Diário de um cínico

A situação no Egipto agravou-se com o massacre de cerca de meia centena de membros da Irmandade Islâmica. Ao mesmo tempo que os adversários de Morsi continuam reunidos na Praça Tahrir, os seus apoiantes manifestam-se frente à sede da Guarda Republicana, onde se diz que o ex-Presidente está preso. Foi aqui que o exército abriu fogo sobre  os manifestantes, em circunstâncias ainda pouco claras.

É um erro trágico dos militares, que mancham as mãos de sangue. Se já tinham um problema de legitimidade constitucional (para todos os efeitos, acabam de derrubar um presidente e um Parlamento democraticamente eleitos), têm agora um problema de legitimidade política (a Irmandade Islâmica acusou-os de imediato de quererem voltar à ditadura).

Além da violência, ou com ela, o que impressiona, no entanto, é a extrema polarização da sociedade egípcia, partida ao meio entre os que apoiam a Irmandade Islâmica e os outros. Mesmo que os outros sejam, entre si, muito diferentes. O clima é de guerra civil. O exército está contra Morsi, mas se alguém fornecer armas aos islamistas, tal como aconteceu na Síria, a situação pode descontrolar-se. Convém lembrar que a Turquia e o Irão condenaram o golpe.

Há dois anos, Anne Applebaum surgeriu que não se comparasse a Primavera Árabe à queda do Muro de Berlim, um lugar-comum então omnipresente, mas às revoluções europeias de 1848, a chamada “Primavera dos Povos”. Queria ela dizer, se bem me lembro, que as mudanças no Médio Oriente não representavam a passagem de um regime ultrapassado (a ditadura) a um regime mais moderno  (a democracia parlamentar), mas uma redistribuição do poder dentro de regimes já modernos (ditaduras militares, laicas, nacionalistas e pós-dinásticas).

Olhando para o que se passa no Egipto, temo que esta leitura, na altura convincente, tenha subestimado as tendências antidemocráticas (ou pré-modernas, palavra equívoca) das sociedades árabes. Porque o que vemos hoje assemelha-se antes o fim do Antigo Regime em França, com grande instabilidade entre 1789  e a Restauração (e sequelas durante todo o século XIX), ou na Península Ibérica, com a mesma instabilidade após as revoluções liberais de 1820 (e também sequelas posteriores).

Um dos maiores erros de percepção da Primavera Árabe, como apontou Anne Applebaum, é julgá-la à luz das revoluções europeias de 1989. É um efeito da miopia histórica do Ocidente actual, que vê a democracia como um dado adquirido, ignora o seu passado e dilui as diferenças entre as sociedades europeias e as outras, em nome de um multiculturalismo que é afinal uma forma de eurocentrismo – e do mais provinciano.

PS: este editorial da Spectator explica melhor que a democracia precisa de uma cultura, não basta juntar água e eleições.  E podemos reler sempre Tocqueville.

PP

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2 thoughts on “Diário de um cínico

  1. […] “Diário de um cínico” de Pedro Picoito (Declínio e Queda) […]

  2. […] Termino con un artículo que se refiere a las tendencias anti-democráticas latentes en todas las sociedades árabes: […]

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