Foi você que pediu a coadopção gay antes de ir a banhos?

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Muito instrutiva, a história aqui contada pelo Vasco Mina. Depois da aprovação na generalidade, o PSD e a esquerda preparam-se para aprovar no Parlamento a coadopção por casais  homossexuais em votação final. Entretanto, a concelhia laranja de Lisboa votou uma moção apelando ao debate público do tema antes do seu agendamento. Não houve debate nenhum no partido e na sociedade é o que (não) se tem visto. Daqui a menos de uma semana, no último dia do ano parlamentar, teremos provavelmente a coadopção a ser levada à Assembleia da República entre outros inadiáveis pendentes.

E depois queixem-se dos “carrascos” da democracia…

Acontece que isto é bastante mais sério do que uma citação infeliz. É possível que este seja o último passo antes da adopção plena por casais homossexuais, objectivo procurado pelo activismo LGBT desde a conquista do casamento. Já escrevi muito sobre isto e vou repetir-me. A coadopção, como todas as lutas LGBT, é uma questão de engenharia social. Não é uma questão de direitos humanos e muito menos de direitos das crianças. O lobby LGBT quer o reconhecimento público, por meio da acção política, de uma orientação sexual até agora reprovada pela maioria. A “normalização” pela lei muda mentalidades. Talvez não venha longe o dia em que escrever palavras como estas será criminalizado sob a acusação de homofobia.

O drama, porém, não é o avanço da agenda LGBT: é que nenhum dos actuais partidos, incluindo os de direita, se opõe a ela. Assim sendo, o eleitorado conservador dificilmente se sentirá representado pelo PSD ou pelo CDS nas “questões fracturantes”. Estes partidos serão sempre um mal menor para o seu eleitorado natural, o que, de resto, se compreende. Em certo sentido, faz parte do conservadorismo não esperar da política, e menos ainda  dos políticos, o paraíso na terra. Mas é perigoso que esse eleitorado não se sinta representado por nenhum partido – assim engrossando o número de descontentes com o actual regime.

O que  nos leva ao princípio. O PSD tem medo de perder votos debatendo as “questões fracturantes”, mas também os perde se não as debater. E perde sobretudo força ideológica: ninguém compreende que esta mudança seja aprovada com medo dos portugueses. Incluindo os portugueses de direita, que o partido trai enquanto vão a banhos.  Se o PSD não se respeita a si próprio, era bom que respeitasse um bocadinho os eleitores. Se não os quer perder, claro.

PP

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21 thoughts on “Foi você que pediu a coadopção gay antes de ir a banhos?

  1. Rui Dantas diz:

    Boa tarde,
    Não percebi: por um lado defende-se que PSD e CDS vão aceitando estas alterações por eleitoralismo, e por outro parece que a maioria (da população) reprova.
    Em que ficamos?

    • ppicoito diz:

      Desculpe, onde é que digo que PSD e CDS devem aceitar as alterações? A minha oponião é exactamente a contrária…

      • Rui Dantas diz:

        Eu não disse, claro, que defendia isso. Disse que defendia que, se o fazem, é por eleitoralismo. Ora havendo (será?) uma maioria silenciosa contra, como se explica que o PSD não tenha, por eleitoralismo, a atitude contrária?

        De resto, quanto aos direitos das minorias, acho que já disseram o suficiente lá para baixo.

  2. Hugo Rocha diz:

    “uma orientação sexual até agora reprovada pela maioria”

    Isto faz tanto sentido como dizer “uma pigmentação de pele reprovada pela maioria”. A não ser que julgue que se escolhe a orientação sexual — que é sempre definida pelos afectos e não pelas práticas: é possível ser-se inequivocamente heterossexual, por exemplo, e morrer virgem.

    Quanto à “agenda LGBT”, não me recordo jamais de ouvir alguém referir-se à adopção por heterossexuais como a agenda de quem quer que fosse. Crianças sem pais em instituições do estado + casais disponíveis para adoptar = adopção. Simples, não? (a não ser que tenha alguma informação que mais ninguém parece ter sobre o efeito nefasto na juventude de tal situação).

    • ppicoito diz:

      A pigmentação de pele reprovada pela maioria não é uma escolha, a orientação sexual é. Além de que nunca vi os negros (ou os judeus, ou os alentejanos…) exigirem o direito a adoptar por serem negros (ou judeus, ou alentejanos…).

      E se não se recorda de ouvir alguém referir-se à adopção gay como um ponto da agenda é porque tem andado muito distraído.
      Já agora, a equação que apresenta não é assim tão simples. Ao contrário da vox populi, o número de crianças em isntituições que podem ser adoptadas (ou que os casais querem adoptar) é relativamente pequeno. Daí a lista de espera.

      • caramelo diz:

        “Além de que nunca vi os negros (ou os judeus, ou os alentejanos…) exigirem o direito a adoptar por serem negros (ou judeus, ou alentejanos”

        Pedro, talvez já tenha visto (ou sabido de) negros ou judeus exigirem que os não impeçam de adotar por serem negros ou judeus.

      • caramelo diz:

        “… a orientação sexual é”

        Hã?

      • Hugo Rocha diz:

        Não é difícil perceber porque nunca viu negros, ou judeus, ou alentejanos exigirem o direito a adoptar por serem negros, ou judeus, ou alentejanos: ninguém os proíbe.

        Quanto à existência de uma agenda: usando a sua analogia, se, por exemplo, os negros fossem proibidos de adoptar, não seria normal que desejassem alterar a situação? E não seria normal que o grosso dos esforços nesse sentido viesse deles mesmos (a comunidade negra)? Acho extraordinário que a mesma pessoa que aqui escreve para lamentar a ausência de iniciativas dos partidos políticos nesta matéria use como termo pejorativo “agenda” para quem deseja acabar com a discriminação. O esforço duns é cabala, a ausência doutros é cobardia.

        A questão do nº de crianças disponíveis para adopção só serve para desviar o assunto: se não há razões científicas que justifiquem a discriminação na escolha dos pais adoptivos, porque podem uns e não outros? De novo: faria sentido proibir negros, judeus ou alentejanos por as crianças disponíveis já estarem a ser adoptadas pelos não negros, não judeus e não alentejanos?

        Você anda a dançar e a dançar mas a essência do (seu) problema é simples: não gosta da ideia de homossexuais adoptarem. Não tem nada a ver com a existência de agendas, nada a ver com consequências para as crianças (se fosse esse o caso, em vez de bailar punha factos na mesa), nem nada a ver com o número de crianças disponíveis (nem vou discutir esta parte, mas duvido muito que a totalidade das crianças acabe por ser adoptada…).

  3. Mário Machaqueiro diz:

    Não me vou estender muito sobre a questão da coadopção, que se me afigura relevar dos mais básicos direitos da criança: se esta foi adoptada por um dos membros do casal e este morre, o que fazer com ela? Entregá-la a uma instituição ou assegurar que ela possa continuar a viver com o outro membro do casal? A resposta parece-me óbvia, e isto nada tem que ver com militantismos LGBT. O que, no entanto, me perturba mais no seu texto é esta frase: «O lobby LGBT quer o reconhecimento público, por meio da acção política, de uma orientação sexual até agora reprovada pela maioria.» Apetece-me perguntar: e qual é o problema disso? Uma minoria cujo comportamento em nada afecta o livre exercício dos direitos da maioria e que, mesmo assim, tem sido objecto de discriminação em vários domínios, pretende que a sua orientação sexual seja reconhecida, isto é, aceite para todos os efeitos do exercício dos direitos de cidadania – orientação sexual que, repito, não limita ou violenta os direitos de outrém (não estamos a falar aqui de exibicionistas, de pedófilos, de violadores, de sádicos, etc.). A maioria reprova. Mas desde quando a democracia se confunde estritamente com a aprovação ou reprovação por parte das maiorias, sobretudo quando nos reportamos a questões de costumes, de moral, de gosto, etc.? A menos que a democracia, para si, seja o fundamentalismo das maiorias. Essa é capaz de ser uma concepção conservadora. Liberal não é, com certeza.

    • ppicoito diz:

      Ainda bem: não sou um liberal (no sentido que está a dar à palavra). Mas essa também não é a concepção conservadora. A questão não é o fundamentalismo da maioria: a questão é que, se isto é votado no Parlamento, a vontade da maioria devia ser pelo menos debatida. E não foi. Chama-se a isto democracia – e o processo de aprovar pela porta do cavalo contra a vontade da maioria não é lé muito democrático.
      Quanto aos direitos, não há nenhum direito à adopção. Ninguém tem direito a adoptar: as crianças é que têm direito a uma família. A luta pela adopção não é uma luta por direitos, é uma luta pelo reconhecimento social de uma minoria em que as crianças são carne para canhão. Qual é o problema? Vários. Um: as crianças são isntrumentalizadas. Dois: a adopção é rejeitada por muita gente, a quem é literalmente negado o voto na matéria. Três: este é um passo para a criminalização da “homofobia” , que passará a ser previsivelmente, mais tarde ou mais cedo, um “crime de ódio”, ou seja, um delito de opinião ou de consciência. Quarto: tudo isto é feito pela tal engenharia social (a mudança da cultura pela lei).
      Os gays foram ou são injustamente discriminados, perseguidos, reprimidos? é verdade, mas estamos a passar para uma fase de pensamento único em que quem não concorda com o activismo LGBT é condenado ao ostracismo político (por enquanto político, depois veremos o resto). E eu não gosto memso nada do pensamento único.

      • Mário Machaqueiro diz:

        Como referi, nem sequer é o direito à adopção que está em causa, mas à co-adopção, pelos motivos que mencionei. Motivos que eu diria de humanidade elementar. Já sei qual é o seu argumento: aprovar agora o direito à co-adopção é abrir a porta para que, no futuro, seja aprovada a plena adopção por casais homossexuais. Isso, porém, é uma inferência sua que nada tem que ver com o que está literal e objectivamente em causa neste momento. Guarde os seus argumentos para quando o direito a essa adopção estiver, de facto, em discussão. Agora a única coisa que se quer evitar é que uma criança seja retirada, à força, de um lar onde ela criou e construiu os seus afectos. Enrolar esta questão noutros assuntos releva, salvo melhor opinião, da desonestidade intelectual.
        Tenho muita dificuldade em aceitar que as “maiorias” se intrometam na definição dos direitos individuais e das condições do seu exercício. E julgo que uma das virtudes dos regimes democráticos de tipo liberal consiste justamente em retirar às maiorias essa capacidade de intromissão, entregando os processos decisórios respeitantes a tais direitos a instâncias de decisão política que operam segundo o princípio da separação de poderes. Estavam os negros norte-americanos “bem servidos” se, nos anos 60, as decisões quanto aos seus direitos cívicos estivessem dependentes da maioria branca dos Estados Unidos.

  4. ppicoito diz:

    Hugo Rocha, inclino-me perante o seu génio: percebeu que não gosto da “ideia de homossexuais adoptarem”. Já agora, foi da primeira vez que leu o post ou foi só à segunda?

    • Hugo Rocha diz:

      Ainda bem que estamos em sintonia: há quem não goste de pretos, outros de ciganos, você não gosta de paneleiros e fufas (ou quer que fiquem lá no cantinho deles, não venham contaminar a juventude). Sugiro apenas que de futuro evite fazer perder tempo a quem o lê com a lenga-lenga do “número de crianças”, “agenda”, “partidos políticos”, etc… dá a impressão errada de que a conversa é séria.

  5. ppicoito diz:

    Caramelo, “hã” hã?

    • caramelo diz:

      a orientação sexual é uma escolha? Não me lembro de ter pedido a minha numa carta ao menino jesus pelo natal.

      • ppicoito diz:

        O Carlos Cruz também não.

      • caramelo diz:

        Não percebi.

      • MM diz:

        E para este casalinho jovem a orientação sexual é o quê? – http://www.dailymail.co.uk/news/article-2374296/Transgender-teen-lovebirds-pose-swimsuit-shoot-having-gender-reassignment-surgery.html – Não seria surpresa se daqui a uns anos decidir(em), um deles ou ambos os dois (ou será os quatro?), reverter(em) a situação.
        Creio que a questão é a de quem adopta ter capacidade suficiente (moral, psicológica e financeira) de educar uma criança e ser responsável por essa criança enquanto fôr menor. Por mim até podiamos considerar a adopção por mais do que um casal se isso representasse maior apoio para uma criança. Na vida real isso existe, amigos, parentes e padrinhos que cooperam com os pais biológicos ou adoptivos na educação das crianças, frequentemente sem interferência do Estado e da Lei. E parece-me que o fazem para promover o bem estar das crianças e não para promover as suas orientações sexuais. Não entendi ainda esta exigência de liberdade com imposição da lei e o ruído em volta do tema. Deveríamos estar preocupados com o bem estar das crianças, adoptadas ou não, nossas e dos outros, e vejo pouca gente ocupada com esse tema. Actualmente até parece que querem que sejam elas a pagar as nossas dívidas.

  6. ppicoito diz:

    Mário Machaqueiro, já que me acusa de desonestidade intelectual (salvo melhor opinião, claro) vamos aos tais factos. Quantos crianças conhece que tenham sido separadas do “pai” ou da “mãe” porque a coadopção ainda não foi aprovada?

    • Mário Machaqueiro diz:

      Acha francamente que essa pergunta é um argumento? A lei cuja discussão está em causa destina-se a prevenir a possibilidade de uma determinada ocorrência em resultado de um vazio legal. O facto de ela não ter acontecido não constitui um contra-argumento, já que a possibilidade de acontecer se mantém.
      Eu não queria ir por aqui, mas a sua “boca”, bastante infeliz, sobre o Carlos Cruz, é bem reveladora de qual é o fantasma que subjaz à sua ansiedade relativa à possibilidade de casais homossexuais adoptarem crianças: a fantasia de que casais homossexuais masculinos vão assumir fatalmente um comportamento pedófilo na relação com a criança (de sexo masculino) que puderem adoptar. Ou seja, o fantasma é: em cada homem de orientação homossexual esconde-se um perverso pedófilo (já os casais de lésbicas não representam qualquer problema). É um delírio sem suporte empírico, mas que vai fazendo o seu caminho, mesmo se no inconfessado da prosa.

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