Parsifal no Midwest (4)

To-The-Wonder

A assimiliação entre o amor humano e o amor divino proposta por Malick, como vimos, aproxima as palavras de Marina na sequência incial da literatura mística cristã. É uma das chaves do filme, um verdadeiro refrão omnipresente e explícito, por exemplo nas homilias do Padre Quintana (“despertem o amor, a presença divina em cada homem e mulher”) e também na recorrente metáfora do amor como uma ascensão que o casal faz de início sem esforço, impelido pelo desejo, mas que exige, fora do paraíso original, uma permanente purificação sem a qual não sobrevive: “quando receamos ter perdido o amor, talvez esse amor esteja à espera de ser transformado em qualquer coisa mais alta” (Quintana, mais uma vez).

Na visão de Malick, o amor não é apenas o sentimento passageiro que os amantes experimentam intensamente ao princípio, mas o esforço impossível, ou só possível graças à “presença divina em cada homem e mulher”, por mantê-lo vivo apesar da passagem do tempo, da usura da vida a dois, do limite imposto pelo nosso egoísmo. Como diz Quintana, sempre a voz do realizador, “o amor não é apenas um sentimento – é um dever. Tu dizes: não posso mandar nos meus sentimentos, eles vão e vêm como nuvens. Ao que Cristo responde: amarás, quer gostes ou não.” (“You say: I can´t command my emotions, they come and go like clouds. To that Christ says: You shall love, whether you like it or not.”)

As nuvens, como os elementos esplendorosamente filmados por Malick, são uma metáfora da efemeridade do amor que nasce do instinto, mas ao cenário-personagem da natureza opõe-se o verdadeiro amor, que nasce de uma demanda do coração. Assim nos diz a música, outro nível de sentido indispensável. Há três melodias, em especial, que se repetem e funcionam como eixos estruturantes de toda a narrativa. (Nota: devo ao meu amigo Carlos Pontes Leça, musicólogo e cinéfilo, a sua identificação.)

A primeira é o Prelúdio do Parsifal de Wagner, que surge a acompanhar a voz off de Marina quando esta e Neil, depois da subida pelas ruas medievais, entram na igreja e no claustro do Mont Saint Michel.  Banda sonora escolhida a dedo, como acontece sempre em Malick. De todas as óperas de Wagner, Parsifal é precisamente aquela em que a simbologia cristã mais se evidencia, ao ponto de Nietzche ter ficado furioso com o compositor pela sua aparente deriva religiosa. A aventura wagneriana de Parsifal, o cavaleiro puro e inocente que sucede ao rei Amfortas na posse do Graal, o cálice de Jesus na Última Ceia, simboliza o esforço de ascese que permite chegar ao amor “mais alto”. Amfortas, chefe dos guerreiros virgens que devotam a vida à guarda do Santo Graal no Mont Salvat (o “monte salvo”, outra imagem do paraíso), não pode, contudo, olhar para esse símbolo do ideal cristão sem sentir a dor de uma ferida antiga nos flancos, recebida em combate como castigo por se ter deixado seduzir pela feiticeira Kundry, que tenta também seduzir Parsifal (sem sucesso). Kundry representa a tentação da carne, Amfortas o pecador que cai, a ferida nos flancos o castigo divino, Parsifal  o amor puro.

O mesmo Prelúdio do Parsifal volta quase no fim do filme, depois de Neil e Marina irem viver para casa dele, no Oklahoma, depois de uma separação em que ela volta a França, depois da reconciliação e do casamento civil e religioso, depois de uma cena fortemente simbólica em que  ela se confessa (“Perdoe-me, Padre. Magoei muita gente, mas sei quem sou”, exacto reverso do Parsifal wagneriano, um inocente que repete não saber quem é…) e comunga do cálice eucarístico, alusão transparente ao Graal. Depois de tudo isto, vem um anticlímax que o Prelúdio acompanha: o adultério de Marina com um vizinho anónimo, que a seduz oferecendo-lhe um instrumento musical, sexo casual num motel barato, traição ao amor divino e ao amor humano que é mais fruto do tédio do que da paixão. Pormenor curioso, a parte do corpo do amante que Marina beija primeiro é uma tatuagem no peito, uma teia de aranha com uma caveira no meio, imagem do pecado que aprisiona a alma e lhe dá a morte.

O Prelúdio do Parsifal de Wagner faz-se ouvir assim no momento mais alto do amor de Neil e Marina, no Mont Saint Michel, cume físico e simbólico da sua paixão, e no momento mais baixo, o adultério na América que precipita o fim do romance e do filme.  Música insinuante e grandiosa, marca o princípio e o fim da narrativa como um eco ou uma citaçaõ interna. (cont.)

PP

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