Peter Pan Coelho

Uma sequela de retumbantes êxitos anteriores do Primeiro-Ministro, como o “não podemos ser piegas” e outros que tais, está a deixar a pátria ao rubro. “Já alguém perguntou aos mais de 900 mil desempregados do que lhes valeu a Constituição?”, disse ele. É uma frase que parece saída da Alemanha de 1936. Vai daí, a pátria atirou-se ao pobre candidato a Fuhrer, pondo em dúvida os seus sentimentos democráticos.
Não vale a pena. O PM não tem um problema com a democracia, ao contrário do que clama António José Seguro. O PM tem um problema com as palavras ou, antes, com o pensamento que sustenta as palavras. Como muitos políticos da sua geração, incluindo Seguro, aprendeu a “pensar” a política no mundo estreito dos aparelhos partidários e negócios adjacentes. Não há ali ideias, nem leituras, nem hábitos de reflexão, nem profundidade intelectual que vá além da meia dúzia de fórmulas prontas a debitar em comícios e entrevistas. Jamais lhe ocorrerá que seja uma atoarda trocar a Constituição por emprego, ou outra coisa qualquer, porque tudo o que diz é levezinho, imediato, pouco pensado e depressa esquecido. Excepto quando o pessoal se atira ao ar, para sua genuína surpresa. O homem não é um potencial tirano, é apenas um eterno jotinha. Um Peter Pan Coelho.

PP

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9 thoughts on “Peter Pan Coelho

  1. Renato diz:

    Estando globalmente de acordo consigo, acho, contudo, que o primeiro-mnistro apenas queria questionar sobre a medida da “culpa” da constituição, ou da inteerpretação que dela se faz, no curso da coisas que nos trouxe até aqui. Pareceu-me que se estava a referir ao facto de muito do desemprego, como manifestação de crise, resulta de um certo atrito imposto pelas leituras que da constituição se faz.

    E esta minha leitura do que ele disse tem ou não razão, é outro campo de debate.
    E se ele queria dizer outra coisa que não se percebeu, a responsabilidade é dele e dos seus conselheiros que permitem que outras “narrativas” se imponham…

    • ppicoito diz:

      a sua leitura é simpática para o PM, mas acho que ele não se dá conta da contradição. tenho a certeza que, se alguém lhe sugerisse suspender a constituição durante seis meses para fazer as reformas, como disse a Manela, ele ficaria horrorizado.

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Pedro, a Dr.ª Manela-Azeda-O-Leite queria suspender a democracia por seis meses, não a Constituição (que, aliás, prevê o estado de sítio e o estado de emergência, como diria o Ajudante-de-Ministro Lomba-dos-briefings).

  2. caramelo diz:

    Tem razão, Pedro. Eu só acrescentaria que se ele não tem um problema com a democracia, a democracia já tem um problema com ele. Afinal, é ele que nos governa. Um bocado de literacia dá jeito ao governo de um pais.

    • ppicoito diz:

      se a democracia tem um problema com ele, não tem um problema maior do que teve com Sócrates. mas há sempre uma solução. correr com ele nas próximas eleições. Não estou nada Seguro de que venha a acontecer.

      • caramelo diz:

        Discordo. Do que acusam o Sócrates é de ter pavimentado a Europa e mais meio mundo com auto-estradas e de com isso ter provocado uma crise financeira mundial. O Passos Coelho é de outra qualidade. Este rolo compressor está a fazer uma profunda revolução de mentalidades. Melhor com menos, como diz o outro. Voltamos à velha açorda à alentejana, a velha dieta mediterrânica que já andava tão esquecida e tão cedo não saimos, porque se criaram rupturas dificilmente reparáveis. A solução,para quem não aceita isto, teria sido não ocolocar no poder, in first place.

  3. Pedro diz:

    Concordo mas a sua leitura é simpática para o PM, Pedro. Se calhar por não ter pensado muito nos assuntos ele acredita mesmo naquilo e também acho que não fica genuinamente surpreendido quando o pessoal se atira ao ar.

  4. p D s diz:

    Dando de barato que não, que o PM disse exactamente aquilo que pretendia, e sabia bem o que dizia…sigamos o exercicio:

    bora lá perguntar a um desempregado o que lhe vale a Constitiuição…

    Agora podemos elaborar as hipoteticas respostas…e assim a titulo de probabilidades, custa-me imaginar que fossem agora os 900 mil desempregados a formar “multidões” que defenderiam a abolição da Constituição.

    De todas as formas, e a bem do contraditório, deveriamos tambem perguntar aos mesmissimos desempregadoas a seguinte questão:

    ” E agora que respondeu sobre a Constituição, a pergunte é : O que já fez por si, Desempregado, o PedroPassosCoelho, o seu primeiro ministor…é capaz de nos dizer?”

    E tb a titulo de mera projecção, cheira-me que a globalidade das respostas não seria agradavel para o Coelho…

    …mas, pronto isto é só mera especulação!

  5. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, excelente postal; para mim prefiro denominá-lo «Láparo Primeiro-Sinistro»: é mais consentâneo com o cuspo histórico-filosófico que ele tanto usa como “super-cola-tudo”…

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