Por fim, o tédio.

Suponho que era inevitável. Nenhuma terra consegue indignar-se muito tempo. Primeiro foram seis anos de Sócrates, dos compagnons de route de Sócrates,  dos esquemas, das maquinações, das fortunas mal contadas de Sócrates. Depois foi esta gente, esta coisa que nos governa como uma neoplasia, estas criaturas que não julgávamos que pudessem existir tal como existem, estes frutos do ressentimento, da secura, de uma miséria ancestral. Os cratos, as jonets, os betos e as sopeiras, os magalas e os capatazes, a tralha e os despojos do ultramar — enfim, as ervas antigas agarradas às pedras que espreitavam um minuto de abandono.

As pessoas como eu perderam o país. Queríamos uma Finlândia e saiu-nos o México, ou uma daquelas merdas do corno de África cheias de larvas, com hotéis de cinco estrelas em esgotos a céu aberto. Não gostavam da “esquerda”? Era má, era “pseudo”, tinha sarna? Então embrulhem.

Para mim, amigos, é igual. Sempre tive jeito para ganhar a vida.

Luis M. Jorge

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18 thoughts on “Por fim, o tédio.

  1. M. Martins diz:

    É quase tudo…os despojos do ultramar.

  2. Eu já nem pedia uma Finlândia… Enfim.

  3. miguel diz:

    Não posso deixar de pensar que estas “ervas antigas” são legitimadas por todos aqueles que começam por “primeiro foram 6 anos de Sócrates”…

    Como se fossem comparáveis em alguma coisa. Como se isso explicasse a miséria moral e intelectual de quem nos governa.

    Como se Maria de Lurdes Rodrigues, Luis Amado, Nunes Correia, Augusto Santos Silva, Teixeira dos Santos, Correia de Campos, Vieira da Silva… existissem, sequer, no mesmo planeta que esta corja que temos agora de gramar.

    Mas se gente que eu gosto de ler, como o Luis M. Jorge, escrevem estas merdas é porque, de certeza, sabem coisas que eu não sei.
    Informações que só eles alcançam e não partilham com os miseros mortais.

    miguel

  4. João. diz:

    Sobre quem vive à custa do trabalho dos portugueses. E para quem governam os governos em Portugal.

  5. fms diz:

    A frase chave é “sempre tive jeito para ganhar a vida”, e nela se encerra o espírito correcto de quem antevê o estoiro que aí vem. Peca contudo por alguma aleivosia ao longo do post, porque em Portugal a esquerda é uma récua de imberbes mentais, e a direita não existe, sobrando apenas, e nisso concordamos, a merda.

    • caramelo diz:

      A direita não existe? Agora deita, enrola-se e finge-se de morta?

      • fms diz:

        Não há nenhum partido que não seja socialista. Logo não há direita.

      • João. diz:

        Não. O Caramelo tem toda a razão, a direita deita-se e finge de morta. Ou seja, andaram com o Gaspar ao colo, com o Passos e o Portas e agora diz que não é nada com eles.
        O seu argumento é pura cobardia política.
        É isso que é a direita que você diz que não existe. Os seus militantes são como ratos que abandonam o navio ao primeiro sinal de que algo não está a correr bem.

      • caramelo diz:

        fms, essa sua afirmação de que não há direita vai provocar uma angústia existencial em muita gente, desde os saudosistas do senhor dom miguel, até à direita moderna. Ainda provoca uma onda de suicidios. Mas há vários niveis de erro na sua resposta, que explicam a sua confusão. A direita não precisa de partidos para existir (tal como a esquerda); o poder não está só nos partidos, nem passa só pelos partidos; partidos que não são nominalmente de direita podem praticar politicas de direita, as que são apoiadas por pessoas de direita, e, finalmente, existem de fato partidos de direita. Mas devia ter começado por lhe perguntar o que entende o fms por direita. São aqueles seres que abandonam o barco, como diz o João, fingindo que nunca estiveram no barco?

  6. Gregor Samsa diz:

    Escusa, Luís. Se (lhe) fosse igual (ao litro), suponho que no sentido de indiferente, não escreveria este texto. Mesmo que a resignação fosse “a pedra de toque” da coisa.

  7. Jorg diz:

    Era o ano de 2000. Portugal vivia a euforia do ‘pugresso’ com o ‘bonzinho’ ainda ao leme.
    O interlocutor era uma emanação das alvoradas natas ‘xuxas’, prof universitário da capital – com um ódio visceral ao grupo da minha Alma Mater [‘deve perceber que, nesta nova era que estamos a viver, eles quedam-se ‘provincianos’, percebe], representante de governo
    em comités da “Europa”, presidente de pelo menos um Instituto. Tinha carro longo e preto com motorista, o seu trajecto pejado de contínuos que abriam a porta ou secretárias que traziam café , e fez-me notar que tinha ‘linha directa’ com o ministro. “Offensichtlich, ein strahlender Leuchtturm”!!!

    Nas politiqueiradas alarves de rapar o orçamento europeu, conseguiram ‘financiamento’.
    Eu, fora do País, tinha estado, por carambola do destino, a trabalhar num desses campos que ‘estava a dar’ e era então
    abrangido pelo ‘financiamento’. Falou-me então num ‘post-doc’, se não der, recibos verdes, isto para montar, de raiz, uma coisa
    “financiada pela verba” E que, como aquilo ia crescer, dai a uns anos um lugar no quadro era garantido, percebe…
    Perguntei quantos, nos últimos anos, tinha sido recompensados com tal idêntica generosidade de destino, e se poderia falar e
    aprender com algum deles. Acenei ainda o pedido de indicação de outros ‘grupos’ que floresciam ao longo deste ‘path’ assim iluminado.
    ‘Um nadita de paciência não custa nada, percebe’, e que isto de expansão era a partir de agora, a “Agenda de Lisboa” e tal, em 2010 vamos
    dar cartas no mundo em tecnologia, e ciência e ‘pugresso’, e ‘voçê nas primeiras linhas” a comungar do catalisar os esforços R&D da coisa.
    Não lhe confessei o quanto duvidava de mim e que as visões que tinha de 2010 eram distopias que não ousava partilhar.

    Ficava pois com o “projecto”, teria mais umas dez incumbências de representação e administrativas e contabilisticas,
    excepto as assinaturas que eram as de quem ele dissesse. Isso tinha de ficar claro, percebe! Como já perceberam, o prof
    dizia muitas vezes “percebe”.

    Na parte técnica, recebia ‘avant la lettre’ também outra dúzia de títulos – responsável disto, supervisor
    daquilo, especialista de tal, representante de ‘tal e qual’, até ‘operador-chefe’ do não sei o quê. “Em BXL, tem de perceber onde está o dinheiro, e morder calcanhares, percebe”.
    Se fosse um filme, era o realizador, produtor, argumentista, cenografo, autor da música, e editor da montagem, para além de artista principal e muitos ‘cameos’ em
    papeis secundários. ‘Belle du Jour’, se quisesse, teria de ser platónica, em epístolas narradas em ‘off’.
    Notei que no sitio onde tinha feito o meu trabalho até então, não havia muito de aglomerar genialidade no singular, eramos uns dez ‘peers’
    que reforçavam as competências uns dos outros, e também assim minimizando as fraquezas de cada um.
    ‘Epá aqui tem de ir buscar alunos dos ultimos anos de licenciatura – estão sempre motivados e trabalham com alegria e de borla”.
    Perguntei por parceiros industriais nativos, engenheiros e outros dotados, com quem pudesse trabalhar – que não,
    que nós ‘sábios de tanto saber’ não tinhamos nada que nos meretrizar em ‘consultores’ de gente da industria que vive ‘para o lucro’ (‘no kiddin’ ‘ pensei eu!)
    e de cravar fretes de borla. Tinha era que ‘publicar’ – o seu doutoramento ‘esprimidinho’ ainda dá mais uns ‘papers’ e, a propósito, qualquer coisa que voçê publique
    tem aqui estes três nomes – onde está o meu, como pode ver- que vão aparecer sempre em co-autoria, percebe!. Percebia, e cada vez mais depressa.

    Um mês antes de começar fui pessoalmente dizer-lhe ‘thanks but no thanks’ e que tinha ficado muito sensibilizado pela oferta.
    Estava furibundo, e comandou passar por uma porta aberta por um contínuo e subir para o carro preto e longo com motorista.
    O motorista conduzia e ele gritava! “Isso é inaudito. Uma oferta destas, com tantos a ansiarem pela condição deste futuro que lhe ofereço!!! Voçê percebe – um ultimo ‘percebe’… –
    que não irei permitir que tenha uma carreira em investigação em qualquer outro sítio, mesmo fora de Portas – olhe, mesmo em BXL, vou torpedear todos os seus esforços”
    No fim, adoçou o discurso para o esforço de ‘data mining’ sobre o futuro – menti, que estavam umas coisas em aberto, tudo no estrangeiro até ‘overseas’,, mas quedava-me
    no contemplar da minha existência e que as decisões seriam lá para o verão. Nos meses seguintes, ia ser como o Forrest Gump em cross ‘coast to coast’ ou como o
    Siddarhta pelas Indias – procurar o sentido da vida.

    Porque conto este conto? Porque o Tédio, e o “México” ou “uma daquelas merdas do corno de África cheias de larvas” já estava bem entranhado e até relacionado em 2000.
    Era ideologia seminal e bastava despojar-nos de peneiras para ver que andavamos a lidar com flautistas de terceiro mundo -“há mais vida para além do défice”, lembra-se…
    – a contar e a embalar que aqueles traques cheiravam a alfazema, e que qualquer dúvida relevada, era sem dúvida nariz mal intencionado.

    Não sei se sempre tive jeito para ganhar a vida – prefiro pensar, como numa canção de Sinatra, levemente corrompida “Once in a while along the way
    Life’s been good to me”. E que em vez de ir tendo uma boa vida, tenho mais uma vida boa – procurando como o Private Ryan, já avô, junto a campa do
    Capitão Miller, explicar que tentem merece um pouco essa vida boa. Ou seja, não consigo ser indiferente….

  8. Ainda não percebi o que é que a Jonet faz aí no meio (está no poder?), mas deve ser má leitura minha?

  9. Antonio diz:

    “sempre tive jeito para ganhar a vida”…..”Entao embrulhem”

    Que giro. Quando Sócas ganhou as segundas lesgislativas contra a “bruxa” MFL, tambem desisti e pensei exactamente o mesmo. Eu já emigrei. Por mim, essa merda pode afundar amanha.
    Como diria esse grande cineasta portugues de indiscutivel talento e um verdeira caso de sucesso de investimento socialista: Quero que o publico portugues se f*da.

  10. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Luís, creio ser mais justa a linha defendida pelo saudoso Artur Albarran (eesse ex-PRP-BR desaparecido em combate por entre ex-mulheres e empresas holding): «o drama, a tragédia, o horror…»
    Constato que o nosso Láparo Primeiro-Sinistro há muito que engrenou na linha das segundas escolhas, a que não lhe é alheio o pendor para a perseverança no erro.

  11. Ana Cristina Leonardo diz:

    É que já nem apetece comentar 🙂

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