Diário de um cínico

O massacre do Cairo mostra que os generais preferem restaurar a autoridade do Estado pela força a salvar o que resta do processo democrático pela negociação. Não é exactamente uma surpresa e o próximo passo talvez seja dissolver a Irmandade Islâmica. A comunidade internacional fechou os olhos à ilegalidade do golpe porque temia a islamização do país, mas agora é a própria democracia que está em risco. Suponho que ninguém acredite, depois dos acontecimentos dos últimos dias, que a Irmandade e o exército se vão sentar calmamente a discutir subtilezas constitucionais.
O grande paradoxo continua a ser a mesmo desde o início da Primavera árabe. Por todo o Médio Oriente, as eleições livres trazem a vitória dos partidos islâmicos, enquanto a laicidade e os direitos das minorias são apenas assegurados por ditaduras militares. É possível ultrapassar este dilema?
Entretanto, a violência só serve aos extremistas dos dois lados. A perseguição da Irmandade Islâmica vai beneficiá-la aos olhos de todos (no Egipto e no estrangeiro), ao mesmo tempo que impossibilita qualquer solução negociada durante muitos meses, talvez anos. Até um general sabe isso.
Ou seja, a brutalidade do exército é perfeitamente consciente e visa provocar uma resposta igualmente violenta dos apoiantes de Morsi – já está a acontecer, com os ataques aos cristãos- para depois a tropa surgir como garante da paz, da segurança e da salvação da pátria.
Não acredito que voltemos ao regime de Mubarak, mas há hoje menos esperança num final feliz do que há dois anos.

PP

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2 thoughts on “Diário de um cínico

  1. Justiniano diz:

    Mas, caro Picoito, isto – ” já está a acontecer, com os ataques aos cristãos- .” já acontece há muito e têm-se intensificado as tensões com o Cristianismo Egípcio. Dir-se-á que se têm intensificado as tensões de grande parte dos egípcios com a história do Egipto. Reescreve-se uma história e extirpa-se a memória e o saber. E assim tem sido desde o tirocínio de Morsi. À irmandade apenas interessa a meta-política. Pouco sabem e pouco cuidam do Egipto estrutural. A disfuncionalidade crescente da infra estrutura, e consequentemente da sociedade e da economia. Os dados são evidentes. A diminuição da produção, da energia eléctrica ao trigo, e a contínua quebra dos serviços públicos essenciais. Descontrolo financeiro. Incompetência desgraçada.
    O Egipto galopava em direcção ao equador, não que de lá estivesse muito afastado mas, todavia, a distancia era confortável. O trilho traçado dirigia-se ao insuportável!! Apenas aqueles animados de um misticismo primitivo, apocalíptico e verdadeiro o poderiam suportar!!
    Espantam-me os pressurosos do princípio democrático. Mas qual o Estado, que não seja apenas sítio, deste mundo, onde o princípio democrático não decai ante a virtude dos princípios das Repúblicas e dos Reinos!!??

  2. A. L. diz:

    O costume; coitadinhos dos que criaram/criam a instabilidade no Egipto: a comunidade islâmica.
    Os culpados: o exército e os que antes da sua intervenção se manifestavam nas ruas contra Morsi.
    Não há meio de perceberem que a desordem não se pode tratar com com rebuçados, a desordem é contra a ordem e Morsi não quer a ordem mas a desordem.

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