O mistério.

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As sondagens revelam que Luis Filipe Menezes pode vir a ser Presidente da Câmara do Porto. Acolho essa informação com a mesma incredulidade que me emudeceu quando foi escolhido para líder do PSD. Menezes pertence a um mundo a que não pertenço, e o seu triunfo derrama uma sombra no modo como interpreto a realidade.

O homem é, para mim, pouco mais que gelatina com temperos maquiavélicos. Não exibe sinais de inteligência, de princípios, de boa índole, de um pensamento próprio ou de coluna vertebral. Como será possível que atraia os votos de uma parte tão vasta dos eleitores portuenses?

Eis um mistério da psicologia — da minha psicologia, mas não só. Ao observar Menezes não consigo deixar de reflectir que há um contraste entre a maneira como a gente de esquerda e de direita avalia os comportamentos dos políticos.

A tese é arriscada e talvez soçobre a uma análise rudimentar. Mas reparem no modo como ele fala: notem como nunca ergue a voz, como busca as palavras mais ornamentais, como se esforça por parecer bem, como tenta — apesar dos maus fígados e das ruminações vis — ser tão extremamente educado.

Quando defendo que há um fosso ideológico na avaliação de caracteres é neste campo que pretendo concentrar-me: no excesso de polidez.

Criado entre gente contestatária, encorajado a manifestar desde cedo as minhas opiniões, formei uma sensibilidade que desconfia dos salamaleques.  Sempre me pareceu que a boa educação é a primeira arma de todos os patifes. Que o abuso de cautelas e formalismos, o desejo de parecer bem nos revela traços pouco aristocráticos indignos de uma personalidade autónoma e assente em si própria. Isto são típicas emoções (não chegam a ser pensamentos) de esquerda.

Admito que se tivesse sido criado num meio católico, por exemplo, formado no respeito pelas hierarquias, na ideia de que o poder (desde logo parental)  é um bem em si mesmo, na convicção de que o valor da cortesia se sobrepõe às diferenças de opiniões — o que diz muito sobre a qualidade das opiniões à direita, mas enfim — admito, dizia eu, que nesse caso talvez aceitasse as mesuras viperinas de um Luís Filipe Menezes com grande equanimidade.

A mera hipótese, no entanto, repugna-me tanto como um regimento de eunucos  a ensaiar chinoiseries.

Luis M. Jorge

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45 thoughts on “O mistério.

  1. Celso R. diz:

    Também deve contar que quem vota está-se nas tintas para o bem ou mal que ele possa fazer na Câmara. Talvez a questão resuma-se à resposta a: qual o candidato que vai ter o maior impacto positivo e directo em mim?. Ou seja quem dá mais “microondas”. Só assim posso perceber uma possível vitória de Menezes.

  2. Luís, creio que uma coisa é a boa educação, e outra, completamente diferente, os tais salamaleques, formalismos e desejo de parecer bem. Não considero que a boa educação seja incompatível com um espírito contestatário.

  3. fnvv diz:

    Estou estupefacto. Fazia-te um fã de Meneses – escolas, estradas, centros de congressos, apoios culturais etc , enfim, modernidade .

  4. Jorg diz:

    Ora para mesuras viperinas vá lá até Braga, Guarda ou aos Açores, se souber o caminho….

    Ou procure ai na Capital aquelas maltas que andaram a brincar aos bombeiros, que ambicionam para Lisboa uma especie de Disneylandia para turistas e expurgada de gente que vive e que mantém viva a cidade sem andar a emular poses pseudo-cosmopolitas à pressa topadas no ‘estrangeiro’, ou que quando instadas a comentar os reveses dos mundos reiterem nos parágrafos extensos a primeira pessoa do singular…

    E veja lá se as diferenças ‘esquerda-direita’ da exsicação que acena são assim tantas….

    * repare que tenho a mais forte antipatia por Meneses e é com desencanto que vejo a partida de RIo – e a estupidez de uma lei de limitação de mandatos que prejudica principalmente quem foi bom autarca…

  5. fernando antolin diz:

    Olha, nasci no fim do Mundo ( Santarém ) …e sou completamente facho, pois sou católico, aprendi a respeitar hierarquias, sou bem educado qb, e acabo aqui “despido ” sem saber como. O Luis desgraçou-me… 🙂

    • Duarte Lemos diz:

      Ser fascista e catolico é complicado, pelo menos se ainda for possível uma sombra de rigor. O fascismo é um relativismo:

      “Se o relativismo significa o desprezo às categorias fixas e às pessoas que se proclamam portadoras de uma verdade objetiva, imortal, não há nada mais relativista que nossas atitudes e as nossas actividades. Do facto de que as ideologias são de igual valor, de que as ideologias não passam de ficção, o relativista moderno infere que cada um tem o direito de criar para si uma ideologia própria, e de buscar afirmá-la com toda a energia de que seja capaz.”

      Benito Mussolini.

      Quem escreve isto não pode ser um católico, que acredita numa verdade absoluta, eterna.

  6. André diz:

    Caro Luís:
    Não lhe entendo o estupor. Afinal, habita um país que tem o Barão de Charlus como Vice-Primeiro Ministro.

  7. gandavo diz:

    Axim de repente, lembrei-me do Almeida Xantox

  8. A.Lobo diz:

    O meu voto vai direitinho para o Menezes, Rio sufocou o Porto. Tenho para mim que vão aparecer muitos buracos na administração do Rio; com tanto medo que outro qualquer ganhe a Câmara é porque há qualquer coisa a esconder. O tempo dirá, já não falta muito.

  9. XisPto diz:

    “Como será possível que atraia os votos de uma parte tão vasta dos eleitores portuenses?”
    .
    Como todos os outros candidatos, seguramente por uma matriz complexas de razões, individuais e colectivas, entre as quais esta:
    .

  10. Niet diz:

    Post da rentrée, sem dúvida alguma. E já agora, eu acho que o Rio foi um óptimo presidente, de uma rectidão à prova de bala e de uma supina coragem para enfrentar o(s) poder(es) e os seus demónios tripeiros. Como adverte G. Bataille, muita vezes a luxúria é desfavorável à integridade. Niet

  11. henedina diz:

    A imagem parece um pleonasmo do filme “porcos, feios e maus”.

  12. Eu fui “criado num meio católico”, “formado no respeito pelas hierarquias, na ideia de que o poder (desde logo parental) é um bem em si mesmo”, e garanto-lhe que para Menezes me faltam sempre adjectivos. Também há quem chame a isso “botaabaixismo”, mas não há nada de mais urgente do que “botar abaixo” criaturas dessas. Mas também não o considerem já como eleito.

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