“Não vejo ninguém apático”

Esta observação de um comentador aqui no D&Q abre  a corrida. Foi uma réplica a uma outra observação, igual a tantas outras, produto do desalento por não se ver por cá o protesto a sério: motins, presidenticídios  e ministricídios ( já alvitrados por Soares ), saques ao Jerónimo Martins etc.

É verdade o que César das Neves aqui diz: existe um abismo entre o incitamento  ao caos y revolução feito  pela  esquerda mediática ( a que exclui o PCP e  a ala segurista do PS) e  a realidade,  por isso o povo passa a ser albardado de apático, bronco, atrasado, conformista, etc. Nada de novo nesse sector: o povo só é  activo e inteligente  quando concorda com os sábios ( lembrem-se dos referendo ao aborto: o povo era grunho quando votou não, passou a  magnífico quando votou sim)

Acontece  que César das Neves  também calcula mal. O povo não está  a escaqueirar tudo por entender que este é o caminho correcto. Esta confusão, muito ancien régime-Opus Dei, é  recorrente, quase refogando a ironia de Kraus: o martírio é a única coisa aproveitável num ideal.  O cálculo está errado porque as pessoas não estão ordeiras,  as pessoas estão é a lutar para sobreviver,  apesar das asneiras dos governos  anteriores e destes ( o nacional e o europeu).

Se há um ar do tempo,  ele respira-se no sentimento de orfandade. Os partidos, os governos e  as instituições do Estado fizeram com que as pessoas tenham de se  desenvencilhar sozinhas.

FNV

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20 thoughts on ““Não vejo ninguém apático”

  1. josé serra diz:

    «as pessoas estão é a lutar para sobreviver»
    «Os partidos, os governos e as instituições do Estado fizeram com que as pessoas tenham de se desenvencilhar sozinhas».

    dois tiros de Marlin Model 308MX. ambos na mouche.

  2. Luís Marques diz:

    A maioria das pessoas que escreve no 5dias não é do PCP? Não faltam lá apelos à insurreição.

  3. joshua diz:

    Nenhum tumulto à vista em Portugal? É natural. Há raiva e sofrimento na mesma, entre nós, mas a maioria vai percebendo como é ridículo consentir em variadas formas de manipulação colectiva ou pela cúpula do Regime, que tem em Soares um instigador de magnicídios, ou pelo BE e a Ala Socratista do PS, apenas apostados em retirar dividendos políticos de curto prazo à custa do fragoroso colapso dos dois Governos, o Europeu e o Nacional.

    Sem a protecção desses Governos, sem solidariedade proveniente de lado nenhum [a sociedade portuguesa é hermética e sádica com pobres e excluídos], já é batalha suficiente termos de nos desenrascar para sobreviver com as parcas migalhas e parcos trocos de cada dia. A nossa frustração, raiva, impotência, sensação de fome presente e futura, queixumes do Presente e do Passado Recente Políticos, transforma-se em vernáculo e em palavras de fúria onde as possamos pichar, nas redes sociais e nas paredes, bendita catarse. As vitrinas podem descansar.

    Todos os dias colocamos uma mordaça voluntária e abstemo-nos da Rua apenas para prosseguimos alimentando os nossos filhos e esperando um milagre que não chega.

  4. Rui Jardim diz:

    Posso perguntar-lhe porque é que denota o tipo de pensamento em causa com o epíteto de Opus Dei?

  5. Rui Jardim diz:

    Ou, para ser mais exacto, em que é que o sentido do sofrimento humano apregoado no apostulado do Opus Dei é diferente do sentido do sofrimento no cristianismo: Anselmo, Agostinho, Pascal, os tipos todos?

    • chukcha diz:

      Não me sendo dirigido a mim, e com todo o respeito por ambos (rui jardim e fnv), acho que tem a ver com “a mortificação do corpo” (passe a metafora)…

    • fnvv diz:

      Vamos por outro lado. JCN escreve enquanto actor político e nesse sentido usei a expressão. Digamos que a OD , em Espanha ( o caso que conheço melhor) foi tendencialmente situacionista ( Calvo Serer e Fontán excelentes excepções) e no ancien régime português a tendência também foi essa. A biografia do Cardeal Cerejeira (menos colaboracionista do que se julga) é um exemplo da , digamos ,divergência do princípio para a acção.

      • Rui Jardim diz:

        Ia citar esses exemplos de membros do OD na oposição ao franquismo, mas o FNV não deixa ficar nada para os outros saberem, raios!

      • fnvv diz:

        Sei pouco. Acontece que gosto muito desse período da Espanha e das personagens contraditórias. Adolfo Suarez, claro, mas também Serrano Suñer, do qual tenho a biografia.

  6. manuel.m diz:

    Herois do Mar, Nobre Povo

    Há uns meses li que numa escola secundária em Almada ou perto, uma jovem aluna tinha sido violada por um grupo de uns cinco matulões colegas dessa mesma escola.
    Logo que este crime hediondo foi conhecido os jornalistas acorreram na expectativa de registrar imagens da revolta e indignação populares. Noutro país,dito civilizado ou não,haveria multidões clamando por justiça e pela punição exemplar dos malandros. Em Almada não : Nem um murmúrio por parte de professores,auxiliares, pais ou colegas da vitima. E porque “temiam represálias” !
    E perante este acto de cobardia colectiva é seguro dizer que em Portugal não haverá Praças Tahrir ou Taksim.
    Realmente o povo é sereno e sem chaimites primeiro nas ruas ficará prudentemente em casa.
    Já Luis de Stau Monteiro dizia :”O bom senso justifica todas as cobardias”.

  7. p D s diz:

    FNV,

    há algo no seu post que quanto a mim explica a “apatia”.

    É que para alem da “consciencia colectiva”, inconsciente mas assumida, do tradicional rotulo dos “brandos costumes” (vide Deolinda – movimento perpetuo associativo) portugueses…

    o tal “sentimento de orfandade” que refere, julgo como observador leigo, que este sentimento tb se estende (quase num “stress pós traumatico”) aos hipoteticos movimentos que vou surgindo ou tentando surgir, com vista a mobilizar a tal revolta latente.

    E se por um lado, me parece que á de facto cada ves mais revolta e desespero, em simultaneo existe tambem um descredito em relação a tudo o que seja “Organização” ou “Instituição”…em relação a tudo aquilo que é “liderado” por “outros”….e onde, me parece emergir um sentimento inconsciente e renitente relativamente á participação em “alguma organização. Simplificando parece-me que estamos neste momento num “limbo” onde á “revolta e desepero crescente” se alia um sentimento de “se o Estado, e as instituições não funcionaram e só se aproveitaram de mim…quem me garante que tb estes ou esta organização, não me está a usar ?…q se lixe eu tenho é de me safar!”

    E , como leigo, parece-me que este detalhe está a segurar muito da potencial participação.

    Perante isto, parece-me tambem que existem dois factores que vão crescendo…e que irão fazer estalar a “casca de ovo” que nos segura como Sociedade, a saber:

    1º – Este racionalismo do “se calhar tb estes se vao aproveitar…tenho é que me safar!” só se mantem, enquanto o sujeito tiver um minimo de subssitencia…e pelo andar da carruagem haverá muito sujeito que estará já a atravessar este limiar de “segurança” digamos assim.

    2º – Assim como temos inscrito no nosso DNA de povo o rotulo dos “brandos costumes”, tambem como povo ostentamos uma caracteristica potenciadora : “propensão para a carneirada!” : que me leva a prever que mesmo sem chaimites nas ruas…assim que a expressividade do descontentamente assuma determinada proporsão…a adesão será exponencial e (quase) imparavel. (vide os 50 “anounimous” 2 horas a madar pedradas á policia, com milhares de “brandos costumenses” sem arredar pé – embora alguns tenham tentado sensibilizar os “anounimous dos calhaus”, a maioria dos “brandos costumenses” mantiveram-se na retaguarda até dar!

    Donde, se pelo lado institucional e organizacional, será quase impossivel levantar e converter esta “apatia” em “acção”…parece-me que pelo lado do “desespero e revolta contida em pressão” e do nosso “instinto carneiral” temo que sem que se vejam sinais particulares…a coisa possa vir a ferver inesperadamente, a qualquer altura, podendo até ser mesmo despolotada por um qqr acontecimento circunstacial e aparentemente minimo.

    Espero tar enganado, e espero bem que se vá lá, pelo “descomprimir colectivo” oriundo de um aliviar das medidas/politicas e de um vislumbrar por minusculo que seja de alguma nova esperança…

    P.S – sim, tb eu tenho uma filha de 12 anos, que nem sei bem qual futuro (não!)terá…
    e tb eu enfrento o dilema de apaticamente pegar na biblia e dar a outra face…ou de activamente pegar no capacete e na fisga que tenho no quarto! E como bom portuga…quando a “ocasião fizer o ladrão”…não sei se a apatia resistirá!

  8. Miguel diz:

    Tens toda a razao, as pessoas estao a lutar para sobreviver e, assim sendo, nao estao apaticas. So’ que se trata de problemas diferentes. A apatia invocada dizia respeito `a participacao na coisa publica. Dois pequenos problemas. E’ isto mesmo que os que cometeram os erros querem. Um rato a correr numa roda dentro de uma jaulinha tambem corre pela vida, nao esta’ apatico, nao sai e’ do mesmo sitio. Brinde: a participacao civica (incluindo a participacao em manifestacoes) nao tem nada a ver com presenticidios

  9. vortex diz:

    os nossos antepassados eram analfabetos, mas não eram estúpidos.
    sobrevivo apesar dos governos do ps que já vão na 3ª falência

  10. XisPto diz:

    Não confundir o show of das manifs com a realidade de uma sondagem social em profundidade como os resultados globais das eleições autárquicas. O eleitorado está imóvel e na expectativa, rigorosamente como a carta do Gaspar o descreve, e tudo se pode precipitar de um momento para o outro, como o chumbo do orçamento pelo TC, um segundo resgate e/ou saída do euro.

  11. AntónioJoaquim diz:

    Broken Social Scene – Windsurfing Nation

  12. rosa diz:

    Penso que acertou em cheio: as pessoas: estão a desenvenchar-se, mas discordo do sózinhas- porque não é cada um por si.
    Por razões profissionais ,percorro Lisboa de ponta, a ponta: de Chelas a Telheiras, de Alvalade ao B.º dos Alfinetes, entro na casa das pessoas, ouço-as (gosto de ouvir) e ando sempre de transportes publicos (sem musica nos ouvidos).
    Parece-me quem fala do povo, sabe pouco do povo: como vive, o que come, como trata os filhos, em que casas vive. e sabe pouco da história do povo.
    Minha mãe diz que crise era quando os primos iam para escola sem sapatos. O povo vem dai: de ir sem sapatos para a escola.
    A mim parece-me que está acontecer muita coisa por debaixo da superfice: hortas nas varandas, ir de bicicleta pro trabalhar, meninas (e menimos) que voltam a aprender tricot, a diminuição do deperdicio. Os novos agricultores.Os novos artesãos. O uso de redes sociais…tanta coisa. Está certo que a escala é pequena…mas tudo foi pequeno algum dia.
    Se tivermos sorte, se o Governo não abusar da paciência do povo, talvez saíamos da crise melhor do que quando entramos. Mais fortes e mais lucidos. Oxalá! 🙂

    • fnvv diz:

      disso tenho muitas dúvidas…Não embarco nos apocalipses tácticos, mas há derrames de difícil recuperação ( a emigração, o desconchavo das PME etc)
      O “sozinhas” é sem o que referi ( governo,partidos), não é sem os outros ( aliás escrevi sobre isso logo no início do Depressão Colectiva)

  13. “Se há um ar do tempo, ele respira-se no sentimento de orfandade. Os partidos, os governos e as instituições do Estado fizeram com que as pessoas tenham de se desenvencilhar sozinhas.” Ora bem, é isso mesmo que acontece, Filipe.

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