De Tróia à Lua

Ulysses-Boat
Dizer que a literatura ocidental começa com a Ilíada e a Odisseia é recordar que, na nossa origem, estão duas narrativas de temática improvável: um ajuste de contas e um regresso a casa. O pranto por um cerco e a epopeia de um deslocado, resume Steiner. O Ocidente nasce da guerra e da viagem. Em todas as outras civilizações dotadas de escrita, pelo contrário, as primeiras obras são teogonias, memórias fundadoras, hinos religiosos, livros sapienciais, códigos legais e éticos. Se contam histórias, é para sustentar a ordem do mundo. Mas nós imaginamos, desde o início, o mundo em desordem, um mundo de pertença e partida, de identidade e dúvida, de particularismo étnico e indagação universal.
Dois pólos que nunca deixaram de estar presentes no que lemos e escrevemos ao longo de três mil anos. A própria filosofia vem da pergunta sobre o que os deuses não explicam, o que é contingente, o que podia ser de outro modo – e responde muitas vezes por imagens (a alegoria da caverna de Platão, mas também os complexos de Freud). Em Roma, a Eneida, poema da fundação do império, principia com a fuga do herói e a derrota do seu povo. O Cristianismo impõe a este fundo clássico uma história sagrada. O Génesis narra a criação, marca oriental, e a partida de Abrãao da “terra dos seus pais”. O Êxodo, como indica o nome (em grego, desde a versão dos Setenta), retoma a caminhada do povo eleito. Os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos proclamam uma mensagem em movimento “até ao fim do mundo”. A metáfora do homo viator, do peregrino em busca de salvação, está intimamente ligada à visão cristã do destino. Joyce vai usá-la no Ulisses, mas reduz a odisseia de Leopold Bloom ao enredo mínimo – um dia, uma cidade, um final aberto. Não era assim na Idade Média: o cavaleiro errante (palavra entre todas sugestiva) demanda o Graal, a glória e o amor. Até na Chanson de Roland pode ver-se um combate entre “nós” e “eles” – ou uma longa jornada que acaba mal. Cervantes, que parodia esta literatura heróica, não deixa de obrigar D. Quixote a perseguir gigantes – ou moinhos. Marco Pólo é um Ulisses que se demora pelo Oriente e troca Calipso pelo Khan, pretexto para Italo Calvino escrever As Cidades Invisíveis. Dante vê na travessia entre o Inferno e o Paraíso o percurso da Humanidade, ao passo que Milton lhe atribui o trajecto inverso. Não anda longe de Rousseau e Marx, que supõem um estado natural de inocência, corrompido pela sociedade primitiva e restaurado pelo progresso. Montaigne, ao contrário de D. Quixote, não deixa o seu castelo, mas reflecte sobre a humanidade dos índios enquanto tem diante de si os franceses, enquanto Montesquieu ilumina o exotismo dos seus compatriotas comparando-os com os persas.
Um dos precedentes do recurso é a Utopia de Thomas More, que converte em melancolia política a lição da Odisseia: o sentido do mundo vem de um ideal longínquo e procurá-lo é voltar à idade de ouro. Marx, mais uma vez, e as grandes narrativas modernas, que descrevem a história como uma sucessão de ritos de passagem, aos quais chamam revoluções, até ao fim dos tempos. Não por acaso, a América, essa utopia que moldou a modernidade ocidental, tem origem na navegação dos Pilgrim Fathers, cantada no século XX por Simon e Garfunkel: “We came in the ship they call Mayflower/ We came in the ship that sails the moon”… E Tocqueville teoriza a democracia moderna ao percorrer, com os olhos no passado europeu, os vastos espaços do Novo Mundo.
A cultura ocidental é sempre este “livro do desasossego”, eterna história de acção rumo ao futuro e aos mares distantes. “Plus ultra” (mais além): a divisa de Carlos V podia ser o lema de um Ocidente que se projecta sempre no universo exterior, de Tróia à Lua. O único império que os europeus nunca fundaram foi o império europeu, a única conquista que nunca fizeram foi a da unidade, a única vitória que nunca celebraram foi a paz perpétua. Canta, ó musa…

PP

Anúncios

4 thoughts on “De Tróia à Lua

  1. vortex diz:

    em Itália Troia é prostituta.
    pelos meus 15 anos li o resumo da Odisseia da Sá da costa feito por João de Barros.
    Odisseus tornou-se o meu herói. Homero passou a ter lugar permanente na minha vida.
    esta manhã reli a passagem de Nausicaa, única virgem do livro, por causa da simbologia ramo de oliveira cultivada entregue aos atenienses por Palas, uma das 3 deusas virgens.
    a condição humana não variou em quase 3 mil anos

  2. ppicoito diz:

    Mais, talvez.

  3. vortex diz:

    gostei do mosaico ‘Odisseus e as Sereias’ do Museu do Bardo em Túnis.
    o civismo obriga-nos a viver amarrados para nos afastarmos da selvajaria do mundo actual.

  4. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, como tudo mudou: de Tróia à Troïka…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: