É de propósito, filho.

Nicolau Santos no Expresso:

esta política cega de austeridade está a liquidar a classe média, conduzindo-a a uma crescente pauperização, de onde não regressará durante décadas. Está a acontecer porque, nos últimos quase 40 anos, foi esta classe média que alimentou cinemas, teatros, espetáculos, restaurantes, comércio, serviços de saúde, tudo o que verdadeiramente mudou no país e aquilo que verdadeiramente traduz os hábitos de consumo numa sociedade moderna. Foi na classe média — de professores, médicos, funcionários públicos, economistas, pequenos e médios empresários, jornalistas, artistas, músicos, dançarinos, advogados, polícias, etc. —, que a austeridade cravou o seu mais afiado e longo punhal. E com a morte da classe média morre também a economia e o próprio país.

O homem ainda não percebeu. A classe média não está a ser extinta por uma espécie de efeito perverso da austeridade. A destruição da classe média é um objectivo político, consciente, reflectido, intencional. E o desafio é tão simples, Nicolauzinho: concentrar o poder em quarenta famílias. Mas desta vez a sério, não como no tempo do Sócrates. Depois arranjam-se quinhentos capatazes (aquela rapaziada do “liberalismo”, impelida pela miséria ancestral) e corre-se o povo a eito com as tardes da Júlia e as prédicas da Jonet. Continuas a escrever sobre política como se estivesses em 2011, meu anjo: sem saber que o mundo mudou em dois anos.

Deves ser bom tipo. Se calhar também não gostas de trincheiras. Mas há quem goste. E, de qualquer modo, já chegas tarde.

Luis M. Jorge

4 thoughts on “É de propósito, filho.

  1. hg diz:

    O poder está concentrado há muitos anos em 40 famílias.
    A existência de classe média – que, aliás, vive muito bem à sombra desse poder – torna essa concentração menos visível e mais “pacífica”.
    O que acontece é que nem sequer os nosso ricos são muito ricos e o problema de Portugal é, de cima a baixo, falta de capital.

    • João. diz:

      “O que acontece é que nem sequer os nosso ricos são muito ricos e o problema de Portugal é, de cima a baixo, falta de capital.”

      …coitadinhos dos nossos ricos.

    • caramelo diz:

      Sim, eu também tenho acesso ao património e contas do nossos ricos e confirmo que eles não são muito ricos. É por isso que as nossas orquestras não conseguem mecenato para comprar um pifaro, por exemplo. Essas 40 familias normalmente, enchem uma camineta e vão passar férias a torremolinos e depois não lhes sobra mais nada para ajudar o pais..

  2. Jorg diz:

    Eu até acho que este Nicolau tem muito mais em comum com a Jonet do que se pensa!!

    Aquelas colunas no “Espesso” a falar de empresas que, mal saidas do papel – e demasiadas delas esteroidizadas com ‘pugramas” de Bruxelas e cauções politicas que, nas mudas dos ventos, desaparecem (“re-inventam-se?”); os convites a confrandes fala-baratos conhecidos em curta data no Clube do Bacalhau; as “narrativas” piedosas de efeitos da crise a partir de ‘clips’ no Hiper das Amoreiras, e até ‘poesia’ como “Quantum of Solace” da contemplação arguta , a partir de uma colina de LX, do ‘tecido’ económico-ó-social da nação; tem tudo a ver com a ‘Caritas’ de De Amicis que se escarra na Jonet – ainda que se possa argumenta a distinção em relação aquela do Vaticano que precisava “Caritas in Veritate”….

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