E foi assim que me tornei um revolucionário

Aqui mais abaixo, o Filipe informa os leitores do Declínio da minha algo surpreendente colaboração em homenagens ao Dr. Cunhal, o que pode ter levado a formular uma de três hipóteses:
1) é mentira e eu inventei tudo para branquear o meu vil passado burguês;
2) é mentira e o PCP inventou tudo para sugerir a mais ampla base de apoio à canonização do Dr. Cunhal;
3) é mentira e o Filipe inventou tudo porque não está na plena posse das suas faculdades, por certo devido à presença do Mister Jesus no banco do Glorioso.
Pois bem, em abono da verdade, do Filipe, do PCP e da minha pessoa, devo dizer que todos os factos linkados são escrupulosamente correctos. Um indivíduo de nome Pedro Picoito, fazendo parte do Coro dos Pequenos Cantores do Conservatório de Lisboa, cantou o “Acordai” de Fernando Lopes Graça numa peça de teatro sobre o julgamento do Dr. Cunhal pelo Estado Novo em Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite, entre os dias 25 e 28 de Abril do ano corrente. A circunstância de o dito indivíduo de nome Pedro Picoito não ser eu, mas o meu filho homónimo, não invalida a circunstância de a dita peça de teatro ser uma homenagem explícita da Câmara Municipal de Almada ao Dr. Cunhal, que em 2013 celebraria o centenário se cá estivesse, e a quatro comunistas que em 1950 foram, como se lê no link, “assassinados” pela PIDE “em defesa da liberdade”. Com a agravante de não apenas o meu filho homónimo e secundogénito ter cantado na dita peça, mas também a minha filha mais velha e naturalmente não homónima.
Ora, não tendo subitamente esquecido o meu vil passado burguês, que tortuosa volta do destino me terá levado a permitir a cumplicidade dos meus rebentos com o festejo municipal da história do PCP?
A história é simples, mas curiosa. Os meus filhos fazem parte do coro infantil do Conservatório de Lisboa. Em data que não recordo, o Conservatório enviou aos pais um calendário com as actividades dos meses seguintes, incluindo a peça de teatro em homenagem a Cunhal. Para nosso embaraço, a minha mulher e eu só demos conta do tema da peça na véspera da estreia. Soube depois que não tínhamos sido os únicos e que, em cima da hora, muitos pais tinham decidido que os filhos não iriam a Almada. Devemos ter sido dos últimos a acordar – e não foi na versão do Loes Graça. Quando, na manhã do dia da estreia, telefonei à Maestrina a comunicar-lhe o desconforto familiar, ela disse-me, a um milímetro do desespero artístico, que se arriscava a não ter coro se todos os pais fizessem o mesmo. Pedi algum tempo para conferenciar com a cara metade e concluímos pelo sério risco de barraca, barraca de que nem a Cãmara de Almada nem o Conservatório de Lisboa teriam a culpa. Que era em grande parte nossa.
Acabámos por decidir que as crianças iriam. Ao almoço, antes da partida, dediquei a minha melhor retórica a explicar aos herdeiros a biografia do Dr. Cunhal, as suas louváveis ideias e o que entenderia ele e os seus camaradas de partido por “defesa da liberdade”, aconselhando-os fortemente, por uma questão de cortesia (para com os anfitriões) e segurança (do próprio canastro), a não repetir uma única das minhas palavras em Almada e muito menos no Teatro Municipal Joaquim Benite.
Eles ouviram, fizeram algumas perguntas e lá foram para a estreia.
E foi assim que os meus filhos cantaram o “Acordai” num acto de propaganda comunista da Câmara Municipal de Almada.
E foi assim que me tornei, apesar do meu vil passado burguês, um revolucionário.

PP

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18 thoughts on “E foi assim que me tornei um revolucionário

  1. caramelo diz:

    Ay caramba… mas os seus filhos durante o período de ensaios não cantarolavam à mesa o Acordai? Já seria de levantar os sobrolhos.

    • ppicoito diz:

      Cantarolavam. Mas confesso, para minha vergonha, que antes do ano da graça de 2013 nunca tinha ouvido o Acordai…

      • caramelo diz:

        Poizé, eeeeesse é que é o problema… o bom do Lopes Graça bem avisava, mas põem-se os pais a dormir e num instante estão os rebentos de armas na mão na Sierra Maestra ou na Sierra de Sintra para fazer a revolução.

  2. Decididamente é uma mancha no teu presente proletário.

    Abraço!

  3. fernando antolin diz:

    Meu Deus, a influência da Emilinha aqui do “lado certo” chegou à margem norte. Para o ano estão cá no Avante sem falhar… 🙂

    • ppicoito diz:

      Se eu continuar distraído, é bem possível. Acho que só vou perceber quando chegar ao musical da vida do Estaline…

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Pedro, os nossos actuais (des)governantes “liberalóides” são um verdadeiro abono para os (poucos mas empedernidos) sequazes do saudoso camarada “Koba”: Acordai!!!

  4. Rui Dantas diz:

    Estamos também a celebrar os 80 anos da PVDE/PIDE.

    Talvez pai, primogénita e secundogénito possam participar, desta vez sem desconforto, em algum coro que faça a merecida homenagem a tão honrada instuição que combateu os defensores da liberdade entre aspas (sem dúvidas torturando e matando também entre aspas) e assim esclarecerem, se dúvidas houvera, de que lado estariam se tivessem nascido alguns anos antes.

    • ppicoito diz:

      Que falta de imaginação ter de escolher apenas entre dois lados. A sua vida deve ser simples, mas demasiado a preto e branco.

      • Rui Dantas diz:

        Se gosta de hoje ter uma vida complexa, a cores, com escolhas, mais uma razão para agradecer ao tal senhor das fartas sobrancelhas. Vamos lá todos: “acordai, acordai, homens que dormis…”,

  5. Fernando Martins diz:

    Era pior se tivessem ido declamar “As portas que Abril abriu…”

  6. hmbf diz:

    O anúncio da Volvo no final do post é deveras interessante.

  7. António diz:

    Pedro, poderias sempre alegar que a participação familiar na homenagem se justificou, exclusivamente, pelo facto do Dr. Cunhal ter sido um emérito habitante dos nossos Olivais Sul. Simplificava-se a coisa que, afinal, na minha humilde opinião, era simples à partida: os petizes só iam cantar, não iam expressar concordância ou emitir chancela sobre o passado e a ideologia professada pelo bom do Álvaro;-).

    Um abraço

    • ppicoito diz:

      tens razão, esqueci-me da fraternidade olivalense. O resto já é mais complicado: participar num acto de propaganda comunista é, de algum modo, ser um inocente útil, como disse o pacheco pereira lá no abrupto. Axho que ainda vou escrever sobre isso.
      um abraço

  8. […] certo professor de Estória (sem aspas) escreveu o seguinte: quatro comunistas, em 1950, foram “assassinados” pela […]

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