Parsifal no Midwest (3)

TO-THE-WONDERTodo o simbolismo da sequência no Mont Saint Michel é reforçado pelo monólogo interior de Marina que a acompanha. Enquanto o casal sobe pelos degraus e ruelas, ouvem-se as suas palavras em off: “Recém-nascida, abro os meus olhos. Fundo-me na noite eterna. Uma faísca. Caio nas chamas. Tiraste-me das trevas. Levantaste-me do chão. Trouxeste-me de novo à vida. Subimos as escadas, rumo à maravilha. O amor torna-nos um só. Dois. Um. Eu em ti. Tu em mim.”

É revelador que isto seja dito em francês. Por um lado, a paixão contida nas palavras, que nos transmitem o ponto de vista de Marina, nasce e tem o seu auge em França (Paris e Saint Michel). Quando ela for com Neil para a América, onde o amor entre ambos diminuirá até quase desaparecer, o inglês torna-se a língua predominante (embora não exclusiva: muitos dos monólogos interiores do Padre Quintana, paralelos aos  de Marina na dinâmica do filme, são no seu castelhano natal). A expulsão do paraíso afecta não apenas o amor, mas a própria linguagem do amor.  Por outro lado, aparentemente ele não fala francês. Há, desde o início, uma dificuldade de comunicação com Marina que a mudança de ambos para Bartlesville, a terra de Neil no Oklahoma, apenas irá acentuar. Tal como Marina, também só conhecemos os sentimentos de Neil pelos seus actos. “Falavas pouco, mas podias ser extremamente terno”, diz ela. Daí a inexpressividade de Ben Affleck, perfeito para um papel em que a psicologia da personagem se resume à inexpressividade.

Por contraste, as palavras de Marina são  de uma densidade quase mística – e este contraste é a maior fractura tectónica na geologia do filme. A deriva dos continentes não vem da viagem transatlântica, mas da distância abissal e intransponível entre dois seres humanos, por muito que se amem. Nunca duvidamos da grandeza da sua paixão. Quem sabe um mínimo de teologia, identificará no monólogo de Marina várias imagens tradicionais do amor de Deus: o renascimento, o início da verdadeira vida, a luz que dissipa a noite e as trevas, o fogo que abrasa a alma, a centelha, a fusão dos seres e, mais uma vez, a ascese a um estado superior de contemplação (“subimos as escadas, rumo à maravilha”).

Malick assimila o amor humano ao amor divino, uma assimilação recorrente na cultura judaico-cristã. Sobre o matrimónio, Jesus cita o Antigo Testamento – “o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serão os dois uma só carne” (Mt. 19, 6) –  e São Paulo, glosando esta passagem, compara o casamento à união entre o mesmo Jesus e a Igreja (Ef. V, 21-33). Espírito e carne, tal como em São Basílio, que refere “a chispa do amor divino depositada em nós” para definir a lei natural (Regulae Fusius Tractate, PG 31, 908, Resp. 2, 1). Santo Agostinho, nas Confissões, dirige-se a Deus, a “beleza antiga e nova” que ele “amou tarde”, em termos que Marina não desdenharia: “Brilhaste e resplandeceste diante de mim e expulsaste dos meus olhos a cegueira. Tocaste-me e abrasei-me na tua paz.” O austero São Bernardo dedica oitenta e seis sermões ao Cântico dos Cânticos, um longo hino conjugal do Antigo Testamento no qual, entre outros lirismos, a mulher diz do homem amado que “a sua boca é doce e todo ele é delícias”, ao que ele responde sugestivamente que “o teu ventre é um monte de trigo rodeado de lírios e os teus seios parecem os filhos gémeos de uma gazela”. Bernini figura o êxtase místico de Santa Teresa de Ávila com a máscara do êxtase amoroso, o único que por certo conhecia (ninguém se escandalizou, como pode ver-se na igreja romana de Santa Maria della Vittoria).

pedras_angulares_santa_teresa_avila_584px_2 Mais perto de nós, a primeira encíclica de Bento XVI, intitulada Deus É Amor, lembra que “entre o amor e Deus existe uma relação: o amor promete o infinito, a eternidade, uma realidade maior e totalmente diferente da nossa existência quotidiana” (I, 5).

Malick recolhe esta doutrina de dois mil anos de Cristianismo, que vê no amor humano o sinal da felicidade absoluta que só Deus pode dar, quando o Padre Quintana exorta os seus paroquianos a “despertar o amor, a presença divina em cada homem e mulher”. O amor é presença divina porque é a promessa de infinito de que fala Ratzinger. Mas o homem e a mulher não o atingem, apesar da paixão, porque foram expulsos do paraíso. Feridos pelo pecado original, a sua felicidade é sempre efémera e limitada. Humana, demasiado humana. (cont.)

PP

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