Arranjem-lhe um guarda-costas

Ele vai precisar.

A luta partidária permite dizer meias-verdades. Se ele quisesse podia simplesmente explicar que também não foi apenas porque o país se modernizou. Se ele quisesse falar claro, diria que foi porque não produzimos nada desde a entrada na Europa.

Aqui há tempos, no D&Q, a propósito de uma entrevista a Sampaio da Nóvoa, passados os cocktails, chegámos  ao osso quando o nosso  caro comentador Caramelo repetiu  que o país de súbito enriqueceu ( anos 80? 90?). Quando lhe perguntei como ( a vender/produzir  o quê?), enbatucou.

FNV

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11 thoughts on “Arranjem-lhe um guarda-costas

  1. Jorg diz:

    Soa a Clinton a pronunciar “inappropriate”…

    Para começar, até se produzia umas coisas – a Ford/Volkswagen ainda continua; e no ultimo ano já encontrei aqui sabonetes do Ach. Brito, Flor de Sal do Algarve; usw….
    Ainda outro dia, numa sapataria, pediam-me quase 300 Euros por um impecável par de sapatos e perguntei – com ronha, pois já tinha olhado de soslaio para a caixa… – e disseram-me que eram feitos em Portugal – “wie ein ansprüchsvoll Audi Q” quando comparados com os Italianos (Alfa Romeo…). Para evitar desnecessária ‘graxa’ disse que era espanhol….

    Depois começou-se a produzir vento – e.g. a Agenda de Lisboa para a Europa apostar «na economia do conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo, antes de 2010, capaz de um crescimento económico duradouro acompanhado por uma melhoria quantitativa e qualitativa do emprego e uma maior coesão social»… Esta foi, antes de mais, manta para tapar muita coisa, demasiada e, entende-se agora, sem provisão…

    • fnvv diz:

      Deixe lá essa fixação com os xuxas. O que produzimos sob o homus cavaquensis? Como é que se enriquece a receber dinheiro da UE ?

      • Jorg diz:

        Acha que havia muito a desmantelar em meados dos anos 80?
        Aliás, até quase ao fim do milénio passado, a capacidade produtiva até aumentou – eu pelo menos recordo-me que desde a roupa, ao calçado ou supermercado, a produção era toda nacional. No negócio de familia, até inicio da década ‘zero’ os fornecedores – Âmbar, Molin, Viarco, Firmo- era quase tudo do Norte.

        O resto faz lembrar a célebre questão literária: ¿en qué momento se jodió el Perú?

        Como se viu, dá para escrever um amplo romance, cujo âmbito requer tempo que não tenho. Deixo só uma nota em termos das ‘infra-estruturas’ – existiu uma racionalidade económica quase óbvia na Lisboa-Porto, e eventualmente na Almada-Setúbal na sequência da implantação da Ford-Volkswagen em Palmela, que não se poderia transpor para toda a profusão de asfalto que se seguiu, implementado quase como émulações….

        P.S: Não quer dizer que na era Cavaco se branqueie ou ignore os escândalos FSE, ou os compadrios e negociatas que se estabeleceram com o cartão do Partido Certo. Mas quem veio depois, até eleito (inclusive com o meu voto) para dar moral ao pagode, andou encantado com emulações e alforrias….

  2. caramelo diz:

    Pronto, eu sabia que isto ia regressar para me assombrar. Tu deves achar que o Sócrates é para mim um deus. Não, não é, é apenas um semi-deus, apenas um pouco acima do Hércules.
    Olha que a crise afetou países que produzem muito mais do que Portugal. A Irlanda, que é produtora por excelência, desde batatas a micro-chips, o paraíso das multinacionais, também tem uma crise da mesma natureza. É claro que os fundos podiam ter sido melhor aproveitados e eu reconheci isso. Terá que haver sempre um equilíbrio entre as afetação dos fundos às infraestruturas e o financiamento direto à produção, bem calibrado e regulado, e aí o parolo do ranhoso do cavaco e o Mon Seigneur falharam um poucochinho, sobretudo o primeiro, com a ressalva que se segue. É que as infra-estruturas, a educação, saúde, saneamento, etc, até as rotundas, no sítio certo, também são riqueza. Produzem riqueza imediata, o bem-estar das pessoas, e riqueza para o futuro: atratividade para os investidores, incluindo qualificação profissional. Repara que muito do investimento em educação deu para transformar o modelo de produção, mas teve efeitos perversos: temos indústrias tecnológicas com alto valor acrescentado, mas que produzem pouco emprego. Somos um modelo para o mundo, desde o comando da Meo, passando pela via verde e os chips para a Nasa e biotecnologia de ponta. Chegámos agora à conclusão de que mais valia os nossos filhos ou os filhos dos outros serem formados em torneiro mecânico para fazer móveis em paços de ferreira? Pois, pois… Azar, porque nunca iremos produzir tanto como a China, que fazem os torneados em plástico com operários que apenas têm que ter um dedo operacional para carregar num botão, muito mais eficiente e barato. Esse é outro paradigma. Naquele livrinho que ando a ler, eterna fonte de conhecimento e frases feitas, explica-se a riqueza súbita da Holanda no século XVII com o facto de estar cheia de pobres e importar outros tantos e parasitar o que os outros tinham descoberto antes, que corresponde ao actual modelo chinês. Falta-nos dar esse Grande Santo em Frente. Ça ira! Ça ira!

    • fnvv diz:

      Qual Sócrates, se foi no cavaquismo que começamos a desmantelar tudo?
      não há assombração, há factos: vai ver a evolução do ratio que produzimos e do que pedimos.
      Há milagres? Encomenda-me um.

  3. caramelo diz:

    Filipe, acho que podemos começar por concordar que sem os fundos não poderia ter sido feita muita coisa essencial e que isso não pode ser visto apenas do ponto de vista da produção; não numa relação imediata, pelo menos. Não há pais em que não existam fundos públicos, dinheiro que o estado tira de um sítio para ir meter a mil quilómetros de distância, seja nos states, seja, na Europa, a nível supra nacional, seja para uma estrada, seja para a ópera. Porque se assim não for mais ninguém o faz. O princípio está certo, o mecanismo é que pode estar errado, incluindo a afetação dos recursos e a fiscalização, e nesse aspeto nunca a coisa foi tão relaxada como no tempo do Cavaco e digo isto sem ponta de facciocismo. Não só começou ai, como atingiu aí o seu zénite. Era mais do que corrupção, era um modo de vida. Lembro-me bem das parangonas dos jornais: entram tantos milhões de euros por minuto! Ora, era só abrir o chapéu de chuva, correr e aparar. Muito caiu no sítio certo, muito foi vomitado para o ralo, depois da bebedeira. Não me parece que os alemães nessa altura se preocupassem muito. A fábrica da Mercedes devia fazer horas extraordinárias. Aliás, muita da regulamentação e diretivas comunitárias e correspondente transposição para as legislações nacionais só surgiram num momento posterior.
    Concordo que com tanto dinheiro que entrou, já poderíamos estar a produzir muito mais e nisso, todos, sem excepção, tiveram a culpa. Mas também é preciso sabermos que modelo económico queremos. Mais: que modelo de sociedade é que queremos. Por exemplo: ouço falar muito na “reforma do estado”, mas parece que estou numa peça do Becket ou do Ionesco. De que é que aqueles tipos estão ali a falar em cima do palco? E eles, sabem?

    • fnvv diz:

      “Filipe, acho que podemos começar por concordar que sem os fundos não poderia ter sido feita muita coisa essencial ”
      Claro, por isso escrevi que o país se modernizou.

      “Mas também é preciso sabermos que modelo económico queremos”
      Eco-friendly, digno, inteligente, sem desmesura. Que achas?
      ( vou ver se desenvolvo depois)

  4. p D s diz:

    Pois…eu por acaso até tive uma formação do FSE, remunerada, duração de 6 meses, nos idos 90’s (após concluir o 12ºano na via Tecnico Profissional). No meu caso até me serviu, e ainda hoje “produzo” no ramo que estudei quer no Liceu, quer no curso do FSE.

    Mas posso testemunhar que dos 15 formando da minha turma – Informaitca – apenas 3 se interessavam pela formação, o resto só queria o dinheiro…

    A empresa que promoveu a formação, tinha um catalogo de mais de 500 formações, espalhadas por todo o pais! (..é que nem formadores existiam para tamanho catalogo).

    …já se finou/liquidou-se há anos…foi só acabar o FSE e os subsidios, finou-se logo a coisa.

    Posteriormente, tb já fui confrontado com novo pacote de subsidios…e vai dai, toca a rapaziada a produzir uns chamados “Recursos Didaticos” que eram financiados tb pela Europa.

    Claro, no caso eram gestores e programadores e secretárias a produzir conteudos a martelo, para construir “Recursos Diaticos” (basicamente eram manuais, e cursos em ppt) sobre as mais variadas tematicas, que nenhum dos intervinientes dominava.

    Ora, esta situação, que presenciei em vairas empresas de medio porte digamos assim, foram de facto concretas,e posso tambem garantir que a “preocupação com os alunos”…nem com questões do tipo “como vamos fazer um manual e um curso sobre algo que não temos qualquer tipo de conhecimento?”.

    Agora é “fazer contas” ….isto que relato, vezes N empresas (basicamente seriam todas) a proceder desta forma….que raio de retorno se poderia esperar deste tiop de formação e processos ?

    e já agora, se juntarmos á formação….os outros sectores: Agricultura, Pescas, Industria…facilmente percebemos que os Fundos da Europa não foram aproveitados como seria suposto. Acho mesmo que fazendo uma lista, os casos onde de facto o investimento gerou produtividade e melhoria efectiva (e não apenas temporaria) deverão ser excepçoes.

    Para alem de todo o desperdicio e abuso…gerou-se uma cultura de “Yuppis” e “Jipes” e “Jovens Agricultores”..onde olhando para o lado se via que muitos, com facilidade, acediam a recursos e fundos…que pareciam não ter fim….!

    E aos pouccos durante 15..20 anos…as gerações mais novas, foram aprendendo por mimetismo que “não é preciso chão….nem precisamos de lá ter os pés”….e foi tudo embarcando na ilusão e no facilistismo.

    E isto que me parecem factos simples e facilmente verificaveis, é algo que só podemos/devemos responsabilizar os nossos “mandantes” e as nossas “elites” … que o viam tão bem quanto eu, mero comum mortal, e que a isto dizeram : nada!

    e é agora onde estamos….mesmo mesmo no quase. Nada!

    • caramelo diz:

      A FSE de tão boa memória. A famosa frase “o meu filho anda a tirar um curso de computadores”.

    • Carlos diz:

      Pois eu tive uma formação do FSE em «Cinema» durante três meses em Lisboa, sendo eu de Economia, em que o meu principal objectivo do curso era sentar-me ao lado da Marta para daí lançar uma ataque fulminante. Aprendi o plano picado e o contrapicado, fui ao cinema muitas vezes com a Marta e ainda fui pago para isso. Uma maravilha.
      Nota: estou casado com a Susana. (queriam finais felizes?!? ehehe)

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