A união.

Aflito com a grande discórdia que descera sobre a terra, o presidente apareceu aos partidos e proclamou uma nova era de leite e mel e harmonia. “Em verdade vos digo que aborreço as vossas preces. Exibis os modos de um pastor, mas sois ovelhas tresmalhadas  aos olhos do altíssimo. Por isso vos ordeno que abandoneis a chicana e entendai-vos”. Assim falou o presidente Cavaco.

Em Ninive e Babilónia reuniram-se os anciãos com as famílias e choraram muito e esconderam as vergonhas ao ouvir a voz do presidente. “De que valem os sacrifícios”, bradaram entre eles, “se nos ordenam para renunciar às tradições? Teremos porventura de unir em heresia aquilo que a santidade dos propósitos apartou?”

E assim se quedaram três dias, comendo e bebendo e orando um bocadinho até que um deles se ergueu defronte da fogueira e anunciou: “Unamo-nos, irmãos”. E todos em uníssono o acompanharam levantando as vozes: “Unamo-nos!” E na manhã seguinte caminharam até Jerusalém e entraram nas portas marmoreadas da cidade, e atravessaram as praças que o sol afogueava, e passaram por um mercado onde o vinho jorrando dos odres inebriava os camponeses, e acharam o palácio revestido a ouro e lápis-lazúli que albergava o presidente, e lá dentro, acercando-se do trono, num derradeiro sacrifício depositaram a seus pés a cabeça de quem o ocupava, e agradeceram ao torso decepado  que os unira, chamando-os à razão.

Eis a palavra do senhor.

Luis M. Jorge

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