Primavera Quente

O Público de ontem dá-nos um excerto do próximo livro de David Castaño (Mário Soares e a Revolução) que talvez ajude ao nosso debate sobre a democracia que o PCP, após o 25 de Abril, queria em Portugal. Tanto quanto percebi, o historiador baseia-se nas actas dos encontros entre as delegações do PS e do PCP e o Conselho da Revolução, a 23 de Maio de 1975, na sequência do encerramento do República, um jornal afecto ao PS, por pressão da comissão de trabalhadores, nas mãos dos comunistas. Para contextualizar o que transcrevo a seguir, recordo que as primeiras eleições livres, a 25 de Abril do mesmo ano, tiveram a participação de 92% dos 6 milhões e 200 mil eleitores, com os resultados de 37,9% para o PS; 26,4 para o PPD; 12,5 para o PCP; 7,6 para o CDS; e 4,5 para o MDP. Agora vejam o que nos conta David Castaño (e não é o único).

Concluída a reunião com o PS, o Conselho da Revolução recebeu ainda nesse dia uma delegação do PCP, liderada por Álvaro Cunhal. Indo direto ao assunto e expondo a sua visão sobre a crise política que se vivia, Cunhal afirmou, tal como tinha já feito [o Primeiro-Ministro] Vasco Gonçalves, que o processo revolucionário e o processo eleitoral estavam a entrar “em conflito”, uma vez que a dinâmica eleitoral estava a “travar o processo revolucionário e a reconduzir o país para um processo que não é o que está traçado”. (…)
Na sequência de uma pergunta de Vasco Lourenço sobre a possibilidade de manutenção da coligação [de partidos que sustentava o Governo], o líder comunista, depois de referir que achava difícil a cooperação com o PPD, sugeriu que uma alternativa poderia passar por um reforço do poder do MFA: “Tem-se falado muitas vezes na ameaça da ditadura militar. Pensamos que um governo militar pode assegurar as liberdades democráticas”, salientando, contudo, que não pensavam que “desde já” fossem “dispensados os partidos”. (…)
Relativamente às eleições, voltou a defender o que tinha dito a campanha, ou seja, que em muitos lugares “o voto não expressou a vontade livre” dos eleitores, e que os maus resultados [do PCP] se deveram à campanha anticomunista, praticada por todos os partidos à excepção do MDP. (…)
Relativamente às críticas que eram dirigidas aos comunistas no tocante à sua posição face às liberdades democráticas, Cunhal afirmou que o PC sempre lutara por elas e que as defendia, registando que essa linha de actuação advinha de exemplos estrangeiros, que não se aplicavam a Portugal, onde se registava um processo original, pelo que defendia “liberdades para aqueles que as respeitam, não para quem conspira”. Depois de mais algumas perguntas e respostas, dadas sempre por Cunhal, Vasco Lourenço, tal como tinha feito na reunião com os socialistas, perguntou ao líder comunista quais as etapas e quais as tarefas concretas que deviam ser aplicadas na construção do socialismo. Para Cunhal era fundamental garantir que as Forças Armadas continuassem a intervir como força revolucionária. Por outro lado, o MFA não deveria dispensar “a dinâmica das massas populares”, sendo a aliança Povo-MFA “essencial para construir o socialismo”. A concluir, rematou: “A ideia mais nítida é que o processo eleitoral não pode contrariar o processo revolucionário”. Não podia ser mais claro.

O que eu mais gosto na langue de bois é a transparência dos eufemismos: o processo eleitoral que não pode contrariar o processo revolucionário, o governo militar que não dispensa “já” os partidos, a liberdade para quem a respeita e não para quem conspira, o voto que não expressa a vontade livre dos eleitores…
Não há festa como esta.

PP

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28 thoughts on “Primavera Quente

  1. João. diz:

    Fala-se hoje muito mais contra os partidos do que falou o PCP nessa reunião.

    Quando as famílias que mandavam em Portugal antes da revolução continuam a mandar depois da revolução é evidente que alguma coisa falhou.

  2. ppicoito diz:

    É verdade: não percebo como é que nãos os despachamos a tempo (os partidos e os fascistas).

    • fnvv diz:

      Claro. Olha que em “A Revolução Portuguesa- O passado e o futuro”, by A. Cunhal, isso já lá está.

    • João. diz:

      A sua resposta é uma maneira de enfrentar a questão. Num processo revolucionário é preciso garantir que quando se vai para eleições que os poderes do regime anterior não só não condicionam as eleições como ainda comecem desde logo a consolidar a continuidade do seu domínio.

      O que o PCP sempre defendeu é que era preciso algum trabalho de desmantelamento destas estruturas e poderes antes de realizar eleições. Quanto a despachar pessoas quero só lembrá-lo que no PREC quem andou a recorrer a assassinatos não foi o PCP mas um certo e determinado grupo que incluía o apoio de membros da sua igreja e financiamento por parte de poderes económicos do antigo regime.

      • João. diz:

        “de não enfrentar a questão”

      • ppicoito diz:

        A ideia do PCP de desmantelar estruturas era adiar as eleições até liquidar qualquer oposição (uma coisa simpática que fizeram no Leste da europa depois de 45). Não conseguiram, felizmente.
        O grupo de que fala, com ou sem o apoio de mebros da minha Igreja (uma alegação que lhe dá jeito, mas está por provar), também não teve grande sucesso, pois não? Felizmente, mais uma vez

      • João. diz:

        Não seja mentiroso. O PCP nunca teve plano nenhum de liquidar a oposição, nunca recorreu ao assassinato nem ao terrorismo contra quem quer que fosse – com a excepção da ARA, durante o fascismo que, ainda assim, visava apenas bens materiais e não vidas.

  3. João. diz:

    Se fosse o PCP a dizer isto* era um ataque à democracia, blá, blá, blá, mas como são os donos de Portugal e os seus lacáios que o dizem já é um apelo ao exercício do bom senso e a normal e saudável critica afim com a democracia:

    *”Eurogrupo: Constitucional português é um tribunal «ativista»
    Fórum avisa que não há plano B para mais chumbos do TC”

    http://www.tvi24.iol.pt/economia—economia/constitucional-tc-eurogrupo-plano-b-chumbo-medidas/1497072-6377.html

    Aguarda-se a propagação do soundbite “Tribunal activista”. Ninguém quer saber que os juizes prestam um juramento e que, a meu ver, a melhor forma que têm de cumprir o juramento é decidir de acordo com a sua consciência. O que pensar de quem relativiza este juramento solicitando outras considerações que não a consciência do Juiz (com o conhecimento que se pressupõe sobre a Constituição) sobre o que é Constitucional? O que pensar dos juramentos que esta mesma malta presta quando assim são chamados por motivo, por exemplo, de entrada no governo? Será que é em vão que se pressiona um juiz para, em desobediência ao seu juramento, decida contra a sua Consciência?

    • ppicoito diz:

      Manobra de diversão típica. Até posso concordar consigo, como posso concordar sobre muita coisa, mas não é isso que está aqui em causa.

  4. João. diz:

    E já agora, sobre Álvaro Cunhal, quero sublinhar as palavras de Ramalho Eanes que não são de mera circunstância e tocam no exercício efectivo de relações entre o PCP e Álvaro Cunhal e a Presidência da República (é logo a seguir a Soares, aos 20 segundos mais ou menos):

  5. ppicoito diz:

    Há várias formas de liquidar a oposição. O terrorismo não é a mais subtil.

      • ppicoito diz:

        Ah, o Esteves… Pensei que estava a falar a sério.

      • João diz:

        Temos duas pessoas diferentes a confessar a sua participação no evento mas, por alguma razão, não são levados a sério pelo próprio PSD.

      • XisPto diz:

        O Esteves não é para levar a sério, mas não posso deixar de pensar, considerando as coisas fantásticas que vc escreve, como poderia ter sido o “imbecil útil” para justificar o que diz nunca ter sido intenção do PC. Afinal, o PC é (era) marxista-leninista ou não?

      • João diz:

        Se quiser saber quanto mais fiel à URSS fosse o PCP menos estaria disposto ao bolshevismo porque era política da Internacional Comunista que na europa ocidental os PCs seguissem a via eleitoral e parlamentar. Mas isto para quem se interessa pelo tema e não para quem só tem e só toca a cassete gravada pelo Mário Soares.

      • XisPto diz:

        João: eu falei de marxismo-leninismo, não falei de fidelidade à URSS, uma velha confusão. Eu penso que o PC foi leninista em 75 (e não me refiro só ao discurso do Cunhal em cima da chaimite a que assisti pessoalmente enquanto outros revolucionários posteriores ainda despiam os calções da Mocidade Portuguesa) e que até na recusa da “insurreição armada” de 75 o foi, avaliando corretamente o que sucederia. Sendo-o, as imputações que você tenta rebater de forma tão pouco convincente deveria antes aceitar com uma prova de coerência, e não estou a falar de assassinatos, ponto em que tem toda a razão. O que é incompreensível é a ambiguidade cultivada a este propósito.

  6. jj.amarante diz:

    O texto descreve uma realidade que está muito próxima do que me lembro da época. O que ultimamente me tem preocupado é a dificuldade em manter os cadernos eleitorais actualizados, retirando deles os mortos e, estimando quantos eleitores estão praticamente impedidos de votar quer por terem seguido o conselho do governo de Portugal emigrando quer porque já tinham emigrado antes. Digo “praticamente impedidos” por ser tão difícil votar por correspondência, não digo para os retirar dos cadernos eleitorais mas ter uma estimativa fiável fazia-nos muita falta. Mesmo para os historiadores que no futuro se defrantarão com grandes dificuldades para saberem qual a taxa de abstenção efectiva que se foi observando.

  7. Miguel diz:

    Pois. Não há dúvida que Cunhal e o PCP tentaram “esticar a corda”. Mas também é verdade que tiveram o cuidado de não a “rebentar”. Talvez seja ingénuidade ou falta de imaginação, mas não consigo imaginar uma revolução sangrenta ou uma polícia política liderada pelo Álvaro Cunhal.

    • ppicoito diz:

      Talvez seja. O PCP não esticou a corda porque percebeu, depois do Grupo dos Nove e do 25 de Novembro, que não tinha supremacia militar. Cunhal foi realista. É uma grande qualidade, mas não faz dele um democrata.

    • fnvv diz:

      Essa é a minha grande dúvida também Como já contei, tive o privilégio de ter estado um par de horas à conversa com ele, encontro arranjado pelo meu primo Jorge Gouveia Monteiro, que foi vereador CDU em Coimbra e por causa das ligações do meu pai ao partido.
      Curisoso, não desfiz a dúvida. Existiria uma lusitaneidade leninista em Cunhal, mais doce? Nunca saberemos.

      • caramelo diz:

        Mas essa é uma dúvida que podes esclarecer junto do teu primo, ou, por exemplo, do Manuel Rocha, que eu conheço pessoalmente e a quem não imagino a comandar ou aceitar purgas ou revoluções sangrentas. Não existe diferença, para esse efeito, em relação ao Cunhal. Trata-se do sector intelectual e portanto nem se coloca o caso de serem velhos operários e camponeses do partido, apenas com uns rudimentos básicos de marxismo-leninismo e um profundo sentimento de revolta e justiça social mas geralmente incapazes de fazer mal a uma mosca.

      • fnvv diz:

        Sabes muito bem a longa história das moscas…

      • caramelo diz:

        hããã… nope. The Lord of the Flies?

  8. ppicoito diz:

    O Esteves não pode ser um idiota útil, porque é simplesmente um idiota. Mas a sua pergunta não me é dirigida. Não há provas conclusivas de que Camarate tenha sido um atentado, fosse quem fosse o autor, e se o país tivesse mais vergonha na cara não invocaria tantas vezes em vão o nome de Sá Carneiro.

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