Da arte da crítica

Juan Gris - Le Livre et la pipe
A crítica literária é um género por direito próprio, embora quase sempre destratado por quem não o frequenta. Só os que lêem recensões com a regularidade de um vício sabem o que ganham. É o meu caso: com algumas excepções, limito as minhas leituras à poesia, ao ensaio e a essa mistura de poesia e ensaio que é a boa crítica. Acaba por tornar-se uma mania como outra qualquer – e não garanto que seja inofensiva. Os consumidores de ficção costumam ser mais sociáveis do que os eremitas do poema e do pensamento: a concentração da palavra traz um vago perigo de desumanidade.
Talvez por isso a melhor tradição de crítica venha dos súbditos de Sua Majestade, mestres do understatement. Mais fruto do jornalismo do que da academia, Fleet Street destilou no mais alto grau a alquimia de erudição e humor, cumplicidade e distanciamento, ética e ironia que dá esta arte exigente. Porque há uma ética da crítica. Criticar sem ler é uma fraude. Elogiar por cálculo ou paternalismo é uma baixeza. Condenar por vingança ou despeito é uma vulgaridade.
Em suma, o que é uma grande crítica? Isto.

PP

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