O Crivelli e algo mais

Isto é um bom exemplo da ideologia de seita que, entre nós, passa por liberalismo (não confundir com o liberalismo clássico). Como política, interessa-me tanto como o comunismo ou o fascismo. Unidimensional, também prega duas ou três fórmulas simplistas e diz que são a solução para  todos os nossos problemas. Se os comunistas viam o problema na burguesia e os nazis nos judeus, os neoliberais vêem o problema no Estado: suprimido este, espera-nos o paraíso. E se os comunistas viam a solução na ditadura do proletariado e os nazis na raça ariana, os neoliberais vêem a solução no interesse individual: triunfando este, espera-nos o paraíso. O tipo de pensamento utópico é o mesmo. De resto, a invocação de Thatcher chega a ser um pouco ridícula. Em Inglaterra, a limitação de venda para o estrangeiro de “obras de arte e outros objectos de interesse cultural” existe desde 1952, ano em que foi fundado o Reviewing Commitee on the Export of Works of Art, comissão de especialistas dependente do Arts Council que aconselha o Governo na matéria. Thatcher, que era mais proteccionista do que julgam os seus autoproclamados herdeiros, não acabou com este exercício de “despotismo esclarecido”.

Mas vale a pena notar o erro principal do post, entre outras razões porque este liberalismo sectário e simplista tem sido a base ideológica, se assim podemos chamar-lhe,  de muitos erros do actual Governo – também no caso Crivelli. E esse erro é pensar que o património apenas diz respeito a algumas “mentes esclarecidas”, e portanto a maioria da população não deve pagá-lo através do Estado, quando o património é um sector de interesse público tão decisivo como a justiça, a defesa, a segurança, a saúde ou a educação. A frase que acabo de escrever nada tem de evidente. Compreender a função social do património exige uma sensibilidade sempre em risco de corrosão pelo individualismo, esse sentimento típico das democracias que “não só faz esquecer a cada homem os seus antepassados, como lhe esconde os seus descendentes e o separa dos seus contemporâneos, reconduzindo-o incessantemente a si próprio e ameaçando encerrá-lo na solidão do seu coração”, como escreveu o sempre útil Tocqueville. Mas o património é um dos conteúdos mais visíveis (até pela sua materialidade) do contrato entre vivos, mortos e vindouros que define, segundo Burke, a própria sociedade. É por isso que todos somos responsáveis pela sua conservação e transmissão, tal como somos todos responsáveis pelo bem comum. Se rejeitarmos este conceito como uma abstracção vazia, nada do que acabo de dizer faz sentido. Não teríamos nenhum dever para com o património cultural. Acontece que esta doutrina não é apenas errada: é perigosa. Levada à prática, tornaria a vida em sociedade impossível e sujeitar-nos ia à lei do mais forte. Se não temos nenhuma responsabilidade pelo bem comum, o que é nos obriga a respeitar a lei? Apenas a força – do Estado, dos grupos ou dos indivíduos.

Foi o que aconteceu no caso Crivelli. Em nome do respeito pela propriedade privada, nem Pais do Amaral nem Viegas entenderam ter a responsabilidade de manter o quadro em território português. Decisão “ideológica”, que ignorou todos os pareceres técnicos e prejudicou os antigos proprietários.  Não é ilegal, mas levanta dúvidas éticas e políticas. E se Pais do Amaral agiu apenas no interesse próprio, como seria de esperar, a decisão de Viegas, tomada no exercício de funções públicas, merece ser escrutinada. Como foi, na imprensa e no Parlamento. Que Viegas ache isto uma “palhaçada” não abona a seu favor. O argumento principal (embora se possam ler outros nas entrelinhas) foi sempre a falta de dinheiro para comprar o quadro. Permito-me discordar. Uma migalha do que o Estado português vai pagar pelo novo e dispensável Museu dos Coches, ou pelos swaps, PPPs e BPNs, chegava para o Crivelli – mesmo a preços inflacionados pela incúria do mesmo Estado que não comprou o quadro por um terço do valor actual.  Graças a Sócrates, mas não só, a gestão do património português nos últimos anos é um case study de prioridades erradas. O que nada tem a ver com dinheiro ou falta dele, mas com ideologia ou excesso dela. Agora a ideologia mudou, mas isso não me tranquiliza. Só peço o mínimo de respeito civilizado pelo património, que é de de todos e não apenas de alguns. Seja qual for a ideologia do poder de turno.

PP

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15 thoughts on “O Crivelli e algo mais

  1. A. Lobo diz:

    «Eu só peço algum respeito pelo património, que é de de todos e não apenas de alguns. Seja qual for a ideologia do poder de turno.» escreve o Pedro Picoito
    Eu não diria melhor pese ser de opinião que antes do respeito ao património deve estar o respeito pelas pessoas e pelas suas necessidades e neste momento a escassez de quase tudo, até de bom senso, é imensa.

  2. manuel.m diz:

    Em nenhum lugar como no Reino Unido é mais aparente a contradição entre aqueles que são meramente neo-liberais e os que podemos chamar de Conservadores, ou de direita.
    Para os primeiros, de olho no lucro, tudo tem um preço, enquanto que para os segundos há fronteiras que não se cruzam, valores que não se negoceiam.
    É por isso que Margaret Thatcher sempre se recusou a vender o Royal Mail por dizer que a cabeça da Raínha, (a que figura nos selos), não podia ser objecto de comércio, e é por isso que o presente Governo, putativo herdeiro de Mrs. Thatcher, acaba de anunciar essa privatização que ela sempre negou.
    Porém a defesa do património cultural ainda continua bem viva porque nada é mais essencialmente colectivo e nacional que ele, e à sua preservação estão afectados os lucros da Lotaria Nacional (incluindo o Euromilhões…) e, a dar-se aqui, o que se passou com o quadro de Crivelli teria originado uma tempestade politica com custos não pequenos para aqueles que seriam vistos como meros vendilhões do Templo.

  3. Bone diz:

    Concordo consigo em quase tudo, mas penso que começa mal: equiparar o comunismo ao nazismo e este neoliberalismo de pacotilha que nos desgoverna não lhe parece demasiado “sectário e simplista”?

    • ppicoito diz:

      Sim, é uma caricatura. O comunismo e o fascismo são muito mais complexos do que o neoliberalismo. E não estou a dizer que os neoliberais são fascistas ou comunistas. Estou a dizer que têm a mesma estrutura de pensamento utópico: eliminado um obstáculo, que só a maldade sustenta, resolvem-se todos os nossos problemas.

  4. […] porquê este epílogo introdutório a Aunt Sally? Porque este artigo do Pedro Picoito é todo ele uma metamorfose kafkiana dessa tia querida, inoportuna e escusadamente maternalista, […]

  5. […] perceber qual é exactamente o argumento do Pedro Picoito em relação à exportação de obras de arte, fiquei na dúvida. Se o critério é que cada obra […]

  6. Surprese diz:

    Olha que interessante: fiquei a saber que Crivelli era português, pelo que a sua venda ao estrangeiro seria uma perda de património nacional que devemos impedir.

    Ahh, mmmh, afinal… Ups!

    • ppicoito diz:

      O Crivelli faz parte do património português porque está em Portugal. Tal como as centenas de bens cultuaris de origem estrangeira que estão em Portugal. Também quer vender as tentações de Santo Antão do Bosch a um comprador estrangeiro?

  7. Justiniano diz:

    O que me parece é que o caro Picoito se apoia na insanidade eventual da posta a que vem dar resposta (eventualmente) para medir as razões do FJV. Manifesto exagero!! Pois que as razões do FJV nada têm que ver com as dos tais insurgentes e, de outro modo, tudo têm a ver com as razões de Burke e de Tocqueville.

  8. andre diz:

    ppicoito antes de vender o seu carro consulte-me por favor que eu não tenho nenhum e isso não é seu.

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