Da série “O som e a fúria”

Sem tempo para mais, chamo a atenção para a entrevista que António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, deu no Domingo à revista do Público. Simplesmente notável. Aqui ficam alguns excertos a que espero voltar.

Nos últimos 30 anos, houve uma democratização, uma expansão do ensino. Mas como se percebe hoje por muitos discursos de pessoas das áreas governamentais, e não só, que dizem que há diplomados a mais, ao fim de 30 anos já estamos cansados. Os outros países andam a fazer este esforço há 300 anos. Na área da escola e da ciência, o valor mais importante é o da continuidade. Em 1995, António Guterres disse que queria que a educação tivesse 6% do PIB. Na altura havia um consenso na sociedade portuguesa de que o nível de investimento na educação era muito inferior ao dos outros países. À direita ou à esquerda ninguém criticou este aumento do PIB. Nos cinco anos seguintes o PIB foi aumentado  para quase 6% [sic]. Mas a partir do ano 2000 começa a ver-se tudo o que são opinion makers no país a dizer “estamos a gastar de mais em educação”, “o país não aguenta tanta despesa em educação”. Bastaram quatro ou cinco anos a fazer um investimento próximo da média europeia para que o país ficasse cansado.

(…)

A universidade faz mal o seu trabalho quando estreita os estudos universitários num sentido excessivamente profissionalizante. Isso retira instrumentos às pessoas. O que dá a maleabilidade de mudar de vida, de emprego, de fazer diversas coisas, é a capacidade de pensar, de conhecer, de obter informação. Se a pessoa não tiver isso, até pode ter emprego durante uns anos, mas à mínima mudança fica sem os instrumentos para uma renovação da sua vida profissional. Parece um paradoxo, mas quanto mais insistimos em visões estreitas menos empregabilidade estamos a dar. Isto é claríssimo quando se fala com grandes empresários, que não têm dúvidas nenhumas de que querem pessoas que saibam pensar, que tenham boa formação, que sejam articuladas, com criatividade. O gesto profissional concreto, isso a universidade não sabe fazer, tem que ser feito nas empresas.

(…)

A questão que temos pela frente é saber se queremos elevar a estrutura produtiva ao nível dos diplomados que já vamos tendo ou se, ao contrário, queremos baixar a nossa aposta no conhecimento e pô-la outra vez no rés-do-chão da vida onde está a estrutura produtiva portuguesa. Essa décalage existe e explica muito dos problemas do desemprego jovem, mas temos de saber o que queremos. Estamos ainda muito longe da média europeia em número de diplomados. A estratégia da Europa 20/20 aponta para um mínimo de 40% de diplomados entre os 30 e os 40 anos, há muitos países europeus que já ultrapassaram essa meta e Portugal tem cerca de 25%.

PP

13 thoughts on “Da série “O som e a fúria”

  1. João. diz:

    Esqueça isso durante a vigência da mentalidade que suporta este governo. Bastaria ter prestado atenção à conversa do que veio a ser ministro da educação para ser evidente estarmos em face de um idiota – pouco importando se tem formação superior ou não. Quem diz que uma determinada área de estudos é muito palavrosa…

  2. caramelo diz:

    O Vasco Pulido Valente dá-lhe o arroz. Grunfgronf democratização do ensino hehehecofcofargh Guterres gronfhehe investimento na educação? frunf. Estãs a ouvir isto, ó passos manuel, a culpa é tua rrgrgh… zzzzzz

  3. XisPto diz:

    “Mas a partir do ano 2000 começa a ver-se tudo o que são opinion makers no país a dizer “estamos a gastar de mais em educação”, “o país não aguenta tanta despesa em educação”.”
    .
    Parece que os opinion makers tinham razão, uma vez que a república faliu e é ela que financia quase a 100% o sistema de ensino. Já sei a réplica, no ensino o investimento foi correto, ao lado é que não. Mas ao lado, todos dirão o mesmo… Esta passagem padece, portanto, de um maniqueísmo utilitário. Já não se ensina Santo Agostinho em Filosofia?

    • ppicoito diz:

      Quem é Santo Agostinho? O que é filosofia?

      • caramelo diz:

        Eu ensino isso no meu jardim, aos sábados à tarde. Cada um traz o seu banquinho ou a sua mantinha, se faz favor.

      • João. diz:

        Santo Agostinho? Definitivamente é muito palavroso. Nem um gráfico se encontra nos milhares de páginas que escreveu.

      • XisPto diz:

        As Grande Questões numa caixa de comentários, menos do que o rés-do-chão da vida, impossível.

      • XisPto diz:

        João: não aparece um comentário que lhe tinha feito lá em cima, mas resumo a ideia: “palavroso” é uma das característica negativas da nossa maneira de ser que deveríamos combater ao mesmo tempo que ensinamos inglês às nossas crianças. Só posso apreciar, portanto, o seu alvo…

      • João. diz:

        XisPto,

        pode-se querer combater o palavroso o que se quiser mas isso não demonstra que a alternativa levada a cabo – nomeadamente a de Crato – seja remotamente desejável ou preferível. Portanto, palavroso é o que poderia ser dito por menos palavras sendo que fica por saber sobre o que realmente está a ser dito. Eu, pessoalmente, prefiro uma grande ideia embrulhada num corpo palavroso do que uma vulgaridade em poucas palavras. Enfim, criticar um campo de estudos por ser palavroso é uma idiotice. Especialmente se houver motivos de crítica quando aos conceitos – já que é aqui que uma crítica é ao mesmo tempo um outro conceito e portanto um processo de pensamento com estudo e cuidado.

      • caramelo diz:

        Atenção que se pode ser palavroso dizendo uma ou três palavras, ai é que está. O Crato, por exemplo, é um dos maiores tagarelas do pais, cada vogal dele vale bem dez tomos da obra completa do filósofo de Berna Runfelpinkling, e tem metade do interesse. Mal abre a boca, esgota logo três tomos. Eduquês, pumbas, todos os fiósofos amadores do cantão de Berna. Lembro-me de ele um dia ter feito um enorme discurso de 24 horas, sem parar para beber água, contra os computadores nas escolas, fazendo lembrar outro tagarela, o Barrreto, que um dia fez trezentas e cinquenta crónicas (uma) a dizer que nunca iria usar um telemóvel. Todas as noites adormece a parafrasear o Santo Agostinho: Ó Deus, faz-me interessante, mas não já. Pronto, o homem está ministro, pelo menos que ponha os putos todos a saber apertar parafusos, que isto está a desmoronar.

  4. ppicoito diz:

    o comentário não aparece porque era insultuoso para os outros comentadores. Isto não é Jugular.

    • XisPto diz:

      Insultuoso? Não cultivo, não tinha intenção, não creio que o destinatário assim o julgasse, tenho dificuldade em imaginar como assim pode ser considerado, mas acato, são as regras anteriormente publicitadas, com que concordo sem reservas.

  5. floribundus diz:

    isto parece conversa ‘da meia-porta’ ou ‘casa de tias’.
    o gajo quer vender cursos de ‘papel e lápis’ que não servem para nada.

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