Voltando a Montaigne

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Entre os usos que dizem respeito aos defuntos, julgo dos mais sólidos o que obriga a examinar as acções dos príncipes depois da sua morte. Eles são companheiros e não donos das leis, e se a justiça não se impõe à sua razão, impõe-se à sua fama e à dos seus sucessores, coisas que muitas vezes preferimos à vida. É um costume que traz singulares vantagens às nações que o observam e é desejável a todos os bons príncipes, temerosos de que a memória dos maus seja tratada como a sua. Devemos submissão e obediência aos reis, por causa do seu ofício,  mas a estima e a afeição só as devemos à sua virtude. É da ordem pública suportá-los indignos com paciência, calar os seus vícios, louvar-lhes os actos indiferentes enquanto a sua autoridade requer o nosso amparo. Mas, findo o  comércio entre nós, não há razão para recusar à justiça e à liberdade a expressão dos nossos sentimentos e para recusar aos súbditos a glória de ter servido fielmente um senhor cujos defeitos eram notórios, privando assim a posteridade do que teria sido um tão útil exemplo.”

Montaigne, Essais, Livro I, cap. III (tradução livre).

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