Mais papistas que o Papa

tu-es-petrus
No debate da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre Deus e a Europa, lançou-se a certa altura o tema das aparentes mudanças que o Papa Francisco estaria a trazer à Igreja. Eram os ecos da entrevista em que o Papa dizia que os católicos não podem estar “obcecados” com o aborto, a homossexualidade e a contracepção.
Curiosamente, e apesar do sólido desacordo no resto, concordei com a Palmira Silva: os estilos de Bento XVI e do Papa Francisco seriam diferentes, mas sem diferenças de substância. Ratzinger é um homem da palavra, um académico, um produto da universidade alemã, um intelectual que dedicou toda a vida a ler e escrever; não se dá bem com os holofotes e mede mal o impacto dos seus gestos (os exemplos vão do absurdo escândalo do “camauro” ao discurso de Ratisbona sobre o Islão). Bergoglio é um homem de acção, um pastor do Novo Mundo, um comunicador empático e afectivo, um líder habituado aos difíceis equilíbrios da política. Mas não os deveríamos resumir a este contraste superficial. Para alguma opinião pública, Bento XVI começou por ser um nazi e acabou como um profeta. Francisco, num ano, passou de cúmplice da ditadura argentina a revolucionário da cúria romana. Convenhamos que talvez sejam notícias um pouco exageradas. Todas elas.
Na verdade, a Igreja católica muda, como tudo o que existe, mas muda lentamente. O seu horizonte é o fim do mundo, não as próximas eleições. Obedece a livros escritos há dois mil anos, não às últimas sondagens. As mudanças acontecem dentro uma casa antiga, apertada e mobilada por sucessivas gerações durante séculos: a tradição cristã.
Ora, depois de tantos terem visto mudanças históricas na célebre entrevista, o Papa veio, por várias vezes, reafirmar a doutrina tradicional nas vexata quaestiones. A sua primeira encíclica, para não ir mais longe, já era uma continuação literal do magistério de Bento XVI, que escreveu grande parte do texto que Francisco acabou por assinar, “assumindo o seu precioso trabalho” (Lumen Fidei, 7). O mínimo que se pode dizer é que houve uma leitura apressada (quando houve alguma leitura…) da tal entrevista. O Papa não mudou nada. Apenas lembrou que o Cristianismo não é uma moral, mas o anúncio de Cristo a todos os homens.
É um erro farisaico resumir o Evangelho a um conjunto de interditos – esmagadoramente sexuais e afins. Se o Cristianismo fosse isso não se chamaria Cristianismo, mas antiabortismo, antipilulismo ou anticasamentogayismo (o que, além de falso, daria muito mais trabalho a dizer). E o Papa lembrou-o a católicos, a não católicos e aos que só ouvem a Igreja quando fala de sexo. A entrevista dedica páginas e páginas a temas como a fé, a liturgia ou o sacerdócio. O Papa só em duas perguntas fala de homossexualidade e aborto. Tanto basta para que nos dediquemos à exegese minuciosa da revolução, tal como os japoneses prevêem o futuro nas folhinhas de chá.
Quem espera que o Papa mude a doutrina para se acomodar ao comportamento dominante, espera, no fundo, a aprovação do comportamento dominante pela Igreja. Paradoxalmente. Porque, ao mesmo tempo, se declara a influência cada vez menor da Igreja nos comportamentos. E porque os que criticam o centralismo de Roma sonham com mudanças impostas por Roma.
Um exemplo. Há dias, um conhecido activista gay dizia que, com este Papa, até voltava a ir à Missa. E eu, que vou à Missa há trinta e seis anos, dei por mim a pensar que só Cristo pode ser razão de tão estranho hábito. Nunca o padre, a catequista, a avozinha, a miúda gira do último banco – ou o Papa. Ir ao sermão por causa do pregador é um pouco beato. O povo tem um nome para isso: ser mais papista que o Papa. Seja ele Bento ou Francisco.

PP

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23 thoughts on “Mais papistas que o Papa

  1. p D s diz:

    Pedro,

    não tendo eu cartão de socio de nenhuma agremiação relegioso, parece-me que de facto este Papa será diferente ou pelo menos assim o faz crer.

    Se a tal “substancia” que refere divergirá ou não da secularidade da igreja, já me é dificil avaliar e dabater…

    MAS, bem … mas usando as suas palavras, tambem me parece sensato dizer que :

    Afirmar , que não! que não é diferente, antes igual ao Ratzinger…

    …é parece-me a mim, estar a ser tambem : mais papista que o papa!

    • ppicoito diz:

      Eles não são iguais. Têm origens, percursos, sensibilidades, modos de agir diferentes e isso reflecte-se no seu governo da Igreja. O que digo é que as diferenças são mais de estilo do que outra colisa.

  2. caramelo diz:

    Pois, pois, mas o diabo está nos detalhes. Sendo verdade que a Igreja não é sobre sexo ou moral, também é verdade que, por exemplo, nos anos 60, esse pequeno detalhe que é a pílula provocou um pequeno terremoto no seio da Igreja. Portanto, essas curtas linhas que o papa dedicou à homossexualidade e aborto, podem bem ser uma pequena falha tectónica (o outro tinha falhas teutónicas) no meio da planície.

  3. ppicoito diz:

    Sem dúvida, mas a verdade é que a Igreja não mudou a doutrina em relação à pílula (outra coisa é que a maioria dos católicos não a siga). Do mesmo modo, o Papa não mudou a doutrina em relação ao aborto e à homossexualidade. Disse que seria um erro cavar uma trincheira atrás da qual a Igreja se refugiasse, agarrada a isso, em vez de ir lá para fora falar do essencial. A pastoral da Igreja tem dois mil anos, não se esqueça. Houve outras pílulas antes da pílula.

  4. beirão diz:

    Muitíssimo boa reflexão. Parabéns.

  5. MTA diz:

    Adorei este artigo. Muito bom.

  6. Diogo diz:

    Sempre em grande Pedro.

  7. o PP está a esquecer uma coisa: é que como há quem queira ir (e tem ido) além da troika, também no catolicismo (e cristianismo) se foi além do Evangelho. mas o título da crónica é elucidativo…para bom entendedor. para ser ainda mais clara: este é o tipo de texto e argumentação a quem a máxima (pela boca morre o peixe) serve que nem uma luva.

    • ppicoito diz:

      É um risco. Curiosa expressão, essa de “ir além do Evangelho”. Como é que se pode ir além de um mandamento como “ama a Deus sobre todas as coisas e ao próprio como a ti mesmo”?

      • ora bem, em vez dos “36” anos a ir à missa se tivesse referido o mandamento, eu nem sequer aqui escrevia nada. o ir além do Evangelho era uma ironia (tem de se explicar tudo aos homens). ao mandamento do amor que muito bem referiu, foram acrescentados tantos itens que só têm servido para excluir. Concluíndo: não é o mandamento do amor que muitas vezes move os cristão (que só pode gerar inclusão), mas regras que servem, mediante o cumprimento, méritos para si próprio, e o não cumprimento, para a exclusão de outros.

  8. henedina diz:

    Gostei muito do seu post Pedro.
    Nunca o padre, a catequista, a avozinha, a miúda gira do último banco – ou o Papa, só isto não é completamente verdade a inteligencia emocional leva-nos a aderir melhor se gostarmos.

  9. Diogo diz:

    «Cristianismo não é uma moral, mas o anúncio de Cristo a todos os homens»

    Não percebo. Se o Cristianismo não é uma moral, então o que é? O anúncio de Cristo a todos os homens? Com que objectivo?

    • ppicoito diz:

      O objectivo de anunciar Cristo não é fazer cumprir uma moral. A moral é consequência de uma relação pessoal com Deus e a Igreja a que chamamos fé. Tudo o resto, incluindo a moral cristã, vem daí. E se não vem, pode ser muitas coisas (boas ou más), mas não é de certez Cristianismo.

      • Miguel diz:

        Relação “pessoal” com Deus? Cheira-me a protestantismo, cheira-me a heresia. Se não é heresia, foi no passado não muito distante…

  10. O texto do Pedro Picoito fez-me lembrar o bem humorado livro “Até Onde Se Pode Ir?”, no qual David Lodge biografou as vidas eróticas de um grupo de estudantes universitários católicos ingleses, nascidos no pós-guerra, e para os quais a revolução sexual chegou tarde de mais. Nados, desmamados e criados na ortodoxia vaticanista do Catolicismo, rigorista e sexófoba, a via profana do sexo pré-marital, marital, extra-marital, pós-marital, é uma via crucis de temores e ardores, dúvidas e aporias: o que se pode fazer? Quais os limites? Até onde se pode ir?
    O sexo, caro Pedro Picoito, continua a ser a vexata quaestio do catolicismo, e é claro que para um certo catolicismo o melhor é passar pelo assunto como cão por vinha vindimada.

    • xico diz:

      A moral sexual da Igreja católica só tem interesse para o clero e para os não católicos. Os católicos, como eu, não querem saber disso para nada.

    • ppicoito diz:

      O sexo não é a vexata quaestio do Cristianismo, não mais do que outras. Diz respeito ao sexrto mandamento, o que significa que há cinco questões mais importantes, pelo manos. No meu caso, é o pagamento de impostos. É a parte da moral cristã que me custa mais. E tenho mixed feelings em ralçaõa ao Lodge, um grande escritor que percebeu muito mal o catolicismo (mesmo sendo católico).

  11. xico diz:

    Excelente análise. De facto assim é. E se vamos pelos afectos, então eu serei obrigado a confessar que Bento XVI continua a ser “o meu Papa”! É que não tenho muita pachorra para estrelas de televisão.

  12. caramelo diz:

    É curiosa esta discussão, porque é sintomático de que alguma coisa se está a passar com a Igreja. Antigamente, se bem me lembro, os padres eram de facto orientadores da moral; aliás, a salvação não tinha a ver com mais nada e levava-se muito a sério a função de pastor de fiéis dos padres. O que é que hoje em dia se diz em confissão? Já não se confessa que se foi para a cama com o padeiro e o padre já não manda rezar cinco aves marias? Os fiéis estão a tornar-se anti-clericais e a única coisa que exigem ao padre é que lhes leia as escrituras na missa? Terá a ver com a perda de confiança nos padres? Fez-me pensar o que disse o chico, católico (católico padrão, se bem percebi), sobre a moral sexual. Bem distante das angústias descritas pelo David Lodge, bem lembrado acima, e que para além desse livro, escreveu também o Um Dia o Museu Britânico Vai Abaixo, com a mesma temática.

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