Como prometido, o axioma do não quero saber quem está ao meu lado na trincheira, repetido por JPP na Quadratura.
Quando Orwell se alista no POUM, em 1937 ( partido que é depois perseguido pelos comunistas espanhóis às ordens do Komintern), descreve bem o que é uma aliança de inimigos: sempre destinada a terminar com um dos aliados a devorar o outro. O axioma parace encantador na sua mobilização, mas é, na essência, uma manipulação grosseira da luta orientada por princípios. Quando recebeu o Prémio Nobel, em Estocolomo, em 1957, Camus foi interpelado por um jovem argelino sobre o seu silêncio acerca das negociações com a FLN. Camus estava sob o fogo dos comunistas francesse, liderados por Sartre, porque não escolheu um lado, uma barricade, uma trincheira. Camus respondeu ao jovem: entre a justiça e a minha mãe, escolho a minha mãe. Tinha este governo menos de seis meses e já nos mandavam escolher a trincheira .
Pois eu não entro em qualquer trincheira com qualquer um, sobretudo com os que estão mais interessados no seu umbigo do que no combate pela justiça.
( na foto: Jean Baptiste Milliére, que recusou a trincheira e foi fuzilado, morrendo gritando “vive le Peuple!” )
FNV
Caro Filipe, curioso como tudo se concerta segundo o catecismo da Santa Madre Igreja: pecados, virtudes, propósitos, apegos, renúncias interpelam o nosso carácter e rasgam o nosso quotidiano em tempos de dor fininha como agora.
Votos de excelente fim-de-semana prolongado (se for caso disso).
igualmente, Fernando ( com chuva)
Não escolher a “trincheira” é uma comodidade acessível a poucos.
Por acaso, a evocação do Orwell até viria bastante a propósito mas sob outro ângulo: quando, na “Homenagem à Catalunha”, justifica o porquê do seu envolvimento na Guerra Civil de Espanha, explica que o fez por “common decency”. Curiosamente, o mesmo argumento do JPP http://lishbuna.blogspot.pt/2013/05/blog-post_31.html .
Na minha opinião, “as alianças entre inimigos acabam com eles a devorarem-se” não “viria”, vem bem a propósito.
O lugar que nos dá maior segurança e estabilidade, aquele onde podemos ser só nós, é mesmo ao lado da mãe. Tudo o resto é partilhar trincheira, nesse sentidfo que dás, mesmo ao pé de amigos ou camaradas do mesmo partido, porque nem aqui haverá completo consenso e comunhão de objectivos. Acho que o Pacheco já é emancipado, e daí que não tenha medo de estar lado a lado na trincheira com outros que não a mãe, ou o pai (até o pai já seria um nadinha mais complicado do que a mãe). Não terá havido muitas mudanças e revoluções, falo das benignas, que tenham sido feitas sem alianças, não entre contrários, mas entre diferentes com preocupações e objetivos semelhantes. No caso, o Pacheco não está entre inimigos, não é como se se reunisse na mesma tricheira com outros que pretendem combater o governo com o objectivo de formar uma ditadura. Os objetivos são comuns. É diferente do que fizeram o Estaline e o Churchil, na II guerra, por exemplo.
O Camus arriscou criticas duras, no seu tempo, mas assegurou maior consenso para a eternidade do que o Sartre. Ainda que involuntáriamente, fez melhor negócio.
Na verdade, só se pode falar em “escolha” quando conhecemos as 2 trincheiras. Se a “trincheira” em que nos meteu o presente governo é conhecida (é real…), o mesmo não se pode dizer da “trincheira” alternativa.
Pr ex., alguém adivinharia que a “trincheira” anunciada por Hollande viria a revelar tão desconfortável?…
Não é assim: há trincheiras alternativas e não são todas iguais.
é assim é… apenas quis dizer que optar por algo que se desconhece a algo que é conhecido (o que é perfeitamente legítimo, note-se…), não é uma escolha é uma rejeição.
Não entrar na trincheira com qualquer um… muito sensato, até aí. A questão que permanece por responder é a de saber em que trincheira se está disposto a entrar, e na companhia de quem?
É verdade.
E estou muito extremamente sensibilizado por vc e o Caramelo não terem resumido o meu post da forma habitual : “ou seja, queres é uma trincheira com uma poltrona e uma jola”.
Você quer é uma trincheira com uma poltrona e uma jola.
assim sim ( tinha-me esquecido de si, imperdoável)
sim, nós os três revezamo-nos para manter um certo saudável realismo por estas bandas.
e de brinde resumem os meus posts em frases curtas, eu que até me achava bom na síntese.
O que tu querer sei eu! É uma trincheira com uma poltrona e uma jola! Não sei o que é uma jola, mas acho que fica bem ao lado de uma poltrona.
cervejola, meu totó.
Não conhecia essa, eu quando quero insultar a cerveja com um nome apaneleirado, chamo-lhe bejeca. Descobri no outro dia a cerveja da Praxis, aquilo sim, grande cerveja. O Sô Batista é um benemérito.
é verdade,mas só lá fui duas vezes.