Novos partidos, velhos inteiros

A conversa da criação de novos partidos, que agora voltou pela mão do Rui Tavares, é tão recorrente como a das candidaturas independentes. À partida soa bem, mas a experiência mostra que o sistema político português tem pouco espaço para o aparecimento de novas formas de vida. Basta lembrar que o último “novo partido” com sucesso foi exactamente o Bloco de Esquerda, do qual o Rui Tavares foi compagnon de route. E teve sucesso porque havia um vazio ideológico entre o PCP e o PS, correspondendo grosso modo às célebres “causas fracturantes”, que o BE soube ocupar. Com a vitória no segundo referendo do aborto e aprovação do casamento gay, esse espaço já não existe. As causas fracturantes são hoje património comum da esquerda e de alguns deputados do PSD e do CDS, como se viu na coadopção, o que explica o esvaziamento do Bloco e desaconselha um Bloco II. À direita, o espaço é ainda mais limitado. O PSD sempre fez da flexibilidade doutrinária um trunfo eleitoral, característica que, por osmose, contagiou o CDS de Portas.

Na improbabilidade de um realinhamento de ideias, sobra um discurso moralista contra os políticos e os partidos, uma espécie de novo PRD ou Beppe Grillo à portuguesa. Também é pouco e já se viu como acaba. Concordo que os políticos e os partidos precisam de um banho ético, mas não tenho grandes esperanças. Primeiro, porque nenhum programa moralizador pode moralizar ninguém: a moral é uma coisa teimosamente individual e, se falta no Parlamento ou no Governo, não são partidos ou candidatos puros como a água das nascentes que a vão derramar sobre nós. Segundo, porque isto ainda vai piorar. À geração de Sócrates, Relvas, Passos e Seguro há-de suceder, na nossa pobre política, uma fornada de jotinhas ainda mais aterradora (que já andam por aí, a perguntar quanto custam os sindicatos e a berrar que não pagam a dívida). A única dúvida é quanto tempo falta para batermos no fundo. Cinco anos? Dez? Vinte? Cinquenta? Se olharmos para outras democracias do sul da Europa, como a Espanha e a Grécia, ou mesmo a Itália e a França, parece que o sistema aguenta muito tempo uma classe política mafiosa. Talvez nos esteja reservada a mesma agonia. Mas se olharmos para o nosso passado, a história ensina que a degradação do regime  pode ser muito rápida: duas décadas do Ultimato ao fim da monarquia, década e meia da Primeira República ao Estado Novo.

Em suma, é provável que a chegada de novos partidos seja mais um sintoma da doença do que um remédio. Cínico, eu? Parece que sim, mas não estamos em tempo de lirismos.

PP

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One thought on “Novos partidos, velhos inteiros

  1. caramelo diz:

    Ai… passam mais de cem anos sobre um dos nossos épicos mais exaltantes:

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
    Há tal soturnidade, há tal melancolia,
    Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    Mas estamos a progredir, estamos a progredir. Já juntámos à melancolia o cinismo, um bom ingrediente para evitar os efeitos suicidários da melancolia e para calar a boca a certo e determinado espanhol.

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