Fogo e silêncio

Em férias, com tempo e vagar, leio o último de Herberto Hélder. Sou um herbertiano reticente: aquela experimentação verbal no limite da inteligibilidade, que faz dele o melhor da sua geração, nem sempre me toca por dentro. Mas até um sophiano-beliano como eu é obrigado a reconhecer-lhe o dom de intuições fulgurantes e a render-se a versos como estes:

quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah, um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio

É isto: fogo forte e silêncio. A poesia, a vida, o amor, as coisas essenciais. O fogo que nasce das “presenças reais” de que falava Steiner e o silêncio da nossa fragilidade. Na aliteração, há ecos de Camões (“vi claramente visto o lume vivo”). Nas sibilantes, a natureza fugaz das palavras que se perdem. Quanto ao resto, a experimentação verbal etc., admiro os que escrevem antes de mais nada para si próprios – “quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba…” -, impelidos por uma necessidade interior (o fogo) sem a qual a verdadeira criação não existe (o silêncio). São os que sobrevivem ao tempo.

PP

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One thought on “Fogo e silêncio

  1. Bone diz:

    Em furibunda melancolia

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