Uma alternativa seria, talvez: “Nunca estamos connosco em nós, estamos sempre além”. O “connosco”, ou o “em nós”, um sem o outro, reduzem a um só termo os dois de “chez nous”, e creio que dispensam a especificação do “além” (que, vamos lá, poderia ser igualmente dado por “para além”, não fora o travo de anacronismo deste última forma).

    Abraço

    miguel

  6. miguel serras pereira diz:

    …ou, apesar de tudo: “…, é sempre além que estamos”

    msp

  7. jcd diz:

    Já agora, e se me permite, sugeria que se fizesse a concordância no título do post. Uma vez que “quelque chose” é feminino, o adjectivo também deveria estar no feminino: “différente”, não?
    Para mim “connosco” é também a melhor opção. Ainda não percebi porque é que hoje se evita tanto o connosco e convosco e se dizem coisas como “com vocês”.
    Joana

    • ppicoito diz:

      Tem razão, faltava ali um “de” que altera relação entre as duas palavras, sem exigir concordância (“qualquer coisa de diferente”).

      • fnvv diz:

        “Pessoa aponta muitos caminhos a uma tradução de Montaigne em português (de Portugal) que, tanto quanto sei, ainda não existe. Fica a deixa”.
        Percebi bem? é que o “meu” Montaigne por acaso é em português nacional, Relógiod’Àgua 1998, trad Rui Romão , mas parcial e sobretudo do livro III
        ou estarás a falar de um texto em particular?

  8. manuel.m diz:

    Nunca tinha pensado nos Ensaios em termos de tradução para português até que PP pediu colaboração para aquela particular passagem. Fiz o que pude tendo como referencia a minha tradução para inglês de Charles Cotton, o que repentinamente me fez sentir que não bastava para esclarecer as muitas dúvidas sobre se estaria a interpreter correctamente o texto. Mas o desafio era aliciante e, muito embora julgasse que provavelmente PP não voltaria ao assunto, tratei de comprar a tradução de 2004 de M.A. Screech que tem a vantagem de estar escrita em inglês comtemporaneo sem porém sacrificar o inimitavel estilo de Montaigne.(além de estar anotada).
    Sigo uma via tortuosa dirão, do françês para inglês e deste para o português, mas senti-me absolvido pelo atrevimento quando no prefácio Jean-Robert Armogathe escreve :
    “…For this reason the French reader will turn to the translation of MA Screech, who takes place among those who, crossing cultural boundaries, enable each country to rediscover its writers in a new light…”
    Eis então a versão deste tradutor :

    “… We are never at ‘home’ : we are always outside ourselves. Fear, desire, hope impels us towards the future; they rob us of feelings and concern for what now is, in order to spend time over what will be – even when ourselves shall be no more…”

    Cordiais saudações a todos os companheiros de viagem
    manuel.m

    Ps: Um dia gostaria de falar do livro de Sarah Bakewell : How to live – Or a life of Montaigne in one question and twenty attempts at an answer.
    Indispensavel para os convertidos e para os curiosos,mas para estes últimos fica o aviso :
    Montaigne é altamente viciante.
    (existe tradução em espanhol)

  9. ppicoito diz:

    Filipe, desconhecia essa tradução (e talvez haja outras mais antigas). Já agora, como é que fica a passagem em questão, se foi traduzida?

    • fnvv diz:

      Não está lá esse. Tem do I, do II e do III, avulsos.Lembrei-me quando li o teu primeiro post, mas já não lhe pego há anos e até julguei ter uma edição francesa.
      Há uma tradução do Agostinho da Silva, 1933, julgo.

      • miguel serras pereira diz:

        Sim, Filipe, também seida existência dessa tradução de Agostinho da Silva. Mas creio que é apenas de uma “amostra” dos Ensaios.

        Abraço

        msp

      • fnvv diz:

        Exacto, Miguel, como a do Rui Romão ( com pinturas/gravuras de Pedro Calapez) que eu tenho.
        abraço

  10. ppicoito diz:

    Não conhecia nem uma nem outra, estou a a prender convosco. Eu sabia que havia alguma boa razão para ter um blog. Falta a edição integral, portanto.

  11. Ia comentar quando vi o post, mas como vi que já havia quem ajudasse, não disse nada. Vi novo repto, por isso cá vai a posta. Não sei como traduziria exactamente, mas seguem umas contribuições.

    A preposição ‘chez’ pode indicar muitas coisas. A mais habitual é de facto a habitação (chez moi é geralmente entendido como a minha casa). No entanto, outro significado pode ser ‘dans’. Nesta acepção, o ‘chez’ é usado, por exemplo, em ‘on trouve ceci chez Voltaire’ (exemplo do meu Robert; fui confirmar o que achava, não fosse dizer palermices). Chez nous, portanto, pode (e neste caso, parece-me) ser entendido como ‘em nós mesmos’, ou ‘dentro de nós mesmos’.

    Já a expressão ‘au-delà’ é particularmente interessante (e é por isso que achei a passagem tão maravilhosa – e intradutível – quando a vi aqui pela primeira vez). É que au-delà transmite a ideia de para lá de uma linha, de um limite. E por isso a expressão ganha uma dimensão tão espiritual quanto material. Porque o que ele nos diz é que nós numa estamos em nós, mas sempre além de nós mesmos, mas de uma forma quase gráfica, como se nós estivéssemos apenas para fora do exacto limite do nosso corpo, da nossa pele. Um paradoxo estranho: como se a nossa realidade começasse onde nós acabamos.

    A tradução inglesa que vi por aí pareceu-me pobre. A minha sugestão seria, talvez, muito a medo: ‘Nunca estamos em nós, mas sempre além de nós mesmos’. É afrancesada, mas às vezes faz bem.

    Aproveito para dizer que não gosto especialmente da versão ‘nunca estamos connosco’. Parece-me até acertar um pedacinho ao lado.

    Um abraço

    • miguel serras pereira diz:

      Caro Tiago Moreira Ramalho,
      é verdade que, em certo sentido, todas as línguas são intraduzíveis. Aqui, por exemplo, a intraduzibilidade mais imediata e profunda talvez não esteja/seja (n)o “au-delà” ou (n)o “chez”, mas no verbo “être”, que significa, ao mesmo tempo, “ser” e “estar”, bem como, por isso mesmo, qualquer coisa entre “ser” e “estar”,e uma conjunção/confusão de ambos. Seria fácil continuar e mostrar que, embora “ser” em português possa significar “existir”, não o faz da mesma maneira que “être” pode significar “exister” em francês. Daí, por exemplo, que o “cogito, ergo sum” dê classicamente lugar em português ao “penso, logo existo”, e, em francês, ao “je pense, donc je suis”. Et ainsi de suite.
      Mas a tradução, impossível embora, é interna a cada língua. Só compreendemos uma coisa ou palavra traduzindo-a noutras. E é também a incompletude, a interminabilidade, desta tradução que faz a diferença de cada coisa ou palavra que dizemos. E entre duas línguas, a partir do momento em que se encontram e alguma coisa passa e se transforma entre elas e no mundo, a tradução impossível torna-se efectiva, e o seu acontecimento transforma cada uma delas, obriga cada uma delas a retraduzir-se internamente. Daí que o desafio do Pedro valha a pena e se mantenha. QED.

      Cordialmente

      msp

      • Nada como uma troca com um tradutor. Começo por publicar a minha vergonha pelo golpe do ‘intradutível’, no meu primeiro comentário. Continuo concordando consigo, como se diz, em toda a linha. Não tinha pensado nos problemas gerados pelo être, mas um mergulho um pouco mais fundo cria aí, de facto, um novo obstáculo. Tira-se disto que uma tradução simples, de troca de frase por frase não ajudará especialmente. É preciso meter a gente, com notinha de rodapé, ou não, a pensar ‘em francês’, que o pobre do Montaigne não escreveu para portugueses.

        Um abraço,

        TMR

    • ppicoito diz:

      Um abraço, Tiago. Bom contributo. Isto ainda mexe e voltarei à carga.

    • miguel serras pereira diz:

      Caro Tiago,

      obrigado pela sua resposta. Quanto à maneira de traduzir o excerto de Montaigne proposto pelo Pedro, talvez resulte começarmos por “sobretraduzi-lo” explicitamente, analisar por outras palavras o que quer ele dizer. Depois, através da condensação das sobretraduções obtidas, recomeçar. E resistir à hubris da tradução absoluta, conclusa – nomeadamente tendo presente que, também no francês do original, dizer por outras palavras o que dizem as palavras que Montaigne escreveu é uma tarefa tão interminável como inevitável.
      Enfim, talvez daqui a uns tempos possamos voltar ao assunto.

      Abraço

      msp

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