E se?

E se a Frente Nacional ou a Aurora Dourada acontecessem por cá? É uma pergunta recorrente, mas sem fundamento.
Por várias razões, a extrema-direita portuguesa está condenada ao fracasso, apesar da popularidade do Doutor Salazar e da impopularidade dos actuais políticos.
Uma é a memória da ditadura e o estigma associado ao fascismo, ao qual Salazar escapa porque é um símbolo das supostas virtudes do antigo regime mas não dos seus defeitos (não me perguntem porquê: há coisas que me ultrapassam).
Outra é a inexistência de um sério problema de imigração, ao contrário do que se passa em França e na Grécia.
Por último, o PCP continua a absorver o voto de protesto em Portugal. A quem duvide do nexo de causalidade, recordo a transferência de votos dos comunistas ou trabalhistas para a direita xenófoba em França, Inglaterra, Alemanha, etc. Os extremos tocam-se. Apesar das diferenças (os comunistas prometem um futuro sem ricos, os neonazis prometem um futuro sem pretos), aproxima-os a mesma retórica do ódio. Talvez o crescimento dos órfãos do Muro nas últimas eleições tenha, afinal, um efeito positivo. Paradoxalmente, afasta-os ainda mais do governo. Eles sabem que, no dia em que se aliarem ao PS em troca de meia dúzia de ministérios, ganham poder mas perdem votos. Quem suspira por uma grande coligação de esquerda não vê isto. Os órfãos vêem isto muito bem. Graças a Deus.

PP

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3 thoughts on “E se?

  1. Qualquer dia ainda temos que agradecer ao PCP o facto de vivermos em democracia.
    Mais a sério, a coerência , aqui um eufemismo para maniqueísmo, do PCP permitiu de facto englobar os mais extremistas, pois no PCP têm a garantia de nunca ser possível qualquer aliança com outro partidos, os quais são, para os comunistas, todos de direita reaccionária. Mas nos dias de hoje já não sou tão optimista em relação a esta função tribunícia do PCP no nosso sistema político, como um bloqueio fiável ao aparecimento de organizações não democráticas. E até há uns anos o PCP não estava sozinho nesta função, acompanhava-o, do outro lado, o CDS. Mas este trocou a sua base ideológica pelo acesso ao poder.

  2. caramelo diz:

    Pedro, a transferência de votos da esquerda para a direita em França, Inglaterra, Alemanha, e também na Itália, por exemplo, não é um fenómeno idêntico ao do crescimento do PCP, precisamente porque o voto no PCP não é um voto de protesto. Se o fosse, já o PCP já tinha passado o Tejo para cima. Não me consta que os desempregados de Ponte de Lima tenham passado a votar no PCP. O PCP apenas recuperou os votos que tinha perdido, no Alentejo e na antiga cintura industrial de Lisboa. A geografia aqui é mais ou menos estável e os fatores culturais e sociais têm muito peso. Pode-se pintar o mapa eleitoral da mesma maneira legislativa após legislativa, com pequenas variações. Não se passam aqui fenómenos como o do Nordeste industral em França ou grande parte do norte industrial de Itália, que passaram rapidamente de bastiões comunistas para a direita ou extrema direita.

    • ppicoito diz:

      Não estou nada convencido disso. A recuperação de votos do PCP não é assim tão automática. Seria preciso fazer uma análise mais fina, mas o que as recuperações de Loures, Évora ou Beja sugerem não é que os velhinhos comunistas entretanto conertidos ao PS voltaram de repente ao redil do PCP, mas que há um voto flutuante à esquerda, algures entre PS, BE e PCP, que escolhe realmente em função da conjuntura como voto de protesto. E é mesmo voto de protesto. Se não fosse, o PS ou o BE tinham tido muito mais votos. Para algumas pessoas, o PCP parece ser realmente a única oposição séria ao Governo.Valia a pena analisar se o PCP não subiu claramente a votação a norte do Tejo, mesmo quando não ganhou câmaras. Desconfio que teríamos algumas surpresas.

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