Não podemos viver acima das possibilidades, dona Isilda.

A senhora também votou nas setinhas? Naquele rapaz loiro, bem educado, com cara de anjo, que lhe prometeu pagar as dívidas cortando nas gorduras do Sócrates? Tem saudades do país de boas contas, limpo e ordeiro do professor Salazar? Desaprova que os pretos e ciganos se locupletem com rendimentos mínimos, tenças e prebendas subtraídas ao magro espólio de quem, como o seu falecido Libório, trabalhou uma vida inteira? Encontra consolo e verdade nos desígnios vaporosos da dona Isabel Jonet?  Acredita no poder redentor da caridade?

Ainda bem, filha. Porque vai precisar dela.

Luis M. Jorge

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4 thoughts on “Não podemos viver acima das possibilidades, dona Isilda.

  1. João. diz:

    Quando se fala em criar divisões entre os portugueses, em romper o pacto social, é bom que se dê alguma precisão ao que isso quer realmente dizer. A meu ver esse mecanismo consiste em fazer prevalecer a retracção do indivíduo ao egoismo familiar sobre o seu investimento na participação na vida da polis, da comunidade; esta, na sua base, no seu fundamento, é a elevação do atomismo e do egoísmo familiar a um universal que se reproduz pela superação deste egoísmo enquanto ao mesmo tempo não deixa que se extinga – se é a reprodução da superação do egoísmo familiar a comunidade deve ser capaz de recolocar esse egoísmo, de ter um espaço para ele, para que a sua superação se reproduza infinitamente e a comunidade chegue a ser uma substância ética onde os indivíduos encontram um espaço além do egoísmo, enfim, além das saias da mãe.

    Então o risco que corremos como comunidade é o do seu desaparecimento, quer dizer, de ficarmos de um lado com uma elite política e económica reeleita a cada quatro anos por metade dos votantes inscritos ou quem sabe um dia até menos que isso, e de outro com um povo dissolvido no princípio da ideocia, ou seja, no absoluto predomínio do egoísmo familiar onde predomina, para Hegel, o feminino, para o caso, a ironia com tudo o que seja do domínio político, o escárneo de todo o homem público e de todo o universal (no caso também de todo o discurso para a polis, não só, portanto, o discurso dos políticos, mas o próprio discurso das ciências e dos saberes teóricos – aliás é comum a todos os defensores da ideia de que não há sociedade, só há indivíduos, um grande desprezo pelas ciências teóricas, com a excepção da economia no que ela tem de esquemas supondo pouca ou nenhuma resistência de factores alheios ao seu domínio; os chamados excell do Gaspar, por exemplo).

    Quando se fala de quebra do pacto social é disto a meu ver que se trata, do desaparecimento do elemento universal onde o egoísmo familiar de um lado encontra o seu limite, sem que tenha se extinguir-se, pelo contrário até, e de outro uma esfera para se elevar acima de si mesmo dando à sua infinita reprodução um campo onde possa coexistir com outras famílias em empreendimentos de interesse comum.

    Vejo falar muito no indivíduo, como se o indivíduo não fosse capaz de ser estúpido que nem uma porta, como se o indivíduo não fosse capaz de agir contra o seu próprio interesse, enfim, como se o indivíduo fosse algum cyborg programado para executar apenas acções racionalmente evidentes e que somando todos os indivíduos, assim investidos por natureza a agir racionalmente, teríamos a soma de uma sociedade de predomínio da evidência racional.

    Mas este indivíduo não existe, é uma ficção. O indivíduo efectivo, realmente existente, tem o seu princípio e o seu fim na família e reduzindo tudo ao indivíduo, sem uma substância ética comum, reduzimos tudo à lógica das famílias: a inveja social, a mesquinhez, a desconfiança do próximo, enfim as pequenas misérias de que se faz a competição entre famílias (não que dentro da família não haja amor entre os seus membros, mas que esse amor fica para os membros da família e nada tem a ver com as outras famílias sendo até motivo de competição entre famílias as demonstrações de amor e coesão internas) – em última análise seremos um país de meninos da mamã, pouco importando se falam grosso ou fino, seremos um país de idiotas consumados.

    No entanto, julgo que ainda é possível evitar esta direcção que, a meu ver, é uma aposta clara deste governo na sua tentativa de disseminar o seu poder. Esta é a minha primeira razão para acabar com este governo e reenviar a malta que o cavalga de volta a virar frangos por muitos e bons anos: eles querem transformar-nos em idiotas.

  2. Já vejo a dra. Isabel Jonet a acolher no seu regaço mais uns bons milhares de desvalidos. Mas não andámos todos, pobres mortais, a viver de costas viradas para Deus e muito acima das nossas posses? Assim sendo…

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