Monthly Archives: Julho 2013

Revitalizar por aí

Estes tempos são um maná para a semiótica. Na proposta do PS, apresentada no plano para salvar Veneza ( o meu caríssimo Jorge  de Sousa Braga não se importa) :

1.4.8.
Salvar empresas
Alteração à Lei Geral Tributária para viabilizar os PERs
Processos Especiais de
Revitalização, que têm vindo a ter na
Administração Fiscal um forte obstáculo à

salvaguarda de postos de trabalho e de valor (capital fixo)

O PS tem razão. O Sporting anda a fazer isto, revitalizar, ou seja, despedir funcionários.

FNV

Calor sólido ( X)

Centro de  Desemprego. 10.00h. Um técnico grande  e um utente magro.

– Então  diz o senhor que tem currículo…

– Tenho. Estive dois anos e meio desempregado, embora  com subsídio, depois consegui ficar três anos  totalmente   desempregado.

– Não  minta, não minta…

-Eeeehhh …

– Está aqui, pá, está aqui. Vocês esteve três meses na Churrascaria Abreu, pá, três meses…

– Mas…pois foi, uma falha, eu sei, mas só despejava o lixo e assim…

– Cale-se, pá, cale-se pá. Bem, não é vergonha por aí além, pronto, foram só três meses.

– Não volta  a acontecer..

– Espero bem que não.  Como é que vos podemos  ajudar se se põem para aí  a trabalhar? Como é que fazemos o ajustamento?

FNV

Com as etiquetas

Bonito, bonito

É começar  uma frase com “portanto”:

Portanto, está na altura de meter o Dr. Soares na gaveta.

Ainda mais bonito é constatar a urticária que um reformado de  noventa  anos consegue provocar

FNV

Foi você que pediu a coadopção gay antes de ir a banhos?

th

Muito instrutiva, a história aqui contada pelo Vasco Mina. Depois da aprovação na generalidade, o PSD e a esquerda preparam-se para aprovar no Parlamento a coadopção por casais  homossexuais em votação final. Entretanto, a concelhia laranja de Lisboa votou uma moção apelando ao debate público do tema antes do seu agendamento. Não houve debate nenhum no partido e na sociedade é o que (não) se tem visto. Daqui a menos de uma semana, no último dia do ano parlamentar, teremos provavelmente a coadopção a ser levada à Assembleia da República entre outros inadiáveis pendentes.

E depois queixem-se dos “carrascos” da democracia…

Acontece que isto é bastante mais sério do que uma citação infeliz. É possível que este seja o último passo antes da adopção plena por casais homossexuais, objectivo procurado pelo activismo LGBT desde a conquista do casamento. Já escrevi muito sobre isto e vou repetir-me. A coadopção, como todas as lutas LGBT, é uma questão de engenharia social. Não é uma questão de direitos humanos e muito menos de direitos das crianças. O lobby LGBT quer o reconhecimento público, por meio da acção política, de uma orientação sexual até agora reprovada pela maioria. A “normalização” pela lei muda mentalidades. Talvez não venha longe o dia em que escrever palavras como estas será criminalizado sob a acusação de homofobia.

O drama, porém, não é o avanço da agenda LGBT: é que nenhum dos actuais partidos, incluindo os de direita, se opõe a ela. Assim sendo, o eleitorado conservador dificilmente se sentirá representado pelo PSD ou pelo CDS nas “questões fracturantes”. Estes partidos serão sempre um mal menor para o seu eleitorado natural, o que, de resto, se compreende. Em certo sentido, faz parte do conservadorismo não esperar da política, e menos ainda  dos políticos, o paraíso na terra. Mas é perigoso que esse eleitorado não se sinta representado por nenhum partido – assim engrossando o número de descontentes com o actual regime.

O que  nos leva ao princípio. O PSD tem medo de perder votos debatendo as “questões fracturantes”, mas também os perde se não as debater. E perde sobretudo força ideológica: ninguém compreende que esta mudança seja aprovada com medo dos portugueses. Incluindo os portugueses de direita, que o partido trai enquanto vão a banhos.  Se o PSD não se respeita a si próprio, era bom que respeitasse um bocadinho os eleitores. Se não os quer perder, claro.

PP

Nada é a preto e branco. Nem mesmo na América

The February 26 shooting death of Trayvon Martin, 17, at the hands of George Zimmerman, 28, a neighborhood watch captain who said he acted in self-defense, has riveted the nation, largely because of race. Trayvon Martin was black. George Zimmerman is white and hispanic.

A mania americana de ver a raça em tudo, trocando a luta de classes da velha Europa por uma luta de cores pós-colonial, explica-se pelo passado, mas não ajuda a perceber o presente.

Por exemplo. Nas notícias sobre a morte de Trayvon Martin e a absolvição de George Zimmerman, há duas coisas que eu, pobre europeu, não entendo .

A primeira: desde quando é que os hispânicos da América passararam a ser “brancos”? Desde que começaram aos tiros aos negros?

A segunda: ninguém pergunta, sobretudo aos jurados que absolveram Zimmerman, se é legal um cidadão fazer de polícia privado, pôr uma pistola à cinta e seguir pelas ruas quem lhe parece “suspeito”?

PP

Calor sólido ( IX)

O traficante abrigou-se debaixo do arco da governabilidade. Era um enorme pórtico com inscrições alusivas aos feitos da cidade. Um a um iam  chegando os clientes. Uma  jovem prostituta, vestida de freira, aproximou-se e soltou uma imprecação: Acreditem e percam-se.

O tempo piorou e, a certa altura, mais gente se juntou  sob o arco. Galinhas, jornalistas de economia, duas amibas e um ex-revolucionário cujo Mercedes avariara. O traficante pôs ordem na situação. Distribui tarefas, sossegou os perplexos e curou os cegos.

Quando as televisões  chegaram, o governo estava feito.

 

FNV

Com as etiquetas

Blow up

Celso Cruzeiro lança ainda “um grito de amargura, desconforto e revolta perante o modo como a Relação decidiu confirmar a decisão de primeira instância”, afirmando que os juízes desembargadores “não respeitaram” a matéria de facto dada como provada, que “foi claramente falseada em interpretações subjetivas e inadmissíveis“.

Muitas “interpretações subjectivas”  e com  um filme em que o homem, com a neta  ao colo,  mata o ex-genro ( e pai da neta). O que me fascina  é pensar como Celso Cruzeiro classificaria as interpretações   se não houvesse filme.

FNV

A registar

Recuperação do clima económico.

Pode  ser muito ou pouco relevante , mas, por agora, é disto que se trata. O resto é para entreter a multidão de politólogos.

FNV

Diário de um cínico

APTOPIX Mideast Egypt

No Cairo, tomou ontem posse um governo interino formado por liberais, antigos apoiantes de Mubarak e até um ex-ministro de Morsi, mas sem o apoio da Irmandade Islâmica, que não lhe reconhece legitimidade, e dos salafistas, que se afastaram depois do golpe militar. Tem pela frente os trabalhos de Hércules: pôr a economia a funcionar, rever a Constituição e marcar novas eleições. Entretanto, os protestos não vão parar. Mais de metade do país votou nas forças políticas que esta solução deixa fora do Governo. Aliás, é esse o maior problema que enfrenta a democracia em sociedades sem hábitos democráticos: o poder é exercido de forma patrimonial, isto é como propriedade de quem o detém e não de forma transitória e partilhada. O compromisso com as oposições, o respeito pelas minorias, o sistema de contrapoderes (checks and balances), a mudança pacífica de governo através de eleições (para Popper a chave-mestra do sistema democrático ) ainda são a excepção no mundo árabe.  Foi o que se viu no Egipto, quando a Irmandade Islâmica ganhou as primeiras eleições pós-Mubarak, e é o que se vê agora. A simples existência de eleições livres é um enorme passo a caminho da democracia, mas é apenas um passo. Faltam outros. Muitos outros. Não basta ter El Baradei no governo. Lançar a Irmandade Islâmica para a clandestinidade e levar Morsi a julgamento por corrupção ou traição (acusações provavelmente forjadas) é um enorme erro político e põe em causa a independência do poder judicial. Os próximos meses vão ser muito difíceis para a democracia egípcia.

PP

Agoge e rhetra

De entre os muitos textos que se publicaram sob o signo do “sim, mas”, escolhi este. Gosto do blogue e achei o  texto equilibrado. Discordo e explico:

Temos de ter uma compreensão  ontológica das coisas. O nível actual de  protesto e revolta em Portugal é baixíssimo relativamente à dureza das imposições governamentais. Estas algazarras na AR são um preço muito barato a pagar pela reputação da casa ( usando uma expressão em voga), Mais, são uma encenação, em segurança, de algo muito pior que poderia  acontecer e, nesse sentido, são um espectáculo e um escape.

A reacção e a explicação foram uma vergonha, sim. Começa porque partiram do segundo magistrado da nação,  que exibiu um nível de raciocínio infraescolarizado. E  continua porque o coro de indignados ( não o autor do texto citado) exibiu uma raiva primária contra Avoila e Nogueira ( contra este dando seguimento ao que se passou na greve dos professores).

Ou seja, querem omeletes sem partir ovos. Querem um ajustamento brutal sem ondas. Já sei que me vão dizer que nas galerias da AR estavam agitadores profissionais. Pois estavam. Representantes de pessoas e de ideias. Como o são Ulrich ou  António Borges.

FNV

Ao contrário dos comentadores (3).

Debaixo da pata afectuosa do Crespo cavaqueia um bertoldinho socialista com o “facilitador” José Luís Arnault. Entre os saracoteios habituais do rito partidário despontam interessantes harmonias. Num pântano da orla suburbana de Lisboa já coaxa nos nenúfares o sapo gordo, rutilante, que saciará o apetite dos nossos analistas.

O “diálogo” inter-partidário chegará a bom porto? Talvez, leitor.

Tanto o PS como o PSD têm motivos para alcançar um acordo. O PSD ganha tempo para governar, ensombra o CDS e partilha a responsabilidade do seu fracasso com o maior partido da oposição.

O PS ganha tempo para conquistar o poder, prepara subtilmente o povoléu ignaro para as concessões que fará aos credores e despeja um ano de trabalho sujo no regaço do PSD.

O CDS, muito enfraquecido pela birra da criatura genial que o dirige, recupera forças e, com alguma sorte, alcança um estatuto de charneira que lhe permite manter os motoristas.

Se o eleitorado alinha? Alinha quase sempre.

Luis M. Jorge

Minoria silenciosa ( Nixon perdoa)

Porto de Sines bate recorde absoluto de carga.

Bem,  talvez  fosse melhor  alguma discrição. Há  gente que  não gosta de boas notícias.

FNV

Novas, nem por isso (3).

1. Bill Frisell, The Music of Glen Deven Ranch

2. The XX, Night Time.

3. Peven Everett, Spinning.

4. The Divine Comedy, Our mutual Friend.

Luis M. Jorge

Com as etiquetas

Estes é que deviam

Fazer  a reforma do Estado.

E mais: são só a primeira divisão.

FNV

Cacholetas, pavanas, lostras…

Miguel Tiago, Hitler, Putin, tudo desidratado.

Não é por nada, mas tanta festas de marmeleiro no teclado correspondem a sossego nas ruas. Como se vê.

FNV

Calor sólido ( VIII)

O mediador foi servido em cama de fava penca da Nigéria e salpicado com jus de jaquinzinhos macerados em vinagre de mirtilo. Um dos comensais declarou: Muito bom, mas já comi  melhores. E contou a célebre anedota do mediador que antes de ser já o  era.

Quando foi servido  o Caol Ila, bateram à porta. O secretário informou os presentes que, devido à crise das  toxinas,  todos teriam de passar no hospital para fazer análises. O conviva mais idoso suspirou: Nunca se chega ao bolo-rei depois de um mediador.

FNV

Com as etiquetas

Línguajar.

Um homem hoje em dia não compra tomates, compra tomate, por causa da chalaça. Também não se põe numa bicha mas numa fila, não vá o diabo. E parece-me já muito distante a inocência de duas tias-avós que há uns anos, defronte de uma montra da Baixa, exclamavam entre elas:  “Ó Maria José, que lindo broche!”. “Tens razão, Lurdes. Tenho visto poucos broches assim”. Ontem estava uma velha na rua a mirar um menino, e comentou: “Ai, que menino tão bonito. Tão bonito… Dá vontade de comer!”

Põe-te a pau, velha.

Luis M. Jorge

Há testemunhas

–  Vou subscrever a Benfica TV. São só 9,95 .

– O quê?  Então e a SportV?

– Não dá os jogos fora .

– Fora? Fora de onde? Da selecção?

– De casa, irra.Do campeonato.

–  Então por que é que  Vieira não compra esses? Ia um a um e comprava, homessa!

– Não pode, não é? Os outros clubes vendem à SporTV.

– O quê?? A SporTv mais estes 9.95???

– Ficamos  também com a liga inglesa, queridinha..

– Então. .lá está!!! Se o Vieira compra os jogos que o Benfica faz fora  com os ingleses, também podia comprar com os outros de cá, não é?

FNV

Pedro Lomba nos bons tempos

E é uma dignidade acrescida pelo sentido de entrega que é superior ao do cidadão comum, à das pessoas que estão habituadas às suas vidinhas’. Está a Dra. Assunção a dizer que a “dignidade” de um deputado é “acrescida” face ao cidadão comum? Que a “entrega” de um deputado é “superior” ao do cidadão comum que aguenta há décadas em silêncio os vexames de uma democracia partidária de videirinhos? Quer maior “entrega” do que essa?”.

(via Insurgente)

Lembrava-me desta, mas quis  que fosse imaginação  minha.Quando todos sabemos  como são escolhidos , e o que fazem realmente, pelo menos, dois terços dos deputados, apensar-lhes dignidade superior à  de um bombeiro, de um cirurgião  pediátrico, de um voluntário da AMI, diz tudo sobre a abelha maia.

FNV

Qual reputação?

“Prefiro ter de pagar um preço de reputação nas vossas intervenções, a não fazer o que posso e devo para um futuro melhor.”

Portas, o Irrevogável

Calor Sólido ( VII)

Algures na Mongólia Exterior, o argali  desafiador esfregava os enormes cornos doridos. O rival já se reunia ao grupo de fêmeas, impante e imaculado, depois da marrada certeira ferrada no pretendente.

O argali  vencido aproximou-se do grupo e pediu um segundo de atenção ao rival vitorioso. Deixa-me ficar aqui. Doravante serei uma delas. O rival , atónito, exigiu explicações. O vencido anuiu: Prefiro pagar pela reputação do que perder os cornos.

FNV

Com as etiquetas

A união.

Aflito com a grande discórdia que descera sobre a terra, o presidente apareceu aos partidos e proclamou uma nova era de leite e mel e harmonia. “Em verdade vos digo que aborreço as vossas preces. Exibis os modos de um pastor, mas sois ovelhas tresmalhadas  aos olhos do altíssimo. Por isso vos ordeno que abandoneis a chicana e entendai-vos”. Assim falou o presidente Cavaco.

Em Ninive e Babilónia reuniram-se os anciãos com as famílias e choraram muito e esconderam as vergonhas ao ouvir a voz do presidente. “De que valem os sacrifícios”, bradaram entre eles, “se nos ordenam para renunciar às tradições? Teremos porventura de unir em heresia aquilo que a santidade dos propósitos apartou?”

E assim se quedaram três dias, comendo e bebendo e orando um bocadinho até que um deles se ergueu defronte da fogueira e anunciou: “Unamo-nos, irmãos”. E todos em uníssono o acompanharam levantando as vozes: “Unamo-nos!” E na manhã seguinte caminharam até Jerusalém e entraram nas portas marmoreadas da cidade, e atravessaram as praças que o sol afogueava, e passaram por um mercado onde o vinho jorrando dos odres inebriava os camponeses, e acharam o palácio revestido a ouro e lápis-lazúli que albergava o presidente, e lá dentro, acercando-se do trono, num derradeiro sacrifício depositaram a seus pés a cabeça de quem o ocupava, e agradeceram ao torso decepado  que os unira, chamando-os à razão.

Eis a palavra do senhor.

Luis M. Jorge

Les Deux Magots

Os passistas já deviam saber que é perigoso citar a malta da Rive Gauche. Primeiro foi Passos a ler livros que Sartre nunca escreveu, agora é Assunção Esteves  a chamar “carrascos”a manifestantes como a Beauvoir fez aos nazis.

Uma metáfora, claro.

E se Relvas pede equivalência às barricadas do Maio de 68 por cinco minutos nas escadarias do Parlamento? E se Montenegro começa a dizer que prefere errar com Gaspar a ter razão com Aron? E se Abreu Amorim  ordena a Camus e aos “pieds-noirs” que se ajoelhem diante da coligação?

Pois é, o inferno são os outros.

PP

Orelhas moucas

Todos os analistas e politólogos achavam óbvio que o PR engoliria a salada russa cozinhada à pressa. Agora acham que era óbvio que não engoliria ( medalha de ouro para Bagão Félix) .

Um anónimo provinciano,  este sinceramente vosso,  escreveu a tempo que só se Cavaco se quisesse suicidar politicamente é que aceitava o cozinhado. Não aceitou, mas, à portuguesa, temeu ouvir o povo. Compreendo. A resposta do povo confunde muito os actores políticos. Em 1975, sem os media nas mãos dos tubarões da alta finança,  e sem chantagem do FMI,  o povo remeteu o PCP e a extrema-esquerda para a cauda da votação. Muitos anos mais tarde, Edite Estrela explicou-nos que o povo era demasiado burro para se  pronunciar sobre Maastrich.

Ou seja, e por muito que custe, ouvir o povo não significa que o povo resolva: significa apenas ouvi-lo. É aí que tudo começa, ou , regressando a Simónides, a pólis é a mestra do homem.

FNV