Ainda Fátima

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Dizia aqui um comentador residente que toda a gente sabe que Fátima é uma fraude e gerou-se uma discussão sobre a natureza do milagre.

Aqui  há dias pus um vídeo do canto de um muezzin e toda a gente achou belíssimo. Bem, Maomé, um dia em que o almoço tinha sido pesado, foi descansar para uma gruta e recebeu a visita do arcanjo Gabriel que lhe ditou o Corão inteiro. Claro, Fátima não incomoda pela sua discutível natureza epistemológica.

Duas categorias concorrem para o desconforto que Fátima provoca.

A primeira é a conotação com o Estado Novo. O futebol e o fado  foram reabilitados a velocidades diferentes. Em 1974-75 bem quiseram convencer o povo que o futebol era o seu ópio ( que o diga a Académica),mas arrepiaram logo caminho, o fado só se  pôs a salvo dos pedantes salvadores a partir dos anos 90.

A segunda, mais sumarenta, é o anacronismo. Fé, promessas e  sacrifício  são palavras que causam discinesias convulsivas nos modernaços que gostam de planear a nossa vida a partir de ideias que consideram boas. Uma outra, a  ideia de que a fé religiosa é incompatível com o progresso , ignorando a História europeia e pagando pelos desmandos  do Islão radical, também ajuda à missa.

O que gosto em Fátima, estando-me nas tintas  para a origem da lenda, é o seu lado subversivo. Nem o Estado nem o Mercado orientam aquela gente, que celebra, talvez fora de tempo, o mais precioso Bem da cultura: acreditar no que se quer sem ofender ninguém.

FNV

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42 thoughts on “Ainda Fátima

  1. Miguel diz:

    Se a opcao fosse apenas entre Fatima e o “Centro Comercial” & se os que vao a Fatima nao fossem os mesmos que basbacam em frente do Big Brother (ou equivalentes, o que dizes ainda passava). Mas ha’ outras escolhas possiveis, e ainda por cima sao os mesmos.

  2. caramelo diz:

    A nobre arte de desconversar. Filipe, eu gosto do som dos muezzin, assim como gosto de catedrais góticas e de canto gregoriano. E dai? Que tem isso a ver com o que estavamos a falar? Pareces não querer perceber que não está em causa a religião ou os seus rituais, muito menos os crentes, mas sim o seu aproveitamento.
    Dizes que te estás nas tintas para a origem da lenda e elogias o lado subversivo? Eu arriscaria dizer que talvez não seja tão subversivo, precisamente por causa da origem da lenda. É irónico que digas que o Estado não orienta aquelas pessoas, quando se sabe que foi precisamente o Estado (e sua religião oficial) que criou e promoveu Fátima… não te percebo. Sabes que há católicos que não acham assiom tão admirável a coisa, não sabes? Podes sempre discutir isto com eles. Se estiveres interessado discutir o significado de “liberdade”, avisa, que eu participo.
    A comparação com o futebol só serviria se tivesse sido politica da federação portuguesa de futebol e do estado fazer jogos com resultados combinados na secretaria. O resto, é onze para cada lado, pontapé na bola, fintas e golos, que é o suficiente para dar alegria ao povo, sem trafulhices. Olha, o maradona não marcou aquele golo com a mão? Foi a mão de Deus… pois.

    • fnvv diz:

      “Que tem isso a ver com o que estavamos a falar?” De fraudes. Ou há um limite temporal que põe Maomé a salvo?

      Bone e Caramelo, queridos, se eu quisesse mesmo desconversar perguntar-vos-ia que vos importa se a Fátima vai a operária velha ou a burguesa nova?
      Ou tendes contrato assinado para desmontar todas as fraudes populares “organizadas pelo Estado”, actuais e antigas, baseadas em crendice do pior, algumas que custaram milhões de vidas , promovidas por aldrabões de primeira apanha, também com muitas imagens e marketing, que excluiram e perseguiram outros crentes?
      Que não vos doam as mãos.

      • caramelo diz:

        Continuas a desconversar, é fascinante. Ah, eu não tenho contrato assinado, faço voluntariado e apareço quando calha..

      • fnvv diz:

        Se não quiseres desconversar, conversa: sobre crença, fé, liberdade.
        Ou seja ( fui interrompido por um frango a estufar com cebolinhas):
        Tu e a Bone têm um parti pris com Fátima por causa do Estado Novo ( para além do geral, marxista, mas isso fica para depois), é vosso direito. Conversar sobre a crença pacífica, em si, em 2013, é que é conversar.

      • caramelo diz:

        Fixe. Vamos fazer de Deus e reinventar o mundo e a religião católica em 2013 e não se fala mais nisso.

      • fnvv diz:

        Não tenho culpa que uma multidão sossegada a rezar te incomode ( foi assim que isto começou). Quer dizer, compreendo, mas enfim…

  3. Bone diz:

    Há quanto tempo não vai a Fátima? Uma feira de velinhas, santinhos e hotelaria, convenhamos que muito pouco anacrónica ou subversiva. E que se tornou também nos últimos anos uma passeata jet-set porque ser, ou melhor, afirmar-se como católico em Portugal é um gadget, um factor de distinção social em alguns meios, é o estilo catolic burgeois, que vai a Fátima com motorista atrás e o seu séquito de pobrezinhos e remediados. É quase como ir aos festivais de música de verão, Fátima está na moda. Jesus Cristo revoltar-se-ia de novo contra os vendilhões do templo e a própria virgem, no seu modo dócil e maternal, bem entendido, desaprovaria tanto mercantilismo e tanta vaidade. O milagre de Fátima é um fenómeno de fé, pois é, mas é sobretudo um fenómeno político e social, a fé como instrumento de dominação. O mercado e o Estado agradecem. O desconforto que Fátima provoca é o desconforto que a instituição Igreja Católica provoca necessariamente a qualquer cristão.

    • fnvv diz:

      Então afinal Fátima é para os pobres abrutalhados ou para os ricos de motorista? Então afinal é o ópio do povo ou a gasolina da burguesia? Então afinal é um resquício bafiento do salazarismo ou um grande negócio em vias de ser comparticipado pelos angolanos?
      É uma estucha, eu sei, e não pode ser proibida.

      • Bone diz:

        V. Exa. dá um novo sentido ao verbo desconversar, sabe bem que o mesmo produto serve bem diferentes segmentos, mas isso já são mais questões de marketing mix. E Deus me livre que Fátima fosse proibida, mas não me apetece citar Voltaire pois, como diria R.W. Emerson, “detesto citações”.

  4. henrique pereira dos santos diz:

    grande texto. se o autocarro em que vou parar em coimbra ainda lhe deixo dois ou três dos boletos que aqui levo, de agradecimento e para enriquecer o estufado

  5. As bambochatas dos “cristãos nominais” do Swift são muitas e sortidas. Quem diz Fátima diz Santa Maria Adelaide ou a Sãozinha de Alenquer. O ambulare pro deo peregrino fez o seu caminho histórico, mas isso é outra coisa… e essa coisa é que é linda.

  6. “(…) acreditar no que se quer sem ofender ninguém.”

    O Filipe, quando quer, sabe ser muito parcial. Estou à vontade para falar, pertencendo a uma família quase toda católica praticante e que muito se dedica a ofender os poucos ateus e agnósticos, eu incluída. Pego propositadamente no exemplo da minha família e não no dos vizinhos próximos e restante comunidade (como esta, no Pinhal Interior Sul, onde actualmente resido). E como é que ofendem?, pergunta o Filipe. Facilmente, mas desde logo impondo o seu Deus quando estamos em baixo, por exemplo, e não enviando-nos ao psicólogo, por exemplo, ou abrindo um discurso que inclua o Outro, de igual para igual. O ateu e o agnóstico são os sem Deus, logo, aptos para um enchimento de penas…

  7. Miguel diz:

    Outra maneira de descontruir o teu argumento, fnv: esquece o Estado Novo, a Igreja Nacional e quejandos; em seguida, considera o Bible Belt. Por fim, pergunta-te em que e’ que um se distingue do outro, descontados os particularismos regionais. Em que e’ que um e’ mais ou menos subversivo, mais ou menos disfuncional do que o outro.

  8. Miguel diz:

    Mas nada como revisitar os classicos:

  9. É exactamente porque “te estás nas tintas para a origem da lenda” que gostas tanto. Eu prefiro os “pedantes salvadores”.

  10. comida do proletário diz:

    Filipe

    O seu frango com cebolinho,além da Santa Virgem e dos santos Marx e Lenine abençoando,leva também um dedal de vinho? E ervas?

    • fnvv diz:

      Um dedal de branco e um de vinho fino, cuja doçura atenua a acidez das cebolinhas. Ervas? Para o frango gosto de carqueja ( dá o tom fumado e seco, contrastando com a brandura do bicho).
      ( tenho de arranjar formas de tragar o galináceo)

      • Esta ideia é fácil e da minha, chamemos-lhe assim, invenção 🙂

        Consiga uns peitos de galináceo, tenros. Corte em cubos, irregulares, que a disciplina não é para aqui chamada. Tempere com sal, a mão sem exageros. Numa frigideira de esmalte (alta, azul ou cinzenta, com pintinhas brancas, ou no wok, como entenda) verta um fio simpático e brincalhão, a fugir para a corda, de azeite. Dê meia volta e introduza na frigideira a falta de disciplina da qual foi capaz, anteriormente. Acrescente um exagero de alho picado, bem como uma multidão de grãos de mostarda. Se se sentir impulsivo, um mimo de mirin, que é exótico e cujo aroma dispõe bem. Acompanhe como entender.

      • fnvv diz:

        é bem capaz de me fazer marchar o galináceo ( o único pelo qual me perco é o caseirão que de vez em quando me trazem e que, claro, cabidelo) . Esse vinho de arroz nunca usei, vou investigar.

      • comida do proletário diz:

        Isso,tragar o galináceo.Aqui na Cintura da Redenção carqueja não sei.O fino não reforçará o adocicado da carne(?!) aviária? Vou também considerar a receita da Alexandra.

  11. O mirin é um condimento divinal. Generoso, apelativo e tranquilo que chama a si o sabor natural dos ingredientes, dignificando-os.

  12. xico diz:

    Em 13 de Outubro de 1917, reuniram-se em Fátima 70 000 pessoas que ouviram dizer que nesse dia se daria um milagre. Não havia rádio, nem facebook e a maioria não sabia ler. Não havia estradas para a Cova da Iria nem transportes. 70 000 pessoas. O Estado Novo teria de esperar ainda dezasseis anos e a Igreja era perseguida e destituída de poder por essa altura.
    Tudo pode ter sido manipulado posteriormente, mas aqueles miúdos atreveram-se a muito sózinhos e aquele povo foi lá, tal como hoje, maribando-se para a manipulação de quem quer que seja.
    O futebol ri-se da ingenuidade do Estado Novo e o Fado encontra-se finalmente domesticado e agora canta-se na casa da música acompanhado a contrabaixo. Manipulações do Estado Novo?
    Salazar foi a Fátima quase arrastado quando da visita de Paulo VI, porque temia Fátima!

    • comida do proletário diz:

      A Salazar talvez não interessasse um movimento que não controlava(o “botas” deveria continuar a ser objecto de estudo,o retrato ainda não está completo)mas à Igreja sim(perseguida)e o facto é que se apropriou dele.Fenómeno extra-terrestre?
      É um saco enorme,cabe lá tudo o que quisermos,o mesmo sucede com Deus–cada um põe ou tira os atributos que entende.Ainda há muito trabalho a fazer nos domínios do Conhecimento(Epistemologia e Ciências).
      E ao perú? Juntais-lhes o quê?

  13. xico diz:

    A maior parte das pessoas que conheço e que peregrinam a pé a Fátima todos os anos, e são muitas, não põem os pés na missa dominical.
    Este é o lado subversivo da coisa, como muito bem diz FNV.

    • Pois não, não! São os “cristãos nominais” de Swift, os inconformados do Senhor, que não suportam que Deus seja um caso de absent(e)ismo. Não há sagrado sem hierofania e miraculações, pensam eles. E pensam muito bem. A missa é curta e o mistério da transubstanciação tem muita filosofice, já o sagrado a aparecer ali mesmo é que é… É por isso que muito sacerdote é desconfiadamente condescendente com Fátima. Tomam-na como mais um arrebato pueril e pagão dos católicos. E esta é quase toda a subversão de Fátima.

      • fnvv diz:

        olha…olha…muy bien (voltarei a isto, muy bueno hueso)

      • caramelo diz:

        Eu desconfio que até há sacerdotes desconfiadamente condescendentes com a virgindade da Virgem Maria. Que tomem Fátima como um arrebato pueril e pagão, é com eles.

  14. gandavo diz:

    E já lá vão 35 comentários…

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