Diário de um cínico

APTOPIX Mideast Egypt

No Cairo, tomou ontem posse um governo interino formado por liberais, antigos apoiantes de Mubarak e até um ex-ministro de Morsi, mas sem o apoio da Irmandade Islâmica, que não lhe reconhece legitimidade, e dos salafistas, que se afastaram depois do golpe militar. Tem pela frente os trabalhos de Hércules: pôr a economia a funcionar, rever a Constituição e marcar novas eleições. Entretanto, os protestos não vão parar. Mais de metade do país votou nas forças políticas que esta solução deixa fora do Governo. Aliás, é esse o maior problema que enfrenta a democracia em sociedades sem hábitos democráticos: o poder é exercido de forma patrimonial, isto é como propriedade de quem o detém e não de forma transitória e partilhada. O compromisso com as oposições, o respeito pelas minorias, o sistema de contrapoderes (checks and balances), a mudança pacífica de governo através de eleições (para Popper a chave-mestra do sistema democrático ) ainda são a excepção no mundo árabe.  Foi o que se viu no Egipto, quando a Irmandade Islâmica ganhou as primeiras eleições pós-Mubarak, e é o que se vê agora. A simples existência de eleições livres é um enorme passo a caminho da democracia, mas é apenas um passo. Faltam outros. Muitos outros. Não basta ter El Baradei no governo. Lançar a Irmandade Islâmica para a clandestinidade e levar Morsi a julgamento por corrupção ou traição (acusações provavelmente forjadas) é um enorme erro político e põe em causa a independência do poder judicial. Os próximos meses vão ser muito difíceis para a democracia egípcia.

PP

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4 thoughts on “Diário de um cínico

  1. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, a democracia no Egipto depende da conclusão da mega-barragem etípoe no Nilo Azul e da resposta dos coptas (10% da população total de mais de 80 milhões) quando os salafitas se apoderarem do Estado; o resto são conjecturas e desejos p(íf)ios.

    • ppicoito diz:

      Não me parece que os salfistas tenham força para tomar o poder sozinhos, como se viu pelas eleições (é para isso que servem as eleções. para contar os extremistas). E os coptas, como diz, são uma minoria. Pelo meio, há um mar de gente nas ruas que fará a balança inclinar-se.

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Pedro, sem água não há vida, que é como quem diz: não há rio Nilo; pelo menos, é o que a Etiópia pensa tornar-se: a EPAL irrevogável lá do sítio.
        O resto será a ONU a carpir mágoas pelo desencadeamento de uma guerra terrível com aviso prévio de lustro no enorme vale que viu nascer a humanidade e a civilização.

  2. ppicoito diz:

    è verdade, mas isso é mais uma (grande) complicação a juntar à situação interna – não é a situação interna.

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