My man.

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A pátria estremeceu quando Isaltino Morais lançou papéis em chama da cela da Carregueira em que um dia ficou para o jantar. Nem a Helena Matos conseguiu ainda atribuir o gesto vitorioso do autarca à ascendência nefasta da “esquerda”, para nossa desilusão. Como é possível, pergunta, que o prisioneiro disponha de material incendiário e o atice a seu belprazer contra o PSD e o Governo de Portugal?

Passo a explicar.

Todas as manhãs Isaltino desperta do seu sono de beleza com as harmonias hieráticas das Variações Goldberg por Glenn Gould, sublimemente reproduzidas numa Bang & Olufsen oriunda dos serviços camarários daquele Concelho próspero, saudoso que ele ornamentou. Após banho de espuma e libações, o autarca telefona ao sobrinho enquanto folheia jornais diários e  acolhe a vasta correspondência das eleitoras inconsoláveis. É aí que entra o papel.

Até à hora de almoço recebe visitas, ou enfrenta o director da instituição que o hospeda em torneios de bridge, canasta e gin rummy. É um homem simples, de uma probidade sem mácula, com quem se pode jogar honestamente. Depois o prisioneiro concentra as suas atenções nas iguarias do Petit, sólido restaurante de Algés onde um dia o avistei.

E à tarde, passando a hora da sesta com duas ou três brasileiras que o apreciam muito pela jovial sociabilidade e proverbial gratidão, dedica-se a prazeres elevados como a leitura de biografias políticas (Churchill, Disraeli, Augusto), ou o consumo criterioso de conhaques e charutos cubanos. Aí entram os fósforos.

Por esse motivo nunca os amigos o encontram despreparado quando o celebram, nem ele pertence ao tipo de pessoa que regateie provas de afecto pelo bom povo que, durante tanto tempo, gentilmente serviu.

Luis M. Jorge

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9 thoughts on “My man.

  1. O texto tardou, mas lá chegou — excelente. E estavas inspirado: as Variações Goldberg por Glenn Gould?! Só te faltou ir buscar a interpretação da Landowska!

  2. O Petit, desgraçadamente, is no longer. Da última vez que lá tentei ir, dei com o espaço onde ele existiu convertido numa xunguice qualquer.
    Já as brasileiras parece que continuam de boa saúde.

  3. João Lancastre e Tavora diz:

    Essa da B&O é como as três brasileiras. Nem dada.

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