O Crivelli e Francisco José Viegas

Só ontem li o esclarecimento de Francisco José Viegas sobre o caso Crivelli, entretanto reproduzido em vários blogues. Não quero limitar isto a um ataque ou defesa do ex-SEC: o que está em causa é muito mais sério. Mas devo dizer, sem nenhum intuito polémico, que não fiquei nada esclarecido com o esclarecimento.

Viegas diz que o quadro nunca esteve classificado nem em vias de classificação. É verdade, mas havia um despacho de 1970 que impedia a sua saída do país. Ele ignorou esse despacho e tomou a decisão de permitir a venda no estrangeiro. Como é que pode garantir que “todos os procedimentos legais foram respeitados e cumpridos”? O despacho caducou? Foi revogado? Não tem valor jurídico? Era desconhecido?

Por outro lado, Viegas diz que tomou a decisão com base num “parecer técnico e legal” dos serviços da SEC. Está a fugir à responsabilidade, porque a decisão é política. Não são os serviços que decidem, é o SEC. E o SEC podia tomar a decisão contrária, como aconteceu na legislatura anterior, quando os anteriores proprietários quiseram fazer o mesmo que o actual (vender no estrangeiro) e o Estado não deixou. É esta mudança discricionária que, em parte, se contesta. A ideia de que as decisões do Governo são a) uma fatalidade imposta por um destino cruel, b) a consequência inevitável de um parecer técnico qualquer, ou c) ambas, entrou no  discurso do passismo desde a vitória nas eleições e tem-nos massacrado nos últimos dois anos. Só para justificar um dos piores vícios da política: a desresponsabilização. Em democracia, os políticos são eleitos (ou nomeados para cargos de confiança política) para responder pelas suas decisões. Viegas prefere refugiar-se atrás de um parecer. Faz mal.

Também faz mal quando insinua que a razão para deixar sair o quadro é a sua falta de “qualidade, singularidade ou até relevo”, além da falta de dinheiro (dinheiro que ele tem o dever de pedir ao PM e não às pessoas que criticam a decisão). Viegas não o diz abertamente, mas é o que se depreende da intenção manifesta de não comentar essa qualidade, singularidade ou relevo. O valor artístico e cultural de uma obra pode discutir-se, mas não pode ficar sujeito à opinião de um governante (é aqui que entram os pareceres “técnicos”), sobretudo se de tal opinião depende que a obra fique ou não no país. E se a razão para a deixar sair é mesmo essa, então que o diga. Sem entrelinhas.

Viegas faz mal, por último, quando atribui as notícias nos jornais a um “processo de intenções”. Suponho que o recado se destine a Luís Raposo, o ex-director do Museu Nacional de Arqueologia que foi demitido por Viegas e escreveu agora uma carta contundente no Público,  mas nem todos os que se pronunciaram sobre o caso têm contas a ajustar. Aliás, ninguém deve estar inibido de se pronunciar sobre o caso por suspeitas semelhantes. Isso, sim, é que seria um processo de intenções. E outra fuga à responsabilidade política. O Governo não responde só perante o Parlamento, responde também perante os cidadãos. O Público cumpriu o seu dever quando informou. É para isso que existe a imprensa.  E nós cumprimos o nosso dever quando perguntamos. É para isso que existe a democracia. Este Governo tem o péssimo hábito de tomar decisões sem responder por elas, mas de Francisco José Viegas – muito francamente –  não esperava o mesmo.

PP

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10 thoughts on “O Crivelli e Francisco José Viegas

  1. José diz:

    100% de acordo consigo. Acho que nesta matéria ele procedeu mal e continua a proceder mal ao recusar reconhecer que se enganou. Parece-me, contudo, que este erro resultou mais das suas convicções ideológicas do que propriamente de uma intenção ilícita de beneficiar o proprietário.

  2. zé serra diz:

    devo ter lido mal o esclarecimento do viegas. no entanto, parece-me que afirma três coisa: 1) o dito mamarracho (a obra é fantástica, apesar de ninguém a conhecer… excluindo 2 ou 3 apaniguados de ocasião que, ao mínimo sussulto, são defensores intransigentes do património) não está nem nunca esteve classificado; 2) o estado teria de a comprar ao privado por cerca de 3 milhões (o dinheiro abunda…); 3) e este ponto é que importa e até o cito: «a autorização foi dada com base num parecer técnico e legal devidamente elaborado por organismos da SEC», ou seja, a autorização foi dada por quem? pelo próprio secretário de estado… em base a quê? a um parecer técnico e legal, etc.

    dito isto, não vejo onde está a desresponsabilização (está lá escrito: «a autorização foi dada…»).
    quanto ao processo de intenções: bom, o jornalismo verdadeiro – não o da nossa chafarica – deveria pedir sempre uma reação aos visados pelas notícias, certo?

    mas isto sou eu a falar, que não percebo nada disto. creio no entanto, que o viegas merece um pouquinho mais de valorização: por exemplo, não o treslendo.
    disclaimer: não conheço pessoalmente viegas. apenas o vi numa manhã de domingo bem fresquinha numa ruela de aviz. cumprimentei-o e ele retorquiu. gostei. tem o meu apreço.

  3. caramelo diz:

    Tem razão, Pedro. Eu sobre o processo, não posso dizer grande coisa e sobre o valor da obra, também não; se bem que se a obra tem o valor de mercado que se diz, não será exatamente uma reprodução do menino da lágrima. Chamar mamarracho ao quadro, josé serra, parece-me exagerado e até pode prejudicar o negócio ao pobre do Pais do Amaral.
    Mas sobre o comentário do FJV, posso dizer que não gostei nada. Até a um intelectual se exige que tenha sentido de estado e de serviço público, quando está em funções públicas ou quando fala do que fez em funções públicas. Alguém que foi secretário de estado com responsabilidades no património, sugerir a outrém que dê o NIB, se quiser restauros em Portugal, é mau. O dinheiro devia-o ter pedido ele ao Passos ou ao Gaspar. Não há guito, amigos na mesma. Se o fez, está bem, se o não fez, é mau, não sei como foi. Mau foi vir com a habitual conversa chocarreira do qual-é-a-parte-de-não-há-dinheiro-que-não-entendem. O Viegas é um pândego. Passou pelo governo com enfado, saiu enfadado e continua enfadado. Lá que ele seja um tipo simpático, que diz bom dia ás pessoas, não digo que não
    Parece que o quadro estava sob proteção legal, li agora na Lusa. Devia efetivamente estar, ou não precisaria de ter obtido autorização do Estado para sair. Deduzo, por isso, que não é como se o Pais do Amaral quisesse expedir um quilo de chouriços para Paris. Por isso, não chega ao FJV dizer que o quadro não estava classificado ou em vias de classificação, isso é uma resposta manhosa. O que eu queria mesmo ver era a reprodução das informações dos técnicos, despachos, etc. Os jornais já deviam ter podido obter isso.
    Sobre isto, e sobre a importância do quadro (parece que era o mamarracho mais acarinhado do mundo) julgo que está aqui em baixo um bom resumo do que se sabe até agora,
    https://gestaoculturalesad.wordpress.com/2013/06/05/crivelli-emigracao-e-politica-cultural-retrato-de-um-pais-confuso/

  4. zé serra diz:

    ok, a escolha da palavra mamarracho não é a mais feliz, apesar da ressalva que pus entre parentesis: de um momento para o outro somos todos «crivellaristas», até ontem desconhecíamos que havia um privado em portugal na posse da tela em causa, que custa 3 milhões de euros.
    suponho que se fjv tivesse adquirido a obra seria criticado por ter gasto 3 milhões do erário, ainda por cima numa tela de um «desconhecido» venesiano. a manta é curta.

    e, sim, tenho muito apreço por fjv. e, sim, acho que fez mal em ter aceite o convite de ppc para secretário de estado da cultura… tb por causa destes motivos mesquinhos a suscitar polémica.

    voltemos ao ponto – ao osso, como diz o filipe – : pode portugal comprar um quadro de um privado no valor de 3 milhões? [a referência ao carrilhão de mafra está muito bem vista e o exemplo da não-compra da arca do pessoa também: por que razão o quadro, sim e os referidos exemplos, não?].
    se tudo foi legal após parecer técnico, a decisão só pode ser «política», ou seja, da responsabilidade de quem a tem. é para isso que votamos num governo e nas suas políticas é certo que também se poderia invocar um referendo popular à coisa, mas se calhar não dava jeito.
    neste nosso lindo país não se questiona a entrega de mão beijada da casa dos bicos à fundação saramago, mas a não-compra de um quadro privado e a autorização para que se venda a comprador estrangeiro já suscita polémica. e de repente, fjv fica debaixo de fogo. é pouco, muito para o nosso jornalismo. que é preguiçoso, muito preguiçoso.

  5. zé serra diz:

    fui-me documentar melhor no «público». e apanhei isto: http://www.publico.pt/cultura/jornal/tecnicos-propuseram-classificacao-de-pintura-como-tesouro-nacional-26643728#/0
    muita gente come, no estado, à conta da cultura!

    • caramelo diz:

      Agora o Público já é útil, zé serra?
      Não me interessam muito os amúos e melindres do FJV. É como disse, isto é para continuar a esclarecer, talvez se chegue à conclusão de que está tudo certo. Por enquanto, aina há muitas sombras. O que me chateia é aquele estilo prisão de ventre do FJv, a mandar os outros dar o NIB,. Respondendo-lhe à letra, eu respondia-lhe que ele tem de bater a bola baixa e dizer que tem muita pena, tudo fez, mas não conseguiu. E talvez pudesse desviar algum desse azedume e soberba para os seus antigos colegas de governo. No mímimo alguma queixa sobre a falta de dinheiro para o património, que talvez pudesse ser desviado dos seus gabinetes, muito povoados de pequenos génios que ninguém sabe o que fazem. Mas ele sabe bem a quem é que há-de mandar levar no cú. O homem pensa que é um principe da renascença, o Viegas, imagine-se.

      • zé serra diz:

        caramelo, bom ponto o teu.
        agora, sempre o público.
        http://www.publico.pt/cultura/noticia/herdeiros-que-venderam-pintura-protegida-a-pais-do-amaral-sentemse-lesados-pelo-estado-1596529

        analisa comigo o parágrafo: «Clara Vaz Pinto, um dos membros da família que vendeu a pintura a Pais do Amaral e directora do Museu Nacional do Traje, disse esta quarta-feira ao PÚBLICO estar “a acompanhar o caso, como qualquer cidadão interessado em perceber quais são os argumentos técnicos” por trás de tal decisão. Outra fonte da família vai mais longe e reage “pessimamente” ao tratamento diferenciado dado pelo Estado ao pedido do conhecido empresário. “Sentimo-nos completamente lesados, sabemos que vale muito mais” do que a quantia pela qual entregaram a pintura a Pais do Amaral — um “valor muito, muito inferior” aos três milhões de euros oferecidos em Paris.»

        1. gente que decide em causa própria e ocupa cargo na «cultura»? conflito de interesses?

        2. os 10 herdeiros não parecem preocupados com o facto de um, suposto, «tesouro nacional» ir parar a mãos estrangeiras. parecem mais preocupados com o facto de não lhes ter sido permitido efetuar negócio rentável como o que foi permitido a paes do amaral. sentem-se lesados pelo estado, e não que o estado tenha sido lesado no seu património artístico e cultural. a coisa é, portanto, relativa a lucro e não à cultura.

        e outra pérola: «Os motivos da família para a venda da histórica pintura, uma tábua de 1,62×1,07m, dizem as várias fontes da mesma, prendiam-se com o grande número de herdeiros». subentende-se que era preciso vender para dividir o bolo, certo? lá se vai de novo a cultura e o património para segundo plano.

        espero ter dado mais umas achegas.
        saudações

      • caramelo diz:

        Não percebi qual é o conflito de interesses da Vaz Pinto e que decisão tomou ela em causa própria. Qual decisão? Se a familia se sente lesada, reclama, claro. A tal familia e o Pais do Amaral tratam dos seus interesses. O Estado trata de outros interesses.

  6. A.Lobo diz:

    É sempre a mesma a coisa: se dava os milhões tinhamos os Bispos e o novo Cardeal ( um vaidosão)a dizer que para pinturas há dinheiro mas para os pobres não; a esquerda quer dinhheiro para tudo e para nada, pagar o que se deve é que não. Viegas fez muitíssimo bem em dizer que não há dinheiro não há vícios

  7. henedina diz:

    Noutro dia fui a Madrid e na noite anterior tinha havido uma manifestação contra a austeridade e na rua do meu hotel, junto ao museu do Prado, ainda se viam barreiras e muita polícia. Fui no fim de semana ao museu Rainha D. Sofia e vi a guernica e pensei se a guernica não compraria a dívida aos credores alemães ou o D. Quixote de Cervantes. Não há dinheiro não há vícíos mas património é património.
    Deste caso não li não sei só li o seu post.
    Nas correntes, perdoei completamente ao fjv, ter sido secretario de estado deste governo pq fui deselegante ao ponto de lhe dizer que ao contrario de outros eu demorava mais tempo a perdoar, e ele em vez de me mandar…abaixo de braga olhou para mim e nada disse e, nesse momento, confesso que lhe perdoei. Mas que foi uma desilusão ele ter ido para este governo fazer o papel de secretario pobre da cultura, foi.

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