Coches e cavalgaduras

20120519_0092-1Quando Jorge Barreto Xavier, o actual Secretário de Estado da Cultura, foi ouvido no Parlamento a propósito do caso Crivelli, também admitiu que a construção do novo Museu dos Coches “foi um erro”. O desabafo passou quase despercebido, mas é a primeira vez que um governante tem a coragem de o fazer. Recordo que o Museu dos Coches é um  faraónico exemplo da política cultural de Sócrates, que se resumiu a gastar dinheiro em eventos e obras públicas de urgência mais que duvidosa (a compra da colecção Berardo é outro). Dou a palavra ao SEC: “Tínhamos um Museu dos Coches a funcionar, sustentável, e criámos um investimento de mais de 35 milhões de euros para criar um novo museu que, sendo um edifício de um arquitecto de reconhecido mérito, coloca problemas sérios de sustentabilidade e gestão futura.”

Ou seja, vamos mudar um dos poucos museus portugueses que se pagam a si próprios para um edifício desnecessário, deficitário e que custará 35 milhões de euros a um país falido. Eis a cultura de Sócrates em todo o seu esplendor. Entretanto, bastariam 2,9 milhões (a preços muito inflacionados pelo desleixo do próprio Estado) para comprar o Crivelli.

Às vezes, dá-me vontade de meter certas cavalgaduras no Campo Pequeno. Com ou sem coches.

PP

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8 thoughts on “Coches e cavalgaduras

  1. Os coches devem ficar à porta do Campo Pequeno, please.

  2. caramelo diz:

    Há mais de trinta anos que não vou ao museu dos coches. Na caixa de comentários da noticia, para além do habitual jogo da pedrada ao xuxa, há quem diga que o velho picadeiro onde está o museu não tem as condições adequadas para guardar os coches e que mesmo do ponto de vista museológico (espaço, luz, etc) faz sentido um novo edifício. Também parece (parece) que o dinheiro para a construção do novo museu provem de contrapartidas da concessão do Casino de Lisboa, portanto, isto tudo, incluindo a choradeira do SEC, deve ser visto cum granu salis. Mas sendo o museu dos coches, ao que penso saber, um dos museus mais visitados do pais, se não é “sustentável”, esteja onde estiver, nada do que seja investimento na cultura no país é sustentável.

    • ppicoito diz:

      Um novo edifício faz sempre sentido – se houver dinheiro. De momento, não há dinehiro para as pensões, quanto mais para um novo museu. De modo que é aguentar. É simples. O dinheiro que vem do Casino de Lisboa não chega, foi por isso que o Conselho de Ministros teve que desbloquear os tais 35 milhões. Há obrigações contratuais que o Estado deve respeitar, que remédio, mas para um país que não tinha 3 milhões para um Crivelli… E o novo Museu dos Coches não será sustentável por causa das despesas de manutenção e de amortização do investimento inicial.

      • caramelo diz:

        Pedro, se não há dinheiro para pensões, que se lixe o Crivelli, é simples, não se fala mais nisso. O Museu Nacional Machado de Castro reabriu recentemente após obras de requalificação e ampliação de 15 milhões de euros, directamente do bolso dos contribuintes,, sem passar pelos casinos, para além das despesas de manutenção. Também neste caso se devia ter pensado que neste momento não há dinheiro para pensões. Esteve sem obras durante décadas e não foi por isso que as peças da Última Ceia do Hodart se desmoronaram. Em todo o caso, não perdendo de vista que um cêntimo gasto nestas coisas é um cêntimo retirado às pensões, continuo curioso com o montante adicional que o estado vai gastar para além do que foi dado pelo casino. Foram os tais 35 milhões que diz que o Conselho de Ministros teve de desbloquear?

    • O casino de Lisboa, como os demais casinos lusitanos, quase não têm dinheiro para mandar cantar um cego, quanto mais para andarem com o museu dos coches às costas.

  3. O filme é bem pior que a mera contabilidade. O novo museu foi uma criação Manuel Pinho, esse emérito homem da e de cultura, implicou a mudança do Museu Nacional de Arqueologia para onde não deve estar, a Cordoaria, e em todo o processo contou com o parecer desfavorável de muitos técnicos.
    O picadeiro precisava de obras, quem não precisa, mas é obviamente o espaço museológico mais adequado para os coches.

    • ppicoito diz:

      A comparação entre o Museu Machado de Castro e o Musu dos Coches não faz sentido. As obras no Museu Machado de Castro eram há muito pedidas por sucessivas direcções, o novo Museu dos Coches não foi pedido por ninguém e foi, pelo contrário, fortemente desaconselhado por vários especialistas como Luís Raposo e Raquel Henriques da Silva. Num caso o dinheiro foi bem gasto, no outro não foi: aliás, o novo Museu dos Coches é apenas uma obra megalómana de propaganda de Sócrates, que meteu na cabeça que política cultural é inaugurar novos museus (e quanto maiores e mais exóticos melhor).
      Quanto ao Crivelli, devido ao desleixo do Estado português provavelmente nunca mais o veremos em Portugal. Para algumas pessoas, entre as quais o anterior SEC, isso não parece ter uma especial importância. Para outras, entre as quais me incluo, é uma oportunidade perdida de valorizar a colecção do Museu de Arte Antiga. Quando não há dinheiro para isso, mas há 35 milhões para um museu inútil (venham de onde vierem), o problema não é de dinheiro, mas de prioridades.

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