Erros seus, má fortuna, amor ardente

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Alguém disse ontem que a agonia do Bloco de Esquerda não é apenas um facto conjuntural, é uma tendência irreversível. Talvez, mas não estou certo de que seja só por cansaço dos “jornalistas que fizeram o Bloco”. Para a desgraça dos bloquistas conjugaram-se erros seus, má fortuna e amor ardente.
O erro foi deixar que a imagem do partido se resumisse às “causas fracturantes”. Durante os anos do PS guterrista, o Bloco foi o campeão das propostas radicais nos costumes, sobretudo (mas não só) a liberalização do aborto e o casamento gay. Sócrates roubou-lhes estas bandeiras e fez da legislação fracturante um sinal de modernidade (o outro eram os magalhães para as criancinhas). A ultrapassagem pela esquerda pôs o Bloco fora da estrada. Não tendo aparentemente mais bandeiras, nem vontade de chegar ao poder em coligação, nem um projecto revolucionário para a sociedade, tornou-se inútil. As causas fracturantes que sobram, como a coadopção homossexual, colhem hoje apoios em todos os partidos, do PCP ao CDS. O Bloco foi vítima do seu próprio sucesso.
Mas também da má fortuna. Devido a esta colagem à esquerda jovem, urbana e pós-moderna, o BE nunca foi para o eleitorado popular e operário (ou o que dele resta) o verdadeiro voto de protesto. Esse papel ficou para o PCP, que tem vindo a inverter a espiral negativa que se seguiu à Queda do Muro e à ascensão do Bloco. Se as próximas eleições repetirem o resultado de ontem, é a morte do artista bloquista.
Amor ardente… É o de Louçã pelos amanhãs que cantam. Nunca é fácil substituir um fundador carismático, mas João Semedo e Catarina Martins têm a dificuldade acrescida de serem pessoas civilizadas. Para chefiar a tribo da extrema-esquerda, falta-lhes o grão de ódio na voz, o olhar vagamente alucinado, a sensação física de fanatismo sem a qual nem fiéis nem inimigos acreditam na tragédia da história, parafraseando Marx. Louçã tinha isso, e também Rosas e Fazenda. Mas alguém espera que Semedo e Catarina sejam capazes de “enforcar o último rei com as tripas do último padre”, segundo prometiam os anarquistas outrora?
Na verdade, a situação faz-me lembrar um dos mais hilariantes capítulos de O Homem que Era Quinta-Feira , a obra-prima de Chesterton. A páginas tantas, o revolucionário Gregory leva Gabriel Syme, um polícia infiltrado, à reunião secreta que vai eleger o representante da célula no Conselho Supremo Anarquista (o Quinta-Feira do título). Preso a um juramento que o impede de denunciar o espião, Gregory é o único candidato ao lugar. Para enganar Syme sobre a actividade dos bombistas, faz um discurso delirante em que os compara aos primeiros cristãos, acusados de canibalismo e sacrifícios humanos quando apenas queriam espalhar a mansagem do amor ao próximo. Assim que Gregory termina, entre protestos gerais, Syme levanta-se e grita: “Camaradas, foi para ouvir esta homilia que nos fechámos em segredo? Foi para ouvir que a virtude é a sua própria recompensa, faz o bem e serás feliz, que barrámos aquela porta com a morte? Só numa coisa concordo com o camarada Gregory: não somos assassinos – somos executores!” (Cito de memória, vão ler sff.) Syme arrasa então o discurso do incrédulo Gregory e candidata-se ao lugar de Quinta-Feira, sendo eleito por unanimidade, aclamação e frenético apalauso. O resto é ainda melhor.
Em suma, o Bloco tem de fazer o contrário do camarada Gregory: provar aos eleitores o seu anticonformismo. Mas há um grande problema. João Semedo e Catarina Martins são realmente simpáticos. Ninguém os vê a mandar a reacção para a guilhotina nem a atirar bombas à troika. Amor ardente, camaradas, amor ardente…

PP

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11 thoughts on “Erros seus, má fortuna, amor ardente

  1. Daniel diz:

    Acho que é uma boa analise do momento que o Bloco está a atravessar. Receio mesmo que o bloco se reduziu à inutilidade por causa própria. Muitos dos seus membros originais já o abandonaram, uns por falta de radicalismo, outros por não se ter tornado numa oposição e numa alternativa credível ao bloco central (através de uma aproximação ao PS). Mais vazio hoje, o Bloco acabou por se tornar uma desilusão a alguma base eleitoral que tinha angariado. Certamente a saída de Louça terá precipitado as coisas, mas julgo que já havia uma erosão previa. Esgotou-se e findo o efeito novidade não se conseguiu (até agora) reinventar. Não lhe auguro grande futuro…

      • Daniel diz:

        Caro Caramelo,

        Não julgo que os seus links acabem por ser temas radicais e fracturantes. Isto pelo simples facto de que podem muito bem ser temas em que um PCP ou um PS um pouco mais activo lhes podia pegar. O caso mais premente da falta de temas radicais e fracturantes dentro do Bloco, e que me levou a fazer tal afirmação, foi o dos piropos na rua. Quer um tema radical e fracturante? Que tal o fim das jotas?

        Quero reforçar que não digo que os temas apresentados não sejam importantes, mas são um reflexo da governação e das opções deste governo e não da sociedade em si.

    • caramelo diz:

      Daniel, falhei na ironia, está visto. É claro que não são temas radicais e fracturantes. Queria eu dizer que o BE não se esgotou, que não precisa de se reinventar, que não se reduziu à inutilidade. Primeiro porque os temas de que trata, na sua maioria, são mainstream, não são aquilo que se designa habitualmente como “radicais”. Segundo, porque, ainda que o fossem, a sociedade está suficientemente madura para suportar discussões sobre as tais causas que passam por radicais e fracturantes, as que respeitam a grupos e interesses específicos, as causas das minorias e causas parcelares da maioria. Mas o que se pode fazer quando para muitos respeitáveis e lidos fazedores de opinião, uma hora ocupada no parlamento a falar do casamento gay, por exemplo, é uma hora perdida e ferozmente cobrada?. É curioso que se diga que o BE tem boa imprensa, quando a imagem do BE que mais pega é a de um partido que debate o piropo e o casamento gay e se acentua o radicalismo destas discussões.
      A queda tem outras razões. O BE não é pior, nem melhor do que os outros, mas é um partido novo, não tem história, tem um grande atraso em relação aos partidos tradicionais com raízes antigas na sociedade, não tem a antiga ligação orgânica ao pais que têm o PCP, o PS, os partidos da direita, moderada ou não. Não conseguiu ainda ganhar raízes no país, não tem tradição de poder local e não tem um berçário bem organizado, as tais jotas. Mal comparando, os pais do Benfica inscrevem os filhos no clube logo que nascem, compram-lhes fraldas com o símbolo da águia e embalam-nos ao som do hino. Como não há de o Benfica (ou o FCP ou o Sporting) ser um grande clube? Mude o BE de estratégia de liderança, aguente firme, e daqui a mais uns anos se verá.
      .

  2. caramelo diz:

    E eu acho que o erro do Pedro é achar que as tradicionais causas do BE são propostas radicais no campo dos costumes. São radicais, em relação a quê e a quem? Até o papa Francisco começa a ficar impaciente com o radicalismo do anti-radicalismo. Se toma como referência o mundo e os valores em que se formou o PCP e restantes partidos há quarenta ou oitenta anos, claro que sim. Mas algumas das causas do BE até foram entretanto, imagine-se, apropriadas por outros partidos, precisamente porque não dizem apenas respeito aos tais jovens urbanos pós modernos, que não é mais do que uma caricatura grosseira. A maior parte das propostas do BE são até de natureza económica e um dos exemplos é a luta contra as novas formas contratuais de trabalho. Mas que muitos se esforçam, até com resultado, para passar a mensagem de que o BE se resume a sexo, lá isso é verdade. Uma espécie de La Grande Bouffe, com caviar.
    O problema da queda do BE é outro. O Louçã falava sobretudo sobre economia e dizia, no seu próprio tom, coisas que muitos outros economistas diziam, noutro tom: a influência da banca e grupos industriais no poder politico, a especulação financeira, a necessidade de taxar os mais ricos, etc. nada de tão radical assim. Mais uma vez, o habitual nas academias mais chatas. A única diferença é que o Louçã era um líder, no sentido que se dá habitualmente a um líder, a qualquer um, e nem sequer é preciso a inteligência que tem o Louça. O Passos é medíocre, mas tem aquele quelque chose que o torna um líder carismático para o seu povo. Se fosse agora substituído por dois simpáticos e cordatos deputados do partido, o PSD começaria a arrastar-se lentamente até acabar. Também é verdade que a imagem do Louçã estava desgastada e que o BE com ele, se não descia, também não crescia. A Ana Drago teria sido uma boa escolha.

    • ppicoito diz:

      Radicais para o grande número de portugueses que são contra. Claro que o BE tem propostas políticas sobre outras coisas, não consegue é que se fale disso. a culpa não é minha. E deixe lá o Papa. Vocês, católicos, só falam do Papa. Concordo: antes a Ana Drago.

  3. zé luís diz:

    Ora, cada vez que eu via e vejo ainda a Catarina vejo precisamente olhos esbugalhados de fervor cretino, boca a espumar de raiva, ódio nos insultos repetidos e má-criação. Não me parece nada simpática e, sim, se pudesse mandava os fascistas para o Campo Pequeno.

    Até o Jerónimo, sim simpático, n
    ao encarna o papel de “índio” que o nome sugeriria e a ideologia inculcada arrabata sempre.

  4. Alice Samora diz:

    “…falta-lhes o grão de ódio na voz, o olhar vagamente alucinado, a sensação física de fanatismo sem a qual nem fiéis nem inimigos acreditam na tragédia da história, parafraseando Marx.”
    Pode ter a gentileza de dizer onde é que viu isto escrito “em Marx”?

  5. ppicoito diz:

    A história repete-se: a “primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte).

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