Provas de acesso

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Via Paulo Guinote, volto ao artigo do Público de ontem sobre a prova de acesso à docência dos professores contratados. Tenho simpatia pela luta contra a precariedade dos contratados, que às vezes se arrasta durante anos e anos. O início de carreira de um professor traz, quase sempre, uma situação de instabilidade laboral absurda. Prejudica todos os envolvidos: professores, alunos, pais, escolas. Só o Estado beneficia, porque poupa uns trocos.
Dito isto, a recusa de uma prova de acesso à profissão, que mobiliza sobretudo quem está fora do quadro, parece-me um erro. E um erro baseado em dois mitos, sejam quais forem os possíveis defeitos do modelo concreto.
O primeiro mito é que o Estado tem obrigação de garantir emprego a todos os candidatos a professores. Não tem e, se tivesse, não poderia cumpri-la. A queda da natalidade, que se vem sentindo há alguns anos e irá continuar a sentir-se por outros tantos, fez estragos no mercado de trabalho. E, se não fizesse, o Estado deveria regular o acesso à carreira docente, mesmo assim, por razões de simples bom senso. Acontece com os vizinhos (médicos e juízes, por exemplo) e ninguém se queixa.
O segundo mito é que todos os candidatos a professores são iguais. Não são, bem o sabemos. O horror à diferenciação tem duas causas funestas. Uma é o processo de avaliação da era Sócrates, um monstro burocrático que tinha por fim devorar a classe à mesa das gloriosas reformas do engenheiro-filósofo. Falhou, e ainda bem, mas o rasto de destruição irá perseguir-nos por muito tempo. A outra é o igualitarismo jacobino, que confunde a igualdade de oportunidades com a uniformidade das escolas, dos alunos e – fatalmente – dos professores. Mas não é porque o Ministério de Educação trata por igual (ou igualmente mal…) os milhares de contratados que eles se tornam iguais. Bem o sabemos, mas fingimos não saber.
Uma prova de acesso seria um esboço de triagem. Talvez a tão invocada escola pública agradeça.

PP

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15 thoughts on “Provas de acesso

  1. João. diz:

    Porque é que o critério que vai medir as notas dos professores não é também “igualdade jacobina”? Ou será que os critérios vão ser diferentes, individualizados?

    • ppicoito diz:

      Porque a nota não será igual. Os critérios de avaliação não serão individualizados, mas as notas sim. Uma escala de notas corresponde à igualdade de oportunidades (à partida, todos têm o mesmo teste e as mesmas hipóteses de uma boa nota), mas não à igualdade jacobina (nem todos têm a mesma nota).

  2. Em teoria tens serias capaz de ter muita razão. Na prática nem tu, nem ninguém sabe se a “prova de acesso” escolherá os melhores e rejeitará os piores. Além de que não sabemos de que forma +é que uma única prova é capaz de fazer uma escolha dessa natureza. Muitos “candidatos” gente ficarão de fora e dariam certamente bons professores, outros “entrarão” e provavelmente nunca darão uma para a caixa. Finalmente, a prova enviesará a concorrência entre docentes e potenciais docentes que se “formaram” em politécnicos ou em universidades igualmente habilitadas a dar formação académica a futuros docentes. A ideia da prova parece-me, portanto, um disparate. Mas é claro que há quem lhe encontre méritos que eu não consigo descortinar, sobretudo quando para mim alguma espécie de triagem deve ser feita ao longo da carreira docente e não antes de se entrar na carreira docente.

    • ppicoito diz:

      Sim, é possível que a prova tenha todos os defeitos que profetizas. Não há avaliações perfeitas. E também é possível que não tenha nenhum dos defeitos que profetizas. Não sei. Só sei que o princípio é bom e ter uma prova é melhor do que não ter nenhuma.

  3. Jorg diz:

    Se este exame fosse útil para desinfectar o sistema do “igualitarismo” e outras jacobinadas, seria bem vindo – não o é, porque as gangrenas e sornices relacionadas acontecem, dominam e são configuradas e impostas de forma mais danosa para o sistema educativo com quem já entrou, trepou e tem galho.

    A “prova de acesso” é apenas uma especie de apenso de torniquete para controlar o fluxo de quem entra. As escolas não vão sequer poder acenar aos resultados ou conduzir uma gestão para contratar alguém com distinção – só vão ter de verificar se, caso tenham vagas, quem pôs a mão no ar entre a multidão plantada no portão de entrada tem o carimbo “aprovado” na testa….

  4. fernando antolin diz:

    Faço a pergunta por não saber, mesmo, a resposta: os médicos são sujeitos a provas de ingresso, depois de terminarem a licenciatura e o estágio respectivo/especialidade etc, ao pretenderem entrar para uma carreira de serviço médico num hospital, centro de saúde etc, do serviço público ?

  5. ppicoito diz:

    Fernando, claro que não é simples. Ninguém disse isso. Mas o que tens agora também não é o ideal, pois não?

  6. jtavares diz:

    Pedro,

    Em França e em Espanha existem, há muitos anos, provas semelhantes. São muito concorridas: pelo que me contaram, há muitos recém doutorados a realizá-las. Em Espanha (Andaluzia), a prova tem (ou tinha) duas partes, uma científica e outra pedagógica. Vou tentar saber mais…

    Abraço

    Zé Maria

  7. fernando antolin diz:

    Só agora cá voltei. Os médicos fazem exame da especialidade, tudo bem, o que julgo não fazerem é um exame específico para a entrada no serviço público de saúde, seja para trabalharem em hospitais ou centros de saúde do SNS. Mas concordo com o Pedro na generalidade do que escreveu no post.

    Se o estado se reserva o direito de formar médicos ou juízes, por exemplo, até concordaria que os deva empregar, mas com um levantamento exaustivo e preciso das necessidades de médicos por distrito e respectivos hospitais/centros de saúde, sendo abertos concursos para as vagas que houvesse. Os juízes penso que já são colocados nas comarcas conforme as necessidades, o que não entendo é faltarem médicos por exemplo em Santarém e sobrarem em Lisboa ou Porto ou Coimbra.

    O mesmo se diga dos professores, detectadas as reais necessidades escola a escola, porque raio temos esta novela todos os verões e não são os candidatos colocados em termos definitivos, de acordo com os critérios que se entendam mais exactos ??

    Desculpem se liguei o complicador …

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