Contratempo (XXIV)

Não sei se é defeito  da minha lente, mas o primeiro-ministro tem exibido uma qualidade notável: é invulnerável.

Qualquer que seja a stasis – política, de rua, parlamentar , governamental- nunca o apanhamos  desalinhado, aflito, engasgado. Tive um cão assim: com fome, sem fome, a corrrer, deitado,  de noite ou de dia, tinha sempre  a mesma expressão impávida  de la fleur au fusil. O que nos dizem estas qualidades num governante humano?

Chateaubriand não escreve entre 1814 e 1817. É no castelo de Montboissier que se relança, mas há o problema do canto do  tordo. Quando era novo e inexperiente, o canto do tordo provocava-lhe uma  melancolia esperançosa; agora, depois de ter visto o império arruinar-se, o mesmo canto,  mas uma melancolia que vem das más  experiências.

Imagino o primeiro-ministro a ouvir  o canto do tordo da mesma forma durante mil anos.

FNV

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11 thoughts on “Contratempo (XXIV)

  1. Filipe, aconselho a leitura desta notável entrevista a um dos companheiros de Passos Coelho dos tempos da JSD (e um dos poucos bons políticos do actual PSD), José Eduardo Martins: http://anabelamotaribeiro.pt/57184.html
    Mostra como a obstinação pode ser a mais perigosa das qualidades num político, sobretudo quando aliada à incompetência.

    • fnvv diz:

      vou ler, Sérgio, obrigado

    • ze diz:

      há sempre a hipótese de passos ser simplesmente uma besta. as bestas também têm sempre essa postura impávida. e sorriem muito. passos está sempre de sorriso pregado no rosto.

      a descrição que josé eduardo martins faz de passos na entrevista linkada, poderia eu fazer também de putos que jogaram comigo à bola nos juvenis.

      estamos a dar valor a quem não o tem.

    • João. diz:

      A meu ver, bem espremidinho não diz nada de especial e acaba a solicitar a continuidade de Passos Coelho.

  2. Uma citação: “É. Se a auto-estima nos leva a um ponto em que nos achamos auto-suficientes, e vamos dispensando o conhecimento dos outros, torna-se perigosa.”

  3. XisPto diz:

    Sem dúvida, e por vezes o roçar o masoquismo. Toda a dívida parece estar pendurada no seu pescoço. Junte-se a asneirada de certas opções e temos aqui matéria para drama.

  4. caramelo diz:

    Um dia cai-lhe uma lágrima, como à estátua de bronze do Príncipe Feliz.

  5. Miguel diz:

    Nem todos as pessoas simples são boas pessoas.

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