O efeito de Lúcifer

Uma semi-treta psicológica. No Depressão Colectiva.

FNV

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9 thoughts on “O efeito de Lúcifer

  1. floribundus diz:

    costumam dizer ‘tem mau vinho’. puro engano: o vinho é que exibe a maldade.
    os 10 mandamentos evidenciam que a Igreja quer transformar os maus em bons. os monstros aparecem em vez do bom selvagem.
    a mim sempre invejaram tudo o que tive, excepto o meu trabalho

    • fnvv diz:

      “costumam dizer ‘tem mau vinho’. puro engano: o vinho é que exibe a maldade”.
      exacto. O Freud ( tardio…) dizia mais ou menos isso.

  2. Comunista diz:

    Falando em Freud li há dias “O mal-estar na civilização”. O homem é um génio. Ele captura muito bem algo dos mecanismos básicos não só da consciência enquanto tal como do que podemos dizer as suas aflições. A relação da consciência com a renúncia instintual, como é dito na tradução que li, é muito curiosa – na minha interpretação a auto-consciência e o seu mundo (família, cultura, arte, política) tem na base uma renúncia ao instinto que por sua vez só o medo, para Freud, seria capaz de despertar, ou seja, a consciência primeiro é o medo da morte talvez, tal como Hegel já sugere na sua fenomenologia do espírito ao falar na morte como o mestre soberano e o medo dela como princípio negativo da auto-consciência:

    “For this consciousness was not in peril and fear for this element or that, nor for this or that moment of time, it was afraid for its entire being; it felt the fear of death, the sovereign master. It has been in that experience melted to its inmost soul, has trembled throughout its every fibre, and all that was fixed and steadfast has quaked within it. This complete perturbation of its entire substance, this absolute dissolution of all its stability into fluent continuity, is, however, the simple, ultimate nature of self-consciousness, absolute negativity, pure self-referrent existence, which consequently is involved in this type of consciousness.”

    http://www.marxists.org/reference/archive/hegel/works/ph/phba.htm (paragrafo 194)

    Mas voltando ao Freud vale a pena ler o tratamento que ele dá à sua hipótese e os impasses com que nos defrontamos enquanto consciências – a renúncia ao instinto permite a vida da consciência mas esta renúncia, uma vez que está na base da consciência passa a ser fundamental para o seu subsistir de modo que há algo aí na renúncia que é o simples tributo pago pelo ser consciente (auto-consciente); então, enquanto eu renuncio a uma reacção instintiva em favor de um qualquer valor civilizavional não é só esse valor que conta há nessa renúncia o tributo à pura reprodução da auto-consciência – parece-me que é este excedente que reflui para a pura reprodução da auto-consciência, e que portanto não é todo dedicação aos valores da civilização, que está na base da subsistência do Super-Ego – este excedente que conhecemos por sentimento de culpa que inclusive actua ainda antes de qualquer acto efectivo, ou seja, actua já ao nível do pensar em fazer antes ainda do fazer.

    Como o Super-Ego precisa também de se reproduzir para que por seu intermédio se reproduza a auto-consciência, o próprio super-Ego tem que subtrair desta renúncia que reflui para a reprodução da auto-consciência algo para a sua própria reprodução – conhecemos isto, julgo eu, pelo medo moral, da perdição eterna, do choro e ranger de dentes e o que é curioso é que funciona mesmo que saibamos destes mecanismos e funciona pelo significante, ou seja, pouco importa se realmente acreditamos ou não na vida eterna as palavras que pertencem a esta esfera, as que estão carregadas de ameaças funcionam, ou seja, forçam a uma resposta – é que uma coisa é não acreditar em Deus nem nas penas eternas outra é a indiferença à moral, ao bem e ao mal, esta última não poucas vezes é paga pelos temerários com a loucura e embora hajam homens que representam a eleição de novos critérios de bem e de mal parece-me que a poucos é dada esta capacidade sem que se afundem na loucura.

    Como sugere Kojeve a diferença entre as insónias de Cesar às margens do Rubicão enquanto planeava uma nova Roma e aquelas que poderiam ser as de um megalómano clínico ou as de um adolescente em sua fantasia só o futuro desse presente dirá e disse no caso de Cesar.

    Mas, enfim, especulo.

    • João. diz:

      Que se lixe a troika!

      Tinha deixado um comentário sobre Freud que assinei “Comunista” mas já não o vejo a aguardar moderação – talvez tenha sumido na cyberesfera.

    • fnvv diz:

      É o meu texto. Logo seguido de O Futuro de uma ilusão.
      A renúncia instintual dá pano para mangas, mas está um bocadinho ultrapassada. Com tempo volto ao osso.

      • João. diz:

        Obrigado. Não estava a reclamar com você. É que por vezes estas coisas acontecem, comentários somem na cyberesfera.

        Quanto à renúncia instintual estar ultrapassada, sim pode ser, até porque não me parece que Freud tenha escrito para que nada mais se diga, corrija ou acrescente sobre o tema. O que me parece é que é uma boa base para começar.

      • fnvv diz:

        sem dúvida.
        O ultrapassado não é a renúncia em si, é o que se acrescentou. Por ex, sabemos hoje sobre funções cerebrais muito mais. E não só.

      • João. diz:

        Já agora, o que é interessante é o que nestes mecanismos de renúncia que servem o princípio de prazer, ou seja, o princípio da homeostase, do são convívio com o “inimigo”, ou seja, com os outros, com o próximo (não admira que Jesus tenha falado em amar o próximo, é que isto é que é difícil e é o que é amar o inimigo aquele que se tornou demasiado próximo para escapar ao nosso controlo pela distanciamento) rompem com isto e induzem desordem e sofrimento interior e exterior, quer dizer, porque é que mecanismos que servem à estabilidade da vida se voltam também contra esta estabilidade e induzem desordem e sofrimento.

        O Super-Ego nunca está satisfeito. Não há renúncia o suficiente para ele até porque como ele vive do acto da renúncia esta nunca pode ser competa – isto enquanto se vive sob o seu pleno império, do Super-Ego, e no que dá que quanto mais penitência/renúncia mais culpa. Renuncia-se para calar a voz brutalmente moralista do super-Ego mas como a renúncia já é movida pelo super-Ego ela não é para calar o super-Ego mas para nos introduzir no seu universo. Julgo que nos casos mais extremos trata-se de uma quase escravatura a um senhor insaciável, para quem nada, nenhuma renúncia, nenhum sacrifício, jamais será suficiente para aplacar as suas exigências.

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