Estranho

Poucos ecos da entrevista de Sampaio da Nóvoa ao Expresso. Sobretudo na zona esquerda da blogosfera ( Arrastão, Jugular etc).

O ex-reitor sintetiza muito bem várias coisas  portuguesas – o crescimento artificial, a demência consumista, o centralismo educativo – e sublinha o aspecto simbólico (“no meu primeiro dia como reitor abdiquei de todas as regalias”) , invertendo o olha para o que  digo não olhes para  o que faço.

Depois recentra a austeridade, recusando-a como uma categoria ideológica que derrota os mais fracos. “Novos modos de vida ” e  “temos de viver melhor com menos” , significando que a prosperidade não passa pelo luxo e pelo endividamento ( o tal consumismo frenético que menciona) e que a reforma da  mentalidade antiga é possível.

FNV

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41 thoughts on “Estranho

  1. caramelo diz:

    Todos concordamos que a dimensão simbólica é importante e é por isso mesmo que, por mais bem intencionado que esteja, devia evitar essa do “temos de viver melhor com menos”. Não se espera que o Sampaio da Nóvoa seja gauche com as palavras, como o pobre semi-analfabeto do Passos Coelho; é-lhe exigivel que conheça bem o peso das palavras. E dos conceitos. O “luxo e o endividamento”, como dizes, resumiu-se na grande maioria das vezes a trocar os chaços velhos e a comprar um plasma. Só na Albânia maoista isto era considerado um despautério de luxo e objeto de ferozes criticas. E ele não prescindiu de todas as regalias; prescindiu de alguns acessórios da função. Não prescindiu de pertencer à classe média alta, porque o salário de um reitor não deve ser baixo.

  2. ppicoito diz:

    Bem visto. A minha explicação é que o Nóvoa não pertence a nenhuma tribo e o seu pensamento não é facilmente apropriável. A crítica do consumismo, por exemplo, pode ser confundida com a “narrativa” da direita (Jonet ou mesmo sectores mais próximos do Governo e da austeridade). A esquerda pós-moderna arrastão-jugular desconfia. É uma das coisas que o torna interessante.

    • fnvv diz:

      Mas ele é claramente de esquerda ( ligações, meetings, referência) e é ( era?) muito querido ente sectores.
      Um tipo livre? Sem dúvida. Um prazer.

  3. ppicoito diz:

    Parece estranho, para retomar o teu título, mas acredito que sim. Sendo de esquerda, tem pensamento próprio. Uma vez, ouvi-lhe uma conferência sobre o papel da universidade e da “alta cultura” que faria muita gente à esquerda sacar logo da pistola.

    • fnvv diz:

      e depois atrapalham-se e atiram nos berlindes
      Daria um debate engraçado, a submissão da esquerda portuguesa a duas correntes: a marxista sec XIX (e derivados) e a radical-chic.
      Nóvoa não está nem aí.

    • fnvv diz:

      O caramelo já sacou da pistola por causa do “viver melhor com menos” eheheh ao isco mais guloso…é só botões….

      • caramelo diz:

        Mas fazes muito bem em proteger o brâmane das balas das tribos rastejantes, sem pensamento próprio. Isto dava um episódio do Walking Dead. Mas em cómico. Adiante. O homem diz coisas acertadas e parvoíces. Acontece aos que são livres. Acertou em dizer que não temos licenciados a mais e asneirou quanto ao consumismo frenético e o viver melhor com menos. Chateia-me, porque não é assim, e, sendo um espírito com certeza pouco livre, não tenho a tua placidez para estas coisas.
        Só mais um apontamento. Queixa-se ele de que o Brasil, ou seja a Dilma, traiu Portugal, porque já não dá bolsas a estudantes brasileiros para viram para cá. Como pode ser tal coisa? Como se atrevem? Ora, o governo brasileiro está a mandar os seus estudantes para universidades que nos rankings estão um bocadinho mais bem posicionadas do que Lisboa e Coimbra, a alma mater, e de preferência de língua inglesa. Bye bye, maria Ivone. Espirito tão livre devia perceber isto.

      • fnvv diz:

        ai ai ai …”o viver melhor com menos” faz milagres: é assim uma sensação de …absorção-clubite.
        O pavor que isto possa ser aproveitado ( e distorcido) pelo governo arrasa as boas referências , uma vida ecofriendly, mais repartição dos recursos ( by God!!!)etc)

      • caramelo diz:

        Nada contra o senhor, plamordedeus, vê-se que é boa pessoa. E eco friendly e melhor repartição de recursos, sim senhor, como não concordar com isso? Eu sei que lês o Guardian. No outro dia, o Jamie Oliver, aquele rapaz que nos ensina a comer de forma saudável e económica, disse que não entendia como é que os pobres ingleses comiam junk food em frente de uma televisão gigantesca. Má repartição de recursos, lá está. Ora, não é que de uma toca do jornal lhe saiu um ranhoso de um terrier às canelas, dizendo que o bom do Jamie não faz ideia do que é ser pobre? Este mundo está cheio de gente maldosa.

      • fnvv diz:

        Sim, já conheço a ladainha: quem quer que seja que fale em viver melhor com menos não sabe que há pobres.

      • Miguel diz:

        É que viver melhor com menos não equivale viver mais pobre; significa, isso sim, viver de outra maneira.

        O “eco friendly” exigiria um redesenhar do tecido produtivo, o que é incompatível com austeridade (imposta pelo governo) em favor dos interesses financeiros internacionais; pressupõe mais investimento inteligente e menos desperdício de recursos em formas de consumismo irracional.

      • caramelo diz:

        Não percebi a sua solução, Miguel. O problema diagnosticado é o consumismo desenfreado,ou irracional, certo? De que forma o “redesenhar do tecido produtivo”, vai desintoxicar as pessoas? É um projecto global? Se não for, resta sempre o tráfico internacional. Tem visto o The Bridge? Fazem túneis.

      • fnvv diz:

        esse cinismo conservador ainda te dá cabo do colesterol…

      • Miguel diz:

        caramelo, é mais simples do que isso: quando chegarmos aos 9 biliões (10^9), a cura de desintoxicação vai ser compulsiva.

      • caramelo diz:

        Ah, isso… eu sei, Miguel, está no último capitulo da Bíblia.

      • Miguel diz:

        ahahahaha …. com essa é que me arrumaste, ó caramelo!

      • Miguel diz:

        (o pior é que eu não li a entrevista do senhor, até posso estar a perceber tudo ao contrário … mea culpa mea culpa)

      • fnvv diz:

        O caramelo, num comentário qee se perdeu, dizia qq coisa como qual consumismo desenfreado, o Sampaio da Nóvoa é lelé ( esta é minha), “o pessoal limitou-se a trocar o chaço velho e a comprar um plasma”.
        É, deve ter sido por isso que o Belmiro e o Amorim enxamearam a parvónia de centros comerciais, os bancos infestaram os pategos com créditos de férias, os nababos das PPPs convenceram os tansos a disfrutar de autoestradas paralelas ( a maior rede da Europa/km2).
        Ou seja, o grande capital inchou e o caramelo aplaude.

      • Miguel diz:

        pois é, fnv, e essas críticas não têm nada a ver com a arenga da Jonet.

      • caramelo diz:

        Agora vou ali a Bora Bora, aproveitar uma promoção de massagens tailandesas, e respondo-vos mais logo.

      • fnvv diz:

        vai vai menino, de caminho relê a crise da habitação, do Frederico.

      • caramelo diz:

        Qual Federico? Bem, então, viver melhor com menos, consumo, tio belmiro. É fácil e barato falar agora em consumo irracional, mas vamos lá ver duas ou três coisas.
        Na era pré-belmiro, as pessoas comiam o que compravam na mercearia ou supermercado do bairro e iam fazer compras para a baixa. Uma loja, o mítico El Dorado, era suficiente para abastecer de blue jeans a juventude rebelde de Coimbra; os pais do cimo da cadeia alimentar iam à Loja das Meias e mais três ou quatro da moda de Paris e genéricos e os outros a outro lado. Férias, era uma temporada na praia mais próxima ou no estrangeiro, que era o Algarve, fora um ou outro passeio à Senhora da Agonia. Mais uma vez, ia ao estrangeiro de fora quem podia. Continuamos, já agora, a ser o pais que menos faz turismo, apesar do mito de multidões de tugas a invadir praias com palmeiras e margueritas.
        O Belmiro. Quando aqui abriu o primeiro hiper, o continente, os comerciantes “tradicionais” fizeram uma campanha para sensibilizar as familias para os valores familiares: descanso e convivio no fim de semana, a missinha (eu seja ceguinho), e passeios saudáveis ao ar livre nas ruas. Começou a queda. Por onde passava o Átila secava a erva, por onde passava o Belmiro floresciam prateleiras com um poder de deus de variedades de corn flake. Eu até acho que há demasiados mastodontes de consumo em Coimbra, mas isto porque desta forma se está a abandonar o seu centro histórico. Mau planeamento urbano. Mas isso nada tem a ver com padrões de consumo. Ninguém mais vai comprar discos à vadeca, nem com atendimento personalizado e bolinhos. Abrir uma FNAC na baixa, como fizeram no Chiado em Lisboa, teria contribuido bastante para a revitalizar.

        Não se vive melhor com menos, se isso significar subtrair. Vive-se bem (enfim) com menos do que o que se tem agora, mas pior se nos retiram um certo nível e variedade de consumo a que estamos habituados, que, no nosso caso, nem é (ou era) propriamente o shangri lá. Pessoas que desbaratam dinheiro, que tomam decisões estúpidas, sempre houve, mas o que hoje se chama consumo excessivo, são (ou eram) geralmente opções racionais de consumo, porque levam em contam as informações de que se dispõe no momento (certo, eu sei que infelizmente ninguém deu ouvidos àquele senhor que diz que já andava desde pequenino a avisar). Aconteceu que, de um dia para o outro, o pais enriqueceu e o consumo democratizou-se. As pessoas vestem todas bem e todas compram os mesmos eletrodomésticos. Começaram a ganhar mais, compraram. Perante o crédito barato para comprar casa, compraram, uma opção perfeitamente racional, mesmo em termos de investimento. E pelo meio, muita coisa dispensável, porque, afinal, quase tudo nesta vida é dispensável, lá dizia, acho eu, o Agostinho da Silva. Se não disse, ter-lhe-ia ficado bem.
        Eu estou a falar do consumo das familias. Outra coisa são os gastos do Estado. As familias podem gastar muito e o estado pouco e vice versa. Já não tenho tempo para falar das auto-estradas. Sei o que se ia à Serra da Estrela como quem ia em expedição ao Evereste. Bem, de facto, perdeu-se alguma coisa.

      • fnvv diz:

        “Aconteceu que, de um dia para o outro, o pais enriqueceu ”
        Ah sim? E como foi? Quando? Foi a Nossa Senhora ou petróleo no Beato?

        PS: O Frederico Engels.

      • caramelo diz:

        Olha, a mim, a esta distância, parece-me que aconteceu num piscar de olhos. Estavam os GNR a cantar Eu quero ver Portugal na CEE e de repente ficámos mais ricos. Eu tenho 50 anos e neste curto espaço de tempo passou o pais do estado gasoso para o estado sólido (arrependi-me agora mesmo desta, porque lhe vais chamar um figo, sempre ao dispor). Valeu a pena, apesar de tudo. Eu, do Federico, li no tempo certo, o Da Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada e mais alguma coisa, mas não me lembro do que dizia sobre a crise da habitação. Vou ver se descubro.

      • fnvv diz:

        até acho que é o problema da habitação
        Conquentão enriquecemos de repente , heim? Voltaremos a Viana.

      • Miguel diz:

        Há muito de verdade na tua descrição, caramelo. Mas não deixa de ser verdade que grande parte do consumo foi resultado de indoutrinação publicitária. Não estou a falar dos bifes, da possibilidade de visitar o Louvre ou o Pompidou, o Prado, o MOMA ou o Metropolitan, o ERASMUS, ou as infra-estruturas para a prática desportiva. Falo da merda da desordenação do território associada à especulação imobiliária, ao deboche dos empréstimos bancários, à destruição deliberada da rede ferroviária em nome dos interesses rodoviários, e por aí fora. Consumir plasmas, telemóveis e manter a população na ileteracia científica e tecnológica, para não falar na outra. Por exemplo, como é que é possível as livrarias estarem a fechar hoje, quando o país é mais rico (incluindo o nível cultural da população) do que há vinte anos? Pela aposta no desenvolvimento cultural é que não é. E depois os recursos naturais são escassos mesmo, é preciso saber escolher como utilizá-los inteligentemente. Mas a culpa, em primeira ordem, não é das escolhas individuais . É óbvio. É uma questão sistémica.

      • caramelo diz:

        Miguel, vou pegar aí no exemplo das livrarias, que não podia ser melhor. Eu sou do tempo em que me tinha de me chegar ao balcão para pedir um livro do Júlio Verne, como quem pedia na mercearia para me medirem um quilo de feijão vermelho. Deus tenha em seu descanso aqueles afáveis empregados, mas não tenho saudade nenhuma desse tempo. Acabaram-se as pequenas catedrais góticas do consumo, abriram as grandes superfícies, e nunca houve tanto livro, tanta variedade, tanto acesso à cultura e, sobretudo tanto proveito, como hoje. Sim proveito mesmo, porque a população é, em média mais rica culturalmente, tu próprio o reconheces.
        No que respeita às infraestruturas, não foram só os equipamentos desportivos; foi a saúde, educação, bibliotecas (ah, que saudades das carrinhas da Gulbenkian…), centros culturais, estradas (cof cof). Basta dar uma volta pela provincia da provincia (sair do litoral), e ter um pouco de perspectiva histórica, para o saber. Os nossos maître à penser vão ao interior e o que relatam? rotundas, autarcas burgessos que fazem, rotundas. Continuamos depois, Miguel? Estão a chamar-me para o cozido nas casa dos sogros, ámen, e tenho de ir participar na homilia.

      • fnvv diz:

        O dinheiro da Ue foi, de facto, despejado. Um milagre que tenham sido feitas coisas? Estranho.
        Depois do fluxo abrandar, já com Guterres, e ainda no tempo da “tanga” de Barroso ( naõ devia ser pequena porque Portas encomendou logo 2 imperiosos submarinos), muito gostaria que explicasses o “nosso enriquecimento súbito”: a vender/produzir o quê exactamente?

        agora vou comer queijo com uvas.

      • caramelo diz:

        Sim, está bem, o aparelho produtivo não foi reconvertido e modernizado, esse foi o erro, concedo isso sem nenhum engulho. Estou a ler um livro interessante do Joseph Heller, “imaginem que” (Picture This) onde se explica, entre outras coisas, porque se tornou a Holanda a maior potência comercial do seu tempo. E militar (o diabo caga holandeses, dizia um intendente da marinha inglesa). Vendiam o melhor que tinham e revendiam o que iam buscar ao cu de judas, e compravam para si o mais barato. Queijo com uvas é muito eco friendly

      • fnvv diz:

        Tenho esse. Já leste o melhor dele ( Catch22)? Se não leste vais adorar,

      • caramelo diz:

        Também tenho esse, já li e adorei. Ando ao mesmo tempo a ler tudo o que apanho do Sinclair Lewis, um tipo agora muito injustamente esquecido.

      • fnvv diz:

        Nunca li, pelo menos não me lembro.
        .Depois sugere um.

      • caramelo diz:

        O Sinclair Lewis foi prémio nobel em 1930 e o resto da bio lês na wiki. Faz um retrato ácido da little people das pequenas cidades do midwest. Foi entretanto eclipsado pelo jeitoso do Fitzgerald e os outros estilosos da época que a gente conhece. É agora um bocado underdog, à espera que alguém o ponha no canone (arghh). Aconselho-te o Babbit , o Arrowsmith e o Rua Principal. Vais gostar.

      • Miguel diz:

        Gostei bastante do Arrowsmith. Os outros não li.

      • caramelo diz:

        Tudo o que li dele é muito bom, mas o Arrowsmith é o meu favorito.

  4. mdsol diz:

    Dará um excelente PR, se estiver para se meter nesses “assados”.

  5. vortex diz:

    devido à minha ‘dívida sistemática’
    fiquei com a convicção que o ex-presso descobriu mais um sábio tipo artur batista da silva.

  6. cc diz:

    Ele é sobretudo livre, creio que não ficará refém de um código de esquerda que às vezes não vê para além da cartilha. Eu gostei muito da entrevista e mencionei-a no meu blogue. Só tenho dúvidas quando à candidatura à PR, preferia vê-lo a liderar um movimento além partidos.
    ~CC~

  7. Não a li, mas, agora, fiquei curioso.

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