Tens o que mereces, man.

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Li este post do João Távora citado pelo Filipe e confesso-vos a minha consternação.

Descobri que devo resistir aos maus hábitos dos meus compatriotas e encetar uma “profunda reforma das mentalidades” que comece na “assunção” (o Távora é católico) das “responsabilidades” pela minha “vida, família, condomínio, paróquia, autarquia, clube desportivo, associação recreativa ou partido político”.

Antes de o João me abrir os olhos estava convencido de que os portugueses, excepto se vicejassem na banca, não tinham outro remédio senão o de tratarem da vida e cuidar das famílias.

Tenho visto inúmeros a discorrer com pompa em reuniões de condomínio esgotando miudezas de fracções e locatários.

Sei de fonte segura que as paróquias, que não frequento, enviam todos os anos para Fátima rebanhos de promitentes com pés em chaga e rosários à ilharga, sem que se oiça falar na desertação das ovelhas (tão expostas às vastas tentações do concelho de Ourém) quando chega a hora de regressarem aos apriscos familiares.

Era capaz de jurar que as “responsabilidades autárquicas” têm sido assumidas com fôlego e abandono pelos milhares de candidatos que ornamentam rotundas e fontanários nesta campanha eleitoral.

Diria até, mas talvez incorra em erro, que os clubes desportivos atraem às suas arenas hordas de comentadores eruditos, analistas pançudos e adeptos tingidos com as cores das equipas que amam, sem que alguma vez a sombra de uma hesitação tenha perturbado os transportes absurdos a que consagram os domingos.

Quanto aos partidos, basta-nos ler o Corta-Fitas para concluirmos que não perderam o dom de mobilizar inteligências notáveis para os exigentes encargos do governo da pólis.

Resta-me por isso a perplexidade de não imaginar para que servem estas logorreias, bem como a secreta esperança de que o João Távora não nos queira mais católicos, mais condóminos, mais tolinhos da bola ou mais apreciadores do Dom Duarte e da doutora Isabel Jonet.

Porque se alguém enche a boca com “profundas reformas das mentalidades”, o mínimo que lhe podemos sugerir é que não confunda a reforma com a contra-reforma.

Luis M. Jorge

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2 thoughts on “Tens o que mereces, man.

  1. Acho que percebeste muito bem o que eu queria dizer. Vai mas é mandar piropos à Elsa Almeida e Adriana Lopera do Bloco de Esquerda!

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