Whatever.

Há anos em que o mundo nos serve um prato de lentilhas, ignorando que detestamos lentilhas. Nessa altura podemos obsequiar as tulipas com um belo adubo natural. Tenho poucas filosofias de vida excepto esta convicção de que a merda que recebemos há-de ser acarinhada por outros como um presente raro e inapreciável.

Deus não colocaria tantos palermas no extremo de um continente se não lhes destinasse um papel qualquer no decreto teleológico. Seremos talvez como gramíneas, prontas a ceifar. Ou baratas que resistirão a explosões atómicas e a invernos nucleares.

Os arqueólogos do futuro visitarão as ruínas deste tempo enternecendo-se com o nosso amor à “austeridade” e a nossa esperança na “retoma”.

“Pareciam Incas a perscrutar o sol”, dirão em mandarim: “qualquer erupção era um presságio”.

“E morreram de quê?”

“É difícil saber. Fanatismo, tacanhez, credulidade, religião e pudicícia. Parece que não queriam viver “acima das possibilidades””.

“Eram estúpidos?”.

“Não, eram da “direita””.

“Direita?”.

“Sim: uma espécie de milenarismo primitivo. Sangue, sacrifícios humanos, apocalipse, essas merdas”.

“Pobres infelizes”.

“Passa-me o seitan.”

Luis M. Jorge

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5 thoughts on “Whatever.

  1. Há aí uma coisa que me faz espécie: viver acima das suas possibilidades não é em si mesmo “tacanhez” e “credulidade” (de que parecerá algo ou alguém que pagará aquilo que está acima do que posso pagar)?

    • Claro. Divida bem esse bifinho pelo resto da semana.

    • João. diz:

      Se ninguém viver acima das possibilidades de onde é que vem o lucro. Quem compra as mercadorias no terciário, na sua vasta maioria são os trabalhadores que usam para isso o salário que o capital paga. Em resumo o capital recebe de volta os salários que paga através da venda de seus produtos ao trabalho. Se no sistema o trabalho apenas gastar aquilo que recebe então o capital só recebe aquilo que paga, mas aí tem que se juntar as demais despesas de manutenção de modo que recebendo o que pagou de salários ainda assim perde dinheiro. O lucro no sistema actual, ou seja, o funcionamento do capitalismo, precisa de endividamento. Para que o capital tenha lucro é preciso que receba de volta o salário que pagou ao trabalho mais alguma coisa que cubra ainda as despesas de manutenção, etc e ainda sobre algum – e aí vem o endividamento. É preciso que o trabalho se endivide para que o capital tenha lucro.

      Basta pensar o que seria se os portugueses agora poupassem a sério durante 100 anos? Caía o capitalismo em Portugal. Haveriam quase de jogar dinheiro de avionetas para estimular o consumo. Em certa medida poupar poderia ser uma acção revolucionária.

      Por isso o governismo que tanto fala de poupança diz ao mesmo tempo que o sucesso está no regresso aos mercados de dívida. Não diz que o objectivo é deixar de necessitar de endividamento – o objectivo é que se possa continuar a endividar em paz.

      O que segue, de Marx, poderia ser história de Portugal, mas não é, é história do capitalismo:

      “The system of public credit, i.e., of national debts, whose origin we discover in Genoa and Venice as early as the Middle Ages, took possession of Europe generally during the manufacturing period. The colonial system with its maritime trade and commercial wars served as a forcing-house for it. Thus it first took root in Holland. National debts, i.e., the alienation of the state – whether despotic, constitutional or republican – marked with its stamp the capitalistic era. The only part of the so-called national wealth that actually enters into the collective possessions of modern peoples is their national debt. [7] Hence, as a necessary consequence, the modern doctrine that a nation becomes the richer the more deeply it is in debt. Public credit becomes the credo of capital. And with the rise of national debt-making, want of faith in the national debt takes the place of the blasphemy against the Holy Ghost, which may not be forgiven.

      The public debt becomes one of the most powerful levers of primitive accumulation. As with the stroke of an enchanter’s wand, it endows barren money with the power of breeding and thus turns it into capital, without the necessity of its exposing itself to the troubles and risks inseparable from its employment in industry or even in usury. The state creditors actually give nothing away, for the sum lent is transformed into public bonds, easily negotiable, which go on functioning in their hands just as so much hard cash would. But further, apart from the class of lazy annuitants thus created, and from the improvised wealth of the financiers, middlemen between the government and the nation – as also apart from the tax-farmers, merchants, private manufacturers, to whom a good part of every national loan renders the service of a capital fallen from heaven – the national debt has given rise to joint-stock companies, to dealings in negotiable effects of all kinds, and to agiotage, in a word to stock-exchange gambling and the modern bankocracy.”

      http://www.marxists.org/archive/marx/works/1867-c1/ch31.htm

  2. caramelo diz:

    João, você, com franqueza, não devia terminar as suas intervenções com links para marxists.org, net ou com. É a mesma coisa que eu agora estar a escrever sobre música e fazer ligação para sites de aulas de foxtrot dadas por serial killers. Para a próxima, opte por este: somemarxistshitwecanagreeon.org. É um site que tem frequentes problemas de ligação, mas tem os mesmos textos e é um pouco mais respeitável.

    • João. diz:

      Uma aula de Richard D. Wolf, professor americano, autodenominado socialista, sobre uma visão marxista da crise: “Capitalism Hits the Fan: A Marxian View” (a meu ver são 40 minutos interessantes).

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