Extremos

As greves gerais, como a de hoje, ou as greves prolongadas, como a dos professores, revelam que muita gente lida mal com a conflitualidade própria das democracias. Curiosamente, ou talvez não, são pessoas que têm o hábito de se arvorar em porta-vozes da liberdade, embora em extremos opostos do espectro ideológico.

Veja-se este exemplo: insinua-se que os professores fazem greve pelos “direitos adquiridos”, enquanto os seus alunos correm risco de vida nas escolas. É uma insinuação desprezível porque relaciona a greve dos professores com o homicídio de dois alunos. Mas, além de desprezível, é politicamente pouco democrática. Dá a entender  que os direitos dos professores não têm a mínima importância ao lado de duas vidas perdidas e que exigir esses direitos, quando há problemas maiores nas escolas, torna os professores cúmplices dos crimes. Alguns “liberais” têm um tal ódio aos sindicatos que são capazes de os acusar de tudo. Sendo este “liberalismo” frequente na maioria que apoia o governo, pergunto-me se a direita compreenderá que a democracia não se limita ao mercado livre.

À esquerda, as dificuldades com a democracia são menos subtis. Aqui lança-se o velho manto da suspeita fascista sobre quem se oponha à greve, mesmo que a reconheça como um direito. Gente perversa “que, na sombra da sua disfarçada consciência, atribui ao protesto pacífico e à liberdade de expressão um carácter meramente facultativo”. Suponho que só quem reconheça à greve um carácter obrigatório não disfarçará qualquer coisinha na consciência, mas convido-vos a reler esta frase extraordinária. Parece tirada do 1984 de Orwell. Não por acaso: uma das características genéticas do totalitarismo sempre foi a vontade de controlar as consciências. Já sabemos o que se segue. Todos conhecemos a história das democracias populares. Mas que isto seja dito hoje, trinta e nove anos depois do 25 de Abril e em nome do mesmo 25 de Abril, ultrapassa a minha compreensão arqueológica.

PP

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20 thoughts on “Extremos

  1. Bone diz:

    E a ordem dos parágrafos, é aleatória ou será fruto da tal “sombra disfarçada da consciência”? Terá essa sombra alterado o sentido da frase citada no 2º parágrafo, substituindo “protesto pacífico” e “liberdade de expressão” por “greve”? Terá ela autorizado, talvez regozijado, que terminasse o 1º parágrafo com “livre”, bela palavra, e o 2º com “arqueológica”, esse vocábulo esdrúxulo?

    • ppicoito diz:

      No contexto do post citado, protesto pacífico e liberdade de expressão tem exactamente o sentido de greve, mas agradeço a inquisição às sombras esdrúxulas da minha própria consciência.

  2. Totalmente de acordo, Pedro. Mas olha que nada disto remete para uma compreensão arqueológica – mesmo descontando a ironia. Estes tiques, à esquerda e à direita, estão e estarão “vivinhos da silva.”

  3. Carlos Duarte diz:

    Muito bem!

  4. Ivo Rafael Silva diz:

    Não era preciso nenhuma especial “compreensão arqueológica” mas bastaria uma “compreensão básica” para entender aquilo que o PP tristemente não entendeu. E não entendeu que em nenhuma parte do artigo se diz que a greve tem, ou deveria ter, um carácter obrigatório. O que lá se diz é que “respeitar o DIREITO à greve” é obrigatório porque esse direito está consagrado na lei fundamental do estado. Não é pedido a ninguém que concorde com as razões da greve, desta ou de qualquer outra. Agora é imperativo pela força da lei que se respeite a mesma enquanto forma de protesto. Agora, se o que se quer, no fundo, é contrariar o princípio geral da greve, ainda que não estejamos a falar de nenhum atentado à democracia, isso não deixa de ter uma leitura política da minha parte. E essa leitura, goste o PP ou não, é tão válida ou menos válida que aqueles que sugerem a existência aqui de uma ultra-orwelliana “vontade de controlar consciências”…

    • ppicoito diz:

      Claro. Temos, portanto, que quem diz expressamente respeitar o direito à greve continua a ser suspeito de a não respeitar “enquanto forma de protesto” ou de “contrariar o princípio geral da greve”. Todo o seu post se resumia isto. E se isto não é ultra-orwelliano, vou já inscrever-me na JCP.

  5. fms diz:

    Pedro, regozijo-me de vir aqui e sentir algo mais que indiferença quando leio os vossos posts. E tríplice, senão vejamos: o LMJ mete-me nervos com aquela nerdo-candura de esquerdalho educado; o FNV é tão equilibrado que se torna amorfo; e VExa mantém-se igual a si próprio. Haja tempo.

  6. Xico diz:

    A questão é que todos temos direito à massa para os pastéis…

    “A planície estava afundada na noite escura, só os altos-fornos e as fornalhas de coque iluminavam ao fundo o céu trágico. O galope pesado dos policiais se aproximava. Quando apareceram, eram uma massa sombria, não se podia distingui-los. E atrás deles, confiado à sua guarda, o carro do pasteleiro de Marchiennes chegava, enfim. Dele saltou um entregador que se pós tranqüilamente a descarregar a massa para os pastéis.” (O Germinal, Zola)

  7. caramelo diz:

    Eu, aqui no meu cantinho, acho que nem uma coisa é um salto para o fascismo puro e duro, nem a outra coisa é ultra-orweliana. Mas vivemos tempos interessantes para o exagero. De qualquer forma, também a mim me aborrece aquele tipo de expressão. Respeito o direito à greve, respeito o direito à liberdade de expressão, respeito o direito de voto, respeito o direito a respirar, etc. É uma irritaçãozinha miúda, daquelas que são provocadas por uma sombra onde devia haver sol, nada mais do que isso.
    Mas em matéria de irritações, nada bate a do colega que vem aqui especialmente para dizer que se irrita com todos os declinequedenses, cada um de uma forma particular. A minha preferida foi a do “nerdo-candura de esquerdalho educado”, para o Luís Jorge. Ninguém se dá ao trabalho de inventar uma destas só para mim.
    Pronto, já li aqui também um bocado do Germinal, vou satisfeitinho.

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